Inovação Financeira e Tecnológica: Fintech

Fintech-Basics

Contra a pretensa ameaça de “desintermediação bancária” os grandes bancos brasileiros de varejo reagem também fornecendo aplicativos aos clientes para “mobile banking”, tanto para acesso a conta corrente e investimentos quanto para consultas e pagamentos com cartão de crédito.

Sérgio Tauhata (Valor, 09/05/16) avalia que o maior pesadelo dos bancos tradicionais hoje está bem aí no seu bolso ou bolsa. A chamada tecnologia financeira – ou, no jargão do mercado, “fintech“, uma contração dos termos em inglês “financial technology” – usa e abusa da mobilidade e da internet para implementar de modo eficiente e conveniente serviços antes restritos às instituições financeiras. Os principais palcos onde essa disputa tem sido travada são justamente os smartphones e tablets.

O que assusta os executivos é a possibilidade de o consumidor pular a intermediação, ou seja, o próprio serviço das instituições financeiras. Ainda é cedo para saber se os bancos têm motivos para preocupações, mas, em alguns poucos anos, as respostas estarão ao alcance de suas mãos.

O canal móvel avança a passos largos no Brasil. Pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) com os sete maiores grupos financeiros do país, divulgada em dezembro, mostra que, no primeiro semestre do ano de 2015, 21% das transações se originaram de smartphones e tablets. No fim de 2014, as operações por meio de dispositivos móveis representavam apenas 14% do total.

Uma das apostas mais recentes de “fintech” com potencial disruptivo tem um brasileiro com sobrenome empreendedor entre os responsáveis. Parte da quarta geração de herdeiros da família Ermírio de Moraes, dona do grupo Votorantim, Lucas Moraes, de 26 anos, decidiu trilhar um caminho bem diferente da jornada industrial que consagrou seu tio-avô Antônio Ermírio e seu pai Marcos Ermírio de Moraes.

Em 2014, o administrador de empresas e ex-piloto de motocross decidiu dar uma guinada radical nos rumos de sua carreira e seguiu seus instintos. Mudou-se para o Vale do Silício, em São Francisco, nos Estados Unidos, para “estudar tecnologias exponenciais e trabalhar com inteligência artificial”.

Os dois anos de expatriação e imersão no ambiente de tecnologia inovativa do vale resultaram no projeto Olivia, criado por Moraes com outros sócios. “Trata-se de um robô-aplicativo, criado para cuidar da vida financeira do usuário”, resume.

O aplicativo, afirma o empreendedor, já tem uma versão operacional para usuários de iPhone, da Apple, que será lançada ainda no primeiro semestre nos Estados Unidos. No Brasil, a expectativa da “startup” é disponibilizar o serviço a partir do segundo semestre, já com versões para o sistema operacional Android, do Google, também.

A descrição sucinta esconde o verdadeiro objetivo: tornar o aplicativo um banco. “Queremos criar um novo modelo de intermediação financeira, o banco do futuro”, afirma o empreendedor.

A ideia, segundo Moraes, é cuidar do dinheiro em todas as dimensões financeiras do usuário, o que inclui pagamentos de contas, transferências monetárias, planejamento orçamentário e até investimentos. A chave para isso, diz, é a inteligência artificial. O robô vai aprender a cada momento mais sobre os hábitos e necessidades da pessoa. “A Olivia vai chegar a um ponto no qual vai, por exemplo, aconselhar o momento de abastecer o carro e apontar qual o melhor lugar ao longo da rota”, afirma.

O aplicativo será acionado por frases em linguagem natural, como “posso comprar isso?”, cita o empreendedor. Essa pergunta específica, por exemplo, vai desencadear uma série de análises, desde endividamento, acesso a crédito, folga no orçamento, e, caso a resposta seja afirmativa, vai incluir uma pesquisa para identificar se aquele é o melhor preço. “Será tudo automático. Para transferir dinheiro bastará avisar: ‘Olivia envie um valor x para tal pessoa'”, diz.

O robô usa sensores embutidos nos smartphones atuais para monitorar hábitos do usuário e, além disso, conecta-se às contas bancárias e usa aplicativos terceiros para pesquisar diversos tipos de informações, como preços e serviços.

Nos EUA, a startup já fez acordos com a maior parte das instituições financeiras para conseguir acesso às contas e dados bancários do usuário, desde que o cliente autorize essas consultas e, futuramente, eventuais operações. No Brasil, o serviço ainda está em fase de negociação com os principais bancos.

Em relação ao que acontece nos Estados Unidos, a área de tecnologia financeira ainda engatinha no Brasil. Já estão disponíveis no mercado americano, por exemplo, soluções em que consultores-robôs fazem a gestão automatizada da carteira de investimentos do usuário, com rebalanceamento periódico e escolha de ativos conforme o perfil de risco da pessoa.

[FNC: lá é uma economia de mercado de capitais, onde predomina a renda variável obtida em portfólio de ações, aqui é uma economia de endividamento bancário, onde predomina a renda fixa, ou melhor, pós-fixada, quando há necessidade de muita “ciência” para selecionar a carteira de ativos.]

Conforme os serviços financeiros começam a ganhar fama mundo afora, passam a ser alvo de empreendedores locais. É o caso dos consultores-robôs. O primeiro em desenvolvimento de que se tem notícia no Brasil tem lançamento programado para o segundo semestre. A Vérios, desenvolvedora, tem inspiração nos modelos americanos. “É um serviço com todos os pilares de investimento automatizado nos EUA, adaptado para o Brasil”, diz Felipe Sotto-Maior, executivo-chefe da empresa.

O serviço vai agregar um aplicativo para o usuário acompanhar os investimentos e interagir com a empresa. De acordo com Sotto-Maior, a tecnologia vai juntar a alocação combinada previamente com o cliente com uma gestão prática da carteira. “Aí entra a automatização: o algoritmo faz todas as contas matemáticas e todas as operações financeiras.”

O algoritmo é capaz de ler o perfil do usuário, compará-lo com a alocação estratégica escolhida, verificar o saldo e fazer a alocação. Observa-se que, além dos problemas de custo, as pessoas simplesmente não seguem o planejamento, porque dá muito trabalho. O consultor-robô da Vérios pretende assumir todo o trabalho “enfadonho” relacionado ao acompanhamento e ao rebalanceamento do portfólio.

Inicialmente, o aporte mínimo para usufruir do serviço será de R$ 50 mil. Depois, sem obrigação com prazo ou regularidade, o investimento adicional tem de ser a partir de R$ 100. “A gente quer baixar o tíquete, mas hoje ainda não é viável, pois se eu baixar demais o valor da carteira os custos em reais ficam pesados”, conta o empreendedor.

Para uso do serviço, a Vérios cobra uma taxa fixa única de 0,95% ao ano sobre o patrimônio! “Isso inclui todos os custos que o cliente tem, como corretagem, custódia, taxa da BM&FBovespa para o Tesouro Direto e taxa de administração de ETFs”, diz.

Os Exchange Traded Funds (ETFs), fundos de índices com cotas negociadas em bolsa, são os principais ativos usados na alocação automática. Segundo o executivo da Vérios, na renda variável, o serviço faz alocações em um ETF que replica o IBrX-50.

Na fatia em renda fixa, o investimento será feito por meio do Tesouro Direto, plataforma on-line de negociação de títulos públicos, com compra de LFT (papéis pós-fixados atrelados à Selic), as prefixadas LTN e NTN-F e as NTN-Bs, títulos indexados ao IPCA que pagam uma parcela de juro real.

Além dos ativos brasileiros, o robô da Vérios fará alocação no exterior por meio de um ETF que segue o índice S&P 500 da bolsa de Nova York. A liquidez da carteira, afirma Sotto-Maior, será de cinco dias úteis.

Antes de contratar o serviço, o cliente passa por uma fase de “suitability, que vai definir o perfil de aceitação de risco. O interessado vai responder diversas perguntas, como ele lida com dinheiro, com risco, capacidade de poupança e outras questões relevantes.

Na parte operacional, o contratante abre uma conta no sistema da Vérios e outra conta financeira na corretora. Depois, tem de assinar um contrato de mandato de gestão para transferir à Vérios a responsabilidade de cuidar da conta individual do cliente na corretora. “Montamos o modelo após consultas à CVM [Comissão de Valores Mobiliários] para fazer todo o processo dentro da regulação vigente”, explica Sotto-Maior.

Isso inclui manter todas as informações sobre a carteira, ativos, operações, rentabilidade e riscos acessíveis o tempo todo ao investidor.

Selected-FinTech-Companies

Ninguém sabe ao certo até onde a tecnologia de serviços financeiros (“fintech“, no jargão em inglês) vai mudar as vidas das pessoas. O consenso, no entanto, indica que isso não só vai acontecer como poderá ser relativamente rápido. O potencial para inclusão e transformação, no dia a dia, de classes de menor renda nas soluções digitais não passou despercebido pela aceleradora Artemísia, que aposta em “startups” com propostas de negócios de impacto social.

Dentro de sua linha de atuação, a Artemísia passou a apoiar iniciativas de novos serviços financeiros digitais com potencial disruptivo. “Nessa área de tecnologia financeira, há grandes oportunidades, a começar pelo fato de 40% da população brasileira não ser bancarizada [FNC: em relação à PEA urbana  e adulta seria a conta correta]. Existe um porquê de essas pessoas não terem contato com banco. Alguns não querem, mas outros simplesmente não conseguem”, pondera Renan Costa Rego, coordenador de busca e seleção de negócios da aceleradora.

Uma “startup” acelerada pela Artemísia investe em desintermediação do processo de crédito. A Biva, segundo a própria empresa, é a “primeira plataforma de ‘P2P lending‘ do país”. No jargão da tecnologia da informação, P2P quer dizer “par a par“, ou seja, uma forma de conectar fornecedor e cliente diretamente.

O serviço busca juntar pessoas físicas com recursos para investir e micro e pequenas empresas com necessidade de crédito. Por meio da plataforma, o investidor consegue rentabilizar seu dinheiro acima das taxas das aplicações e, ao mesmo tempo, um microempreendor tem acesso a um financiamento com taxas entre 1,5% e 4% ao mês, ou seja, menores que as ofertadas por bancos tradicionais.

A ideia vem dos EUA, pois a inspiração é o  fraudulento Lending Club [leia abaixo], plataforma onde pessoas físicas emprestam dinheiro tanto para negócios iniciantes quanto para indivíduos. O sistema de empréstimo P2P entre pessoas físicas já foi tentado há alguns anos no país, mas o site brasileiro foi proibido pelo Banco Central (BC), que julgou o serviço como de competência exclusiva de instituições financeiras autorizadas.

A Biva, na verdade, usa uma parceria com uma instituição credenciada no BC, a Sorocred, responsável por originar e fornecer lastro para as operações. Todo o processo de aquisição de clientes e investidores fica sob responsabilidade da plataforma on-line. O recurso tomado pelas micro e pequenas empresas vem dos investidores pessoas físicas cadastrados. “Com isso, a startup consegue, na prática, tirar o banco como intermediário e oferecer uma alternativa às taxas muito altas do mercado”, diz Rego.

Outra startup do portfólio de “fintech” da Artemísia, a EWally, oferece a microempreendedores e profissionais autônomos, como diaristas, eletricistas e encanadores, a possibilidade de receber pagamentos por meio do celular. O aplicativo transforma o telefone móvel em um terminal de POS (point of sale).

Os usuários não precisam ter cartão de crédito ou conta bancária. O dinheiro recebido fica em uma conta virtual e pode ser sacado em caixas eletrônicos – ou utilizado com um cartão de débito pré-pago nas bandeiras Visa ou MasterCard.

A “startup” também oferece aos clientes adiantamento de recebíveis no caso de pagamentos recebidos pelo usuário por cartão de crédito de um cliente.

O coordenador da Artemísia cita ainda a Contro.ly como um dos serviços financeiros mais promissores em desenvolvimento. A “startup” tem como meta se tornar um banco para jovens no Brasil.

Para isso, o serviço se baseia em um aplicativo que integra uma conta eletrônica e um cartão pré-pago. A empresa oferece assessoria financeira ao usuário para ensiná-lo a usar melhor o dinheiro. “A Contro.ly ajuda as pessoas a realizarem seus sonhos [epa!], por meio da gestão simplificada e inteligente de seus ativos e da diminuição do risco de endividamento excessivo”, diz.

No terreno da educação financeira, a Artemísia acelera a Konkero. A plataforma tem como público-alvo a população de baixa renda e busca ajudar as pessoas a fazer melhores escolhas financeiras. O portal permite comparar dezenas de serviços financeiros como escolher o cartão de crédito com as melhores taxas e avaliar empréstimos, financiamentos, seguros e consórcios.

Risco da Fintech

Notícia recente (Valor, 16/05/16) adverte contra a mensagem de que  “os bancos são ruins, a tecnologia financeira (fintech, na sigla em inglês) é boa”. A rede social, levianamente, insiste com esta mensagem subliminar.

As instituições financeiras tradicionais, vergadas pela velha Tecnologia da Informação (TI) e pela rigidez das novas exigências de capital, estavam sem rumo. “Start-ups” inteligentes que usaram as plataformas on-line e a tecnologia digital para conceder empréstimos e processar pagamentos estavam invadindo seu terreno.

Esses grupos de fintech não só eram mais ágeis e menos arriscados, como também não foram subjugados pela cultura falha que espalhou escândalos como as vendas enganosas de seguros, manipulação de taxas e a crise das hipotecas “subprime“.

Não é de admirar que muitos investidores compraram essa história. As ações da financiadora on-line americana Lending Club subiram quase 60% em sua estreia no mercado em dezembro de 2014. A oferta pública inicial de ações da processadora de pagamentos Worldplay, no ano passado, foi a maior no Reino Unido em mais de dois anos. Fundos de hedge a investidores se digladiaram para investir em start-ups que usam a “blockchain” – a tecnologia de contabilidade por trás da moeda virtual bitcoin – para movimentar dinheiro.

Agora, a ascensão das fintech está perdendo parte de seu brilho. Na primeira quinzena de maio de 2016, as ações da Lending Club caíram mais de 40% depois que a companhia perdeu seu executivo-chefe, Renaud Laplanche. Ele saiu depois que a companhia vendeu de forma enganosa US$ 22 milhões em empréstimos para um grande investidor.

Segundo um registro regulatório, alguém na Lending Club mudou as datas dos empréstimos que estavam sendo vendidos para o banco de investimentos Jefferies, que queria empacotá-los e vendê-los. O “FT Alphaville” informou que a mudança de data foi feita para fazer parecer que as operações foram originadas depois que a companhia mudou o contrato do mutuário a pedido do Jefferies. Sem o ajuste, o banco não queria os empréstimos. Portanto a Lending Club teve de recomprá-los.

Tudo isso soa um pouco técnico demais, mas se for verdade, trata-se de uma fraude absoluta que todos já conhecem. Grande parte da crise financeira de 2008 foi resultado do agrupamento de empréstimos subprime que eram garantidos por documentos falhos e não atendiam aos critérios dos investidores.

Na Lending Club, o incidente levou o Conselho de Administração – que inclui John Mack, que já trabalhou no Morgan Stanley, e o ex-secretário do Tesouro Larry Summers [epa!] – a ordenar uma revisão. Esta, descobriu uma segunda alegação, a de que Laplanche não havia revelado que tinha uma participação pessoal na Cirrix Capital, enquanto a Lending Club contemplava um investimento na companhia. Avaliando que dois problemas eram demais, a Lending Club e Laplanche seguiram rumos separados.

Enquanto isso, a companhia também enfrenta uma possível ação coletiva nos Estados Unidos, que alega que ela burlou as leis ao cobrar juros altos demais. Ronald Bethune de Nova York alega que a relação da plataforma com o WebBank, com sede em Utah, onde não há leis contra a usura, é uma tentativa ilegal de driblar os tetos de juros em outras localidades. A Lending Club está se defendendo, argumentando que Bethune precisa, em função de seus acordos de empréstimo, usar a arbitragem em vez dos tribunais de Justiça.

Os problemas da Lending Club ocorrem num momento especialmente inoportuno para o setor de empréstimos online. Recentemente, a Rivals Prosper e a OnDeck revelaram estar com problemas e o Tesouro dos EUA disse estar preocupado com o modelo de negócios dessa indústria incipiente e com o aumento das taxas de inadimplência sobre os empréstimos mais novos.

Alegações de documentos de empréstimos adulterados? Empréstimos arriscados e possivelmente ilegais? Conflitos de interesses entre altos executivos? Tudo isso parece com a atividade bancária tradicional. Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas.

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