Uma História Comestível da Humanidade

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), afirma que comparado ao primeiro voo de avião ou à detonação da primeira bomba atômica, o aparecimento de algumas gotas de líquido incolor na ponta de um complexo aparelho num laboratório em Karlsruhe, Alemanha, numa tarde de julho de 1909, não parece muito espetacular. Mas isso marcou a descoberta tecnológica que teve o que alguns consideram o maior impacto sobre a humanidade durante o século XX.

O líquido era amoníaco, e o equipamento o sintetizara a partir de seus elementos constituintes, hidrogênio e nitrogênio. Isso mostrou, pela primeira vez, que a produção de amoníaco podia ser realizada em grande escala, abrindo uma nova, valiosa e muito necessária fonte de fertilizante e tornando possível uma vasta expansão da oferta de alimentos – e, em consequência, da população humana.

O elo entre o amoníaco e a nutrição humana é o nitrogênio. Componente vital de todo tecido vegetal e animal, ele é o nutriente responsável pelo crescimento vegetativo e pelo conteúdo proteico dos cereais, as culturas básicas de que a humanidade depende.

As plantas precisam de muitos nutrientes, é claro, mas, na prática, seu crescimento é limitado pela disponibilidade do menos abundante deles. Na maioria das vezes, este é o nitrogênio. Para os cereais, a deficiência de nitrogênio resulta em crescimento limitado, folhas amarelas, safras reduzidas e baixo conteúdo proteico. Abundância de nitrogênio, em contrapartida, promove o crescimento e aumenta a safra e o conteúdo proteico.

Compostos de nitrogênio (como proteínas, aminoácidos e DNA) também desempenham papéis decisivos no metabolismo de plantas e animais; o nitrogênio está presente em toda célula viva. Os seres humanos dependem da ingestão de dez aminoácidos, todos formados em torno de um átomo de nitrogênio, para sintetizar as proteínas de que o corpo necessita para o crescimento e a manutenção dos tecidos.

A vasta maioria desses aminoácidos essenciais vem de produtos agrícolas, ou de produtos derivados de animais alimentados com eles. Se seu fornecimento for inadequado, o desenvolvimento mental e físico será deficiente. O nitrogênio, em suma, é um fator determinante da disponibilidade de alimentos básicos para a humanidade e da nutrição humana como um todo.

A capacidade de sintetizar amoníaco, combinada com novas variedades de sementes “de alto rendimento” produzidas especificamente para responder bem a fertilizantes químicos, anulou essa limitação e abriu caminho para uma expansão sem precedentes da população humana, de 1,6 bilhão para 6 bilhões no curso do século XX. A introdução de fertilizantes químicos e de variadas sementes de alto rendimento no mundo em desenvolvimento a partir dos anos 1960 é conhecida hoje como a “revolução verde”.

Sem fertilizante para nutrir produtos agrícolas e prover mais alimento – aumentando sete vezes a oferta, enquanto a população cresceu por um fator de 3,7 –, centenas de milhões de pessoas teriam enfrentado a desnutrição ou a fome, e a história poderia ter se desdobrado de maneira muito diferente.

A revolução verde teve consequências de longo alcance. Além de causar uma explosão populacional:

  1. ajudou a tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza e
  2. sustentou o renascimento histórico das economias asiáticas e a rápida industrialização da China e da Índia – desenvolvimentos que estão transformando a geopolítica.

Mas os muitos outros efeitos colaterais da revolução verde, no âmbito social e ambiental, tornaram-na extremamente controversa. Seus críticos afirmam que ela:

  1. causou grandes danos ambientais,
  2. destruiu as práticas agrícolas tradicionais,
  3. aumentou a desigualdade e
  4. deixou os agricultores dependentes de sementes e produtos químicos caros fornecidos por companhias ocidentais.

Dúvidas foram levantadas também quanto à sustentabilidade a longo prazo da agricultura que faz uso intensivo de produtos químicos. Mas, de uma forma ou de outra, não há dúvida de que a revolução verde fez mais que apenas transformar a oferta de alimentos no mundo na segunda metade do século XX. Ela transformou o próprio mundo.

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