Excesso de Polarização entre Centro-Esquerda e Centro-Direita: Ascensão da Extrema-Direita

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Quando um(a) companheiro(a) reclama da ascensão da direita no Brasil, que “saiu do armário”, onde se meteu envergonhada depois da defesa dos 20 anos de ditadura militar (1964-1984), olhamos para o resto-do-mundo e chegamos à conclusão que vivemos uma crise da humanidade. Talvez análoga à que ocorreu após a Grande Depressão dos anos 30 do século XX, quando ascendeu o nazifascimo na Europa (Alemanha, Itália, Espanha e Portugal) e ele se aliou com o Império bélico japonês na Segunda Guerra Mundial.

Gideon Rachman (FT apud Valor, 10/05/16) fez um balanço sobre o crescimento da extrema-direita. Reproduzo-o abaixo, seguido de outra avaliação sobre o que significa a vitória de Donald Trump sobre o establishment do Partido Republicano nos Estados Unidos.

“A notícia de que Donald Trump assegurou efetivamente a nomeação do Partido Republicano para concorrer à presidência dos Estados Unidos me levou de volta à Europa de 2002. Na época, foi um grande choque quando Jean-Marie Le Pen, um candidato da extrema-direita, ficou entre os dois primeiros nas eleições presidenciais francesas. Eu lembro que cheguei à sala de imprensa da União Europeia (UE) em Bruxelas, na manhã seguinte ao sucesso de Le Pen, para testemunhar o horror e a vergonha de meus colegas franceses.

A boa notícia é que Le Pen foi derrotado no segundo turno. A má notícia é que, em retrospecto, seu avanço representou um ponto de inflexão na política europeia. Desde 2002, os temas que Le Pen defendia — o nacionalismo, o ódio à imigração, a denúncia das elites “antipatrióticas”, o medo do Islã, a rejeição à União Europeia, o protecionismo — ganharam força na Europa.

A extrema-direita ainda não formou um governo na Europa Ocidental. Mas mudou o debate e forçou os políticos dominantes a abraçar algumas de suas causas.

Temo que a mesma coisa venha a acontecer com Trump. As probabilidades são de que o “republicano” (se é que ele é um) vai perder para Hillary Clinton em novembro [de 2016]. Mas a campanha de Trump já mudou a política nos EUA e no mundo — e deixará uma marca ainda maior nos próximos seis meses de campanha.

Temas e ideais que estavam relegados a um segundo plano entraram agora no mainstream político, e não vão desaparecer mesmo que Trump perca.

Quais são essas ideias? Eu destacaria cinco.

A primeiraa rejeição da globalização e do livre comércio. Este, é claro, é um tema que Trump compartilha com Bernie Sanders à esquerda do Partido Democrata. Sua influência já pode ser vista na maneira como Hillary Clinton retrocedeu na Parceria Transpacífico, um acordo comercial que ela antes defendia.

O segundo temao nacionalismo, sintetizado pelo slogan de Trump “a América em primeiro lugar”. Na Europa, o nacionalismo implica a rejeição da UE. Mas as implicações globais do nacionalismo americano são muito mais graves, uma vez que os EUA sustentam todo o sistema internacional de segurança e as questões sobre a moeda de reserva mundial, o dólar.

Uma terceira ideiaa adoção da noção de um “choque de civilizações” entre Ocidente e Islã. Mesmo tendo lançado a “guerra ao terrorismo” em 2001, o presidente George W. Bush rejeitou a ideia de os EUA estarem em guerra contra o Islã. Trump, com sua conversa de proibir temporariamente todos os muçulmanos de entrarem no país, basicamente abraçou a ideia de um conflito inevitável entre o Ocidente e o mundo islâmico.

O quarto temaum ataque implacável à “elite”, incluindo Washington, Wall Street e as universidades. A desconfiança dos populistas com as elites tem sido um tema perene na política americana há décadas, ou mesmo séculos. Mas a alta da desigualdade, a imigração e a crise financeira vêm levando a retórica a novos patamares. Como um milionário de Nova York, Trump é um tribuno improvável do homem comum. Mas ele vem fazendo esse jogo de maneira eficaz na campanha.

Um quinto temaa denúncia da grande imprensa como indigna de confiança e a adoção de narrativas conspiratórias que estão florescendo na internet. Trump, por exemplo, vem promovendo a ideia infundada de que o presidente Barack Obama não nasceu nos EUA. Seu gesto é pernicioso para a democracia, que exige um certo consenso sobre fatos básicos enquanto alicerce para o debate.

Variações desses cinco temas também florescem na extrema-direita na Europa. Os governos de Polônia e Hungria estão nas mãos de partidos que pregam uma mistura Trumpiana de nacionalismo, medo do Islã, desconfiança da mídia “liberal” e a antiglobalização. Na França, a filha de Le Pen, Marine, deve chegar ao segundo turno das eleições presidenciais de 2017.

Há, nos EUA, quem possa hesitar diante da ideia de um importante político americano pertencer ao mesmo campo ideológico da Frente Nacional francesa, que tem raízes no fascismo. Mas Le Pen vê esse paralelo e já demonstrou, pelo Twitter, seu apoio a Trump. Na verdade, em certos aspectos, a plataforma de Trump é mais extrema que a da extrema-direita francesa, que jamais propôs o veto à entrada de muçulmanos na França.

Trump também deverá ser mais bem sucedido eleitoralmente que a Frente Nacional. Le Pen conquistou menos de 18% dos votos em 2002. Sua filha pode dobrar esse total no ano que vem. Mas é quase certo que Trump conseguirá mais de 40% dos votos. É possível, como aconteceu com os Le Pen (e os Clinton e os Bush), que também vejamos o estabelecimento de uma dinastia Trump. Quem descartaria uma candidatura da filha de Trump, Ivanka, daqui oito anos?

Muitos americanos liberais ainda estão inclinados a tratar o fenômeno Trump como um pesadelo do qual esperam acordar em novembro. Mas isso parece altamente improvável. Trump a essa altura já demonstrou claramente o poder político das ideias que está promovendo. Uma geração em ascensão de nacionalistas [lembremos que Nacional-Socialismo — em alemão: Nationalsozialismus —, mais comumente conhecido como nazismo, é a ideologia de extrema-direita associada ao Partido Nazista, ao Estado nazista, bem como a outros grupos ultradireitistas], nos EUA e na Europa, vai se beneficiar dessa mudança.”

Trump

Gerald F. Seib (WSJ apud Valor, 10/05/16) avalia que “há uma consequência para a disfunção política e essa consequência é Donald Trump. De todas as forças por trás da ascensão de Trump e do trumpismo, uma das mais importantes é o impasse político partidário em Washington. Muito do apoio a Trump está enraizado na ideia simples e não ideológica de que ele vai fazer alguma coisa, mesmo sendo difícil ter certeza do que será isso.

De fato, quando eleitores consultados na mais recente pesquisa Wall Street Journal/NBC foram questionados sobre uma série de qualidade e atributos, Trump recebeu as melhores avaliações por “ser eficiente e fazer as coisas”, do que por qualquer outra qualidade. (…)

Na verdade, a ascensão de Trump fornece, finalmente, uma resposta a uma das questões mais desconcertantes da última década na política americana, que é a possibilidade de os eleitores retribuírem a disfunção em Washington com uma punição. O tão vilipendiado “establishment republicano” agora está recebendo isso.

Nos últimos anos foi o oposto: políticos e candidatos que se colocaram contra a contemporização e o compromisso em Washington foram recompensados, com elogios do partido e a reeleição fácil em casa. Os políticos que ousaram buscar a conciliação são os que foram punidos, com adversários diretos da esquerda ou direita ideológicas de seus próprios partidos.

Agora, chega Trump, prometendo levar “a arte dos negócios” para Washington. Essa característica de Trump é, aliás, um dos motivos de os republicanos conservadores não confiarem nele: eles buscam princípios firmes, enquanto Trump diz, basicamente, que quase tudo pode ser negociado.

Talvez o mais notável tenha sido ele ter dito recentemente que seu plano de grandes cortes generalizados nos impostos estará sujeito a negociações assim que for apresentado. Isso pode parecer uma declaração óbvia de como o processo legislativo deveria funcionar, mas se tornou um pensamento radical em uma Washington polarizada demais, onde concessões viraram um termo insultante.

O intrigante é que essa percepção de uma capacidade de fazer as coisas acontecerem é também uma possível estratégia para a disputa contra o provável rival de Trump nas eleições, a democrata Hillary Clinton. Há mais de um ano, um senador democrata perguntou qual seria a mensagem sucinta que uma candidatura Clinton deveria responder em particular: compartilho de muitas das posições de Barack Obama e realmente sei como viabilizá-las.

Enquanto esteve no senado, Hillary surpreendeu colegas dos dois lados do espectro político com sua disposição para mergulhar nas trincheiras legislativas e encontrar acordos bipartidários. Os eleitores parecem perceber isso. Na mais recente pesquisa The Wal Street Journal/NBC, as opiniões sobre as qualidades de Trump e Hillary variaram muito na maioria das áreas, mas eles receberam boas avaliações, quase idênticas, no quesito “ser eficiente e fazer as coisas”.

Por que esse atributo é útil em 2016? Uma olhada em algumas estatísticas preocupantes que registram a disfunção em Washington nos últimos anos dá o contexto necessário para explicar porque o impasse perdeu apelo político.

A ferramenta definitiva de Washington para sufocar um movimento é a técnica da obstrução parlamentar no Senado (chamada de “filibuster” em inglês), em que debates intermináveis podem impedir ações em relação a uma certa medida. Quando outros senadores querem dar um fim a isso e prosseguir, eles entram com o que é conhecido como moção de encerramento, que encerra os debates se obtiver o apoio de 60 senadores.

Portanto, a melhor maneira de monitorar o uso das filibusters é olhar para o número de moções de encerramento. As moções costumavam ser raras. Na Legislatura de 1969 e 1970, apenas sete dessas moções foram apresentadas, segundo registros do Senado. Vinte anos depois, o número subiu para 38. E, na mais recente Legislatura completa, de 2013 e 2014, um total de 253 moções de encerramento foram encaminhadas para tentar acabar com os filibusters.

A aprovação de leis não é necessariamente o melhor indicador de progresso, pois uma lei pode ser vista como boa ou ruim, a depender do ponto de vista do observador. Ainda assim é um bom indicador de movimento ou de falta de.

Estatísticas da GovTrack mostram que as duas últimas Legislaturas (2011- 2012 e 2013-2014) produziram o menor número de leis aprovadas da história recente.

Esses são retratos do tipo de futilidade que ajudou a alimentar a ascensão de Donald Trump.”

 

Democratas X Republicanos Efeito de campanha nos EUA

Os dois principais candidatos, que estão bem distantes ideologicamente, já anunciaram planos divergentes ou vagos para o comércio exterior, impostos, imigração e outras políticas que influenciam profundamente a economia. Isso cria incerteza, algo que as empresas não gostam e os consumidores podem achar inquietante.

“As empresas ficarão relutantes em investir ou contratar se não tiverem nenhuma ideia de como será a política do próximo governo, e se for mais barato esperar, elas farão isso”, diz Nicholas Bloom, professor da Universidade de Stanford, que tem estudado os efeitos do sentimento de incerteza na economia.

As evidências são detectadas através de um enorme leque de pesquisas e conjuntos de dados. Bloom desenvolveu um índice que vincula a incerteza política — frequentemente vista antes das eleições — a uma grande volatilidade no preço das ações e queda nos investimentos, na produção e no emprego. Uma pesquisa do banco americano Wells Fargo registra desde 1933 esse desempenho fraco dos mercados financeiros em anos em que o presidente no poder não é candidato. E pesquisas recentes do banco Bank of America e da firma de auditoria PricewaterhouseCoopers mostram um aumento da ansiedade entre empresas associada à eleição.

Certamente, um número de forças— vinculadas a políticas, políticos e mais — são responsáveis por amplas mudanças na economia. A saída potencial do Reino Unido da União Europeia e os próximos passos do Federal Reserve, o banco central americano, em relação aos juros, por exemplo, são vistos por muitos investidores e economistas como mais significativos.

“O Fed é muito mais importante para a economia global que as eleições presidenciais americanas”, diz Brian Levitt, estrategista sênior de investimento do OppenheimerFunds.

O aumento da incerteza política parece deprimir a atividade econômica pelo menos até a eleição passar. Bloom, da Stanford, estima que uma campanha acirrada, especialmente entre candidatos com plataformas políticas bem diferentes, reduziria o crescimento em até meio ponto percentual nos trimestres anteriores à eleição. Os Estados Unidos já têm pouco espaço de manobra: a economia cresceu modestos 0,5% a uma taxa anualizada e sazonalizada no primeiro trimestre do ano.

As empresas “podem até gostar das políticas de Trump”, diz Bloom. “Mas é que Trump é tão diferente de Hillary Clinton e ele é tão desconhecido que há uma grande nuvem negra de incerteza pairando no horizonte que levará [as empresas] a fazer uma pausa.”

Uma outra pesquisa da regional do Fed na Filadélfia, que criou seu próprio Índice de Conflito Partidário, exibe resultados similares, mostrando que conflitos políticos desencorajam investimentos em produção e emprego. Marina Azzimonti, professora associada da Universidade Stony Brook que ajudou a desenvolver o índice, diz que uma grande oscilação no indicador corresponde a uma queda de 1% nos investimentos mensais de empresas do setor privado.

Os mercados financeiros também se curvam ante o peso das eleições. A pesquisa da Wells Fargo monitorando o índice S&P 500 durante o quarto ano do mandato presidencial mostra um retorno de 1,2% em um ano de eleição aberta — quando o atual presidente não está concorrendo — ante um retorno de 9,7% em anos de reeleição.

“Pode ser aquela divergência entre os candidatos e a falta de segurança em relação à direção que o país irá tomar”, diz Tracie McMillion, diretora de estratégia de alocação global de ativos do banco Wells Fargo. “Até você ter certeza, você adia compras, seja você um consumidor ou uma empresa.”

A crescente a falta de clareza sobre qual partido irá dominar o Congresso e o assento vago na Suprema Corte e esse será um ano excepcional para a incerteza política. Empresas que vão desde montadoras de carros a fabricantes de guitarras já estão notando os efeitos das disputas de campanha associados a um ambiente de incerteza política.

“Eu já havia observado no passado em eleições muito controversas — e parece que estamos a caminho de uma dessas este ano — que os consumidores hesitam em fazer compras grandes”, disse Mike Jackson, presidente do conselho, presidente e diretor-presidente da AutoNation Inc., a maior operadora de concessionárias de veículos nos EUA a investidores em abril.

Keith Brawley, diretor de vendas globais da Taylor Guitars, fabricante de instrumentos musicais da Califórnia, diz que os anos de grandes eleições geralmente são duros para os consumidores. “As pessoas são bombardeadas com mensagens negativas dos candidatos”, diz ele. “O medo, incerteza e dúvidas que eles propagam não inspiram os consumidores a gastar.”

As recentes pesquisas corroboram os efeitos corrosivos da atual campanha eleitoral. Uma pesquisa da PricewaterhouseCoopers entre empresas de capital fechado identificou uma crescente preocupação com a economia, parcialmente ligada a incertezas regulatórias e ao cenário legislativo. Esse padrão tem se repetido nas últimas três campanhas. E cerca de 70% das pequenas empresas informaram que a eleição presidencial irá afetar “muito” ou “de certa forma” seus negócios, revelou uma pesquisa do Bank of America.

“A incerteza faz com que os mercados e proprietários de pequenas empresas parem”, diz Robb Hilson, executivo de pequenas empresas do Bank of America. “Quando as coisas são decididas, eles tendem a acompanhar a nova realidade. Espero que esse seja o caso agora”.

 

 

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