Escola Superior de Administração Bancária (ESAB)

Castelo para formar gestores dos Bacens

Antes de ler a reportagem abaixo, eu já andava defendendo, em textos e palestras, que talvez a solução para o problema de interferência política na escolha de dirigentes nos bancos públicos, inclusive para os do Banco Central do Brasil, esteja na exigência, para todos os candidatos, de formação em uma Escola Superior de Administração Bancária (ESAB), ou seja, uma pós-graduação de excelência à semelhança do Instituto Rio Branco do Itamaraty ou da ESAF – Escola Superior de Administração Fazendária. Se tanto servidor público concursado quanto profissional interessado na carreira, ambos fossem obrigados a ter cumprido essa obrigação, previamente a qualquer indicação governamental, a qualificação seria superior.

Schloss Hachenburg

Tom Fairless (WSJ apud Valor, 16/05/16) informa que, por trás das muralhas de um castelo do século XII que se ergue acima das florestas de um vale de Hachenburg, na Alemanha, a quase 50 quilômetros da cidade grande mais próxima, o país está formando sua primeira linha de defesa contra a instabilidade estrangeira.

Muito tempo atrás, o Schloss Hachenburg era um palácio de condes locais. Agora, é uma escola para uma elite acadêmica composta por cerca de 350 jovens, de ambos os sexos. O castelo oferece apenas um curso: bancos centrais. E que tipo de estudante o frequenta? Os que têm “aversão ao risco”, diz o reitor, Erich Keller.

A antiga moeda da Alemanha, o marco, desapareceu em 2002 com a chegada do euro, e o país indica apenas um dos 25 membros do conselho diretor do Banco Central Europeu (BCE), o mesmo número que a ilha de Malta. Ainda assim, o Bundesbank, o banco central alemão, e sua universidade particular aqui no castelo, chamada Universidade Deutsche Bundesbank de Ciências Aplicadas, continua produzindo formandos.

Cerca de 25% dos aproximadamente 10 mil funcionários do Bundesbank completaram o programa de três anos, inclusive muitos da cúpula da instituição. Mais de quatro em cada cinco ex-alunos continuam trabalhando no Bundesbank dez anos após terem se formado.

Em uma União Europeia (UE) abalada pelo desemprego, o terrorismo, o influxo de refugiados, juros negativos e uma possível saída do Reino Unido do bloco, o Schloss Hachenburg permanece uma ilha de estabilidade.

O compromisso irrevogável do Bundesbank com a estabilidade financeira se originou em um surto ruinoso de hiperinflação nos anos 20 e foi a base do crescimento econômico da Alemanha Ocidental no pós-guerra. Agora, o Bundesbank é subordinado ao BCE, que define a política monetária para os 19 países que compõem a zona do euro. Essa situação deixou o Bundesbank com uma influência semelhante, dentro do BCE, à que as regionais do Federal Reserve têm no banco central americano.

Apesar de o seu número de funcionários ter sido reduzido à metade desde o início dos anos 90, o Bundesbank ainda tem o triplo do tamanho do BCE. O BC alemão também está expandindo a sua universidade e, em outubro, decidiu aumentar o número de alunos de sua próxima turma em cerca de 15%.

O Bundesbank conserva “uma imagem de confiança” entre os alemães, diz o aluno Johannes Schopp. Essa fé remonta a uma décadas atrás. Em 1992, o francês Jacques Delors, então presidente da Comissão Europeia, o braço executivo da UE, observou que “nem todos os alemães acreditam em Deus, mas todos eles acreditam no Bundesbank”. Schopp diz que trocou uma carreira em um banco alemão de poupança pela academia do Bundesbank porque queria “ajudar a manter a estabilidade”.

As aulas começam às 7:30h e acontecem em pequenas salas com lustres e uma vista ampla. Em uma manhã recente, cerca de 25 alunos aprendiam a avaliar derivativos. “Usamos os livros alemães, não os americanos”, observou a professora, Beate Juettner-Nauroth. A abordagem alemã, diz ela, é mais precisa.

A concorrência por uma vaga no programa de três anos da escola é acirrada, com dez candidatos por vaga. Os alunos não pagam nenhuma taxa e recebem uma ajuda de custo de € 1.400 por mês, mas têm que trabalhar no Bundesbank por cinco anos depois de formados.

O reitor Keller, que foi um dos primeiros estudantes da academia em 1980, diz que um critério importante de admissão é o quanto os alunos potenciais “se encaixam na nossa organização”. Embora o currículo seja pesado em finanças, candidatos que desejem trabalhar na área de banco de investimentos não são muito bem-vindos. “Pessoas muito ligadas em dinheiro devem sair”, diz Keller.

A reputação do Bundesbank está passando por um renascimento na Alemanha, graças aos esforços do banco para proteger os poupadores alemães das políticas do BCE. O Bundesbank está trazendo de volta centenas de toneladas de ouro alemão que estavam em cofres de Nova York e Paris, depois que foi discutido publicamente se esse ouro ainda existia. O BC alemão também está reformando seu Museu do Dinheiro, em Frankfurt.

Dirigentes do Bundesbank têm criticado as iniciativas experimentais do BCE para estimular a estagnada economia europeia com vultosas compras de títulos de dívida dos governos do bloco. Mario Draghi, o italiano que preside a instituição, reagiu dizendo que o Bundesbank segue uma política “nein zu allem”, o que em alemão significa “não para tudo”.

As taxas de juros negativas introduzidas pelo BCE estão “destruindo a função dos juros”, reclama Keller. O BCE não quis comentar. O presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, é recebido calorosamente em todos os cantos do país. Os alemães aplaudem suas desavenças com Draghi, que recentemente apareceu numa charge acendendo um cigarro com uma nota de € 100, na primeira página de um dos principais jornais da Alemanha.

O Bundesbank comprou o dilapidado castelo num processo de falência em meados dos anos 70, quando a economia do país estava a todo vapor e os dirigentes do BC faziam os governos da Europa tremerem. O interior meticulosamente reformado do castelo é uma lembrança desses tempos prósperos.

Alguns alemães questionam se o custo da academia, estimado em € 38 mil por aluno por ano, vale a pena. A Agência Federal de Auditoria da Alemanha afirma que está examinando o caso. Os auditores farão recomendações ao parlamento alemão.

Keller diz que a academia é um bom negócio para o contribuinte. “Você tem que chamar as pessoas quando elas não sabem seu valor de mercado”, diz ele sobre os alunos e futuros funcionários do banco central. O custo médio de emprego no Bundesbank, argumenta ele, é menor que nos outros BCs da Europa, que são obrigados a atrair profissionais de fora.

“A KPMG está interessada nos meus alunos, mas eu não os deixo [a KPMG] vir aqui”, diz ele. A KPMG não quis comentar. Keller observa que outros países possuem academias semelhantes: Rússia, China e Bielorrússia. A Ucrânia tem duas. Todas essas escolas têm programas de intercâmbio de alunos com o Hachenburg, embora as tensões políticas na Ucrânia tenham suspendido o acordo.

“Há poucos exemplos em países com economias de mercado”, diz Keller. Salários relativamente baixos tornam mais difícil para o Bundesbank competir com um BCE em expansão, uma vez que o BC europeu pode oferecer o dobro, diz Keller. Mais de 100 funcionários do Bundesbank saíram mais ou menos ao mesmo tempo recentemente para trabalhar no novo braço de supervisão bancária do BCE, diz ele.

Ainda assim, estudantes e professores argumentam que estudar no Schloss Hachenburg e aprender sobre antigas técnicas de combate à inflação, tudo isso em uma pacata cidade medieval, é uma experiência única. “Eu digo aos meus amigos de onde eu venho e que é difícil imaginar a vida aqui”, diz Schopp, o aluno.

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One thought on “Escola Superior de Administração Bancária (ESAB)

  1. Se a grade curricular estiver voltada para o neoliberalismo, pode ser a melhor escola do mundo, que de nada adiantará. Uma das principais razões para a UE estar fazendo água é justamente porque ela abraçou essa causa. E ela está fadada ao fracasso. Uma escola desse tipo tb. não funcionaria por aqui. Infelizmente. Faça a analogia dela com o que o vice-presidente golpista, em exercício do cargo de presidente está fazendo com a EBC.

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