Revolução Verde na China e Índia

Uma historia comestivel da huma - Tom Standage_7

Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), afirma que o renascimento da Ásia tem muitas causas, mas não teria sido possível sem o espetacular aumento da produtividade agrícola provocado pela revolução verde. Entre 1970 e 1995, a produção de cereais na Ásia dobrou, o número de calorias disponíveis por pessoa aumentou 30% e os preços do trigo e do arroz caíram.

O impacto imediato do progresso agrícola é a redução da pobreza, pela simples razão de que os pobres têm maior probabilidade de trabalhar na agricultura e de que a comida é responsável pela maior parte dos seus gastos familiares. Realmente, a faixa da população da Ásia que vive na pobreza caiu de cerca de 50% em 1975 para 25% em 1995. O número absoluto de asiáticos nessa condição também declinou, de 1,15 bilhão para 825 milhões no período considerado acima, ainda que a população tenha crescido 60%. O progresso agrícola pôs a Ásia no caminho para o desenvolvimento econômico e a industrialização.

Para que o aumento da produtividade agrícola se traduza em crescimento econômico mais amplo e industrialização, no entanto, várias outras coisas precisam acontecer:

  1. os agricultores devem ter incentivos para aumentar a produção;
  2. deve haver infraestrutura para transportar sementes e produtos químicos para as fazendas bem como para permitir o escoamento dos produtos a partir delas; e
  3. deve haver acesso adequado a crédito para permitir aos agricultores comprar sementes, fertilizante, tratores e assim por diante.

O progresso agrícola pode desencadear súbito crescimento econômico, mas a rapidez com que ele ocorre depende crucialmente da introdução simultânea de reformas não agrícolas. Consideremos os exemplos da Índia e da China.

Após o fracasso do Grande Salto Adiante, reformistas dentro do governo chinês adotaram uma abordagem mais convencional para o aumento da produção agrícola, e providenciaram a compra de cinco fábricas de amoníaco de médio porte da Grã-Bretanha e dos Países Baixos entre 1963 e 1965. Depois de prontas e em funcionamento, essas fábricas forneciam 25% do nitrogênio aplicado nos campos chineses.

Mas a convulsão da Revolução Cultural, em meados dos anos 1960, fez com que em 1972 a produção per capita de alimentos fosse ainda mais baixa do que nos anos 1950, e o rápido crescimento populacional significava que a quantidade de terra disponível para agricultura, por pessoa, encolhia rapidamente. A única opção era aumentar a produtividade.

O presidente Richard Nixon visitou a China em 1972, abrindo o comércio entre os dois países, e o primeiro acordo assinado foi uma encomenda de 13 das maiores e mais modernas fábricas de fertilizante dos Estados Unidos – a maior compra desse tipo na história. Dentro de poucos anos, a China passara à frente dos Estados Unidos, convertendo-se no maior consumidor de fertilizante do mundo, e depois se tornou o maior produtor. O país também adotou rapidamente as novas variedades anãs de alto rendimento de trigo e arroz.

Reformas políticas também eram necessárias. Após a morte de Mao, em 1976, reformistas liderados por Deng Xiaoping concluíram que a agricultura era o gargalo que impedia um maior progresso econômico. Introduziram então um sistema em dois níveis, em que famílias recebiam terra e podiam decidir o que cultivar nela desde que preenchessem uma cota estatal de cerca de 15 a 20% de sua produção, podendo vender o resto e guardar o lucro. Isso incentivou os agricultores a aumentar a produção.

Como o sistema se provou um grande sucesso nas primeiras áreas em que foi testado, foi expandido para todo o país entre 1979 e 1984. As metas e cotas foram gradualmente removidas, e essa abordagem foi então adotada como um modelo para o resto da economia chinesa, em que a livre iniciativa era autorizada sob a fiscalização do setor estatal, superando-o rapidamente.

À medida que a agricultura se tornou mais produtiva, os trabalhadores rurais tiveram condições de se mudar para outras áreas, começando com processamento e distribuição de alimentos e pouco a pouco se expandindo para outras indústrias e serviços.

Em meados dos anos 1990, “empresas de vilas e aldeias” rurais, quase todas inexistentes em 1978, eram responsáveis por 25% da economia chinesa. Essas firmas começaram a pressionar as companhias administradas pelo Estado nas cidades, que eram menos competitivas. Isso, por sua vez, estimulou reformas econômicas mais amplas, a criação de zonas econômicas especiais para a atividade industrial, esforços para atrair investimento estrangeiro e assim por diante – coisas que alimentaram um maior crescimento econômico. O resultado foi uma assombrosa redução da pobreza, de 33% da população em 1978 para 3% em 2001.

A Índia foi mais lenta na introdução das reformas políticas necessárias para permitir que melhoramentos na produtividade agrícola se traduzissem em crescimento econômico. Em vez disso, sua principal preocupação era a autossuficiência agrícola, e para esse fim o setor era rigorosamente regulado e fiscalizado pelo governo, com controles de preço, restrições ao movimento de produtos agrícolas dentro do país e barreiras que serviam para desestimular o comércio exterior.

Com a adoção da tecnologia da revolução verde e investimentos na infraestrutura para a irrigação, a produção agrícola expandiu-se, a renda dos agricultores elevou-se e o emprego não agrícola aumentou. Preços em queda beneficiaram mais amplamente os pobres, de modo que a porcentagem da população rural na pobreza caiu de 64% em 1967 para 34% em 1986. Nesse ano, a colheita de trigo foi de 47 milhões de toneladas, metade das quais foi posta de lado como reserva. No ano seguinte, a monção não ocorreu, dando lugar à pior seca do século. A Índia, entretanto, foi capaz de se alimentar sem perda de vidas e sem depender de ajuda externa.

Essa foi uma clara demonstração de que a Índia tinha alcançado a meta de autossuficiência em alimentos. A liberalização do setor manufatureiro começou em 1991, e o país entrou num período de rápido crescimento. A proporção da população na pobreza declinou de 55% em 1973 para 26% em 2000.

Segundo algumas previsões, a Índia deve se tornar a terceira maior economia mundial, depois da China e dos Estados Unidos, em 2035. Mas ela teve menos sucesso que a China na criação de empregos rurais fora da agricultura, o passo decisivo que permite aos pobres participar de um crescimento econômico mais amplo.

[FNC: o grau de urbanização da Índia em 2013 era 31,3%, enquanto na China já tinha atingido 50,6%.]

A produção, distribuição e venda a varejo de alimentos ainda são extremamente reguladas. A parcela da população envolvida na agricultura continua grande, e há uma preocupação generalizada com a desigualdade. A revolução verde armou o palco para o rápido desenvolvimento da Índia, mas outras reformas são necessárias para que os benefícios sejam mais amplamente distribuí

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