O Fantasma de Malthus

Uma historia comestivel da huma - Tom Standage_5

Uma segunda consequência a longo prazo da revolução verde foi o impacto demográficosobre o tamanho e a estrutura da população global. Mais uma vez, é preciso dar um passo atrás na história. Em 3000 a.C., quando as primeiras civilizações emergiam, a população mundial não passava de cerca de 10 milhões de pessoas, ou aproximadamente a população de Londres hoje. Em 500 a.C., quando a Grécia entrava na Idade de Ouro, a população do mundo crescera para 100 milhões. Foi só em 1825, cerca de 10 mil anos após o surgimento da agricultura, que a população humana chegou pela primeira vez a 1 bilhão. Levou mais um século para chegar a 2 bilhões, em 1925; e meros 35 anos para chegar a 3 bilhões, em 1960.

O rápido crescimento foi equiparado, na época, a uma explosão, e levou a medonhas previsões de fome iminente. Mas a expansão da oferta de comida possibilitada pela revolução verde significou que a população continuou a crescer, chegando a 4 bilhões em 1975, 5 bilhões em 1986, e 6 bilhões em 1999. O quinto bilhão foi adicionado em apenas 11 anos; o sexto bilhão em outros 13. A população chegou a 7 bilhões em 2012, após mais 13 anos, segundo a Agência do Censo dos Estados Unidos. Em retrospecto, portanto, está claro que a expansão demográfica começou agora a desacelerar.

O crescimento populacional impele a produção de alimentos, ou vice-versa? Demógrafos demonstraram as duas coisas. Uma população em rápido crescimento cria incentivos para a descoberta de novas maneiras de aumentar a oferta de comida, mas maior disponibilidade de comida também significa que as mulheres ficam mais férteis e as crianças mais saudáveis e com mais chances de sobreviver. Não há, portanto, resposta simples.

A história mostra claramente, porém, que em casos em que a maior disponibilidade de alimento permite a um país industrializar-se há uma explosão da população, seguida por uma queda na taxa desse crescimento à medida que as pessoas ficam mais ricas – um fenômeno chamado “transição demográfica”.

Em uma sociedade pré-industrial, era imprescindível ter tantos filhos quanto possível. Muitos deles não sobreviveriam, devido a doenças ou desnutrição. Mas quando os que sobrevivem têm idade suficiente para trabalhar nos campos, podem produzir mais alimentos do que consomem, de modo que a família se beneficiará como um todo (pressupondo que a disponibilidade de mão de obra seja a principal limitação à produção agrícola).

Ter muitos filhos proporciona também segurança na velhice, quando os pais esperam ser cuidados pela prole. Nessas sociedades pré-industriais, tantos as taxas de natalidade quanto as de mortalidade são muito altas, e a população cresce lentamente. Essa foi a situação durante a maior parte da história humana.

O advento de novas técnicas, produtos e ferramentas agrícolas que fomentaram a produção de alimentos levou a sociedade para uma nova fase, em que a população crescia rapidamente. Isso foi o que aconteceu na Europa Ocidental a partir do século XVIII, após a introdução do milho e da batata do Novo Mundo e da difusão de novas práticas agrícolas. Nessa fase, a taxa de natalidade continuou alta, mas a de mortalidade diminuiu, resultando numa explosão populacional. Ao mesmo tempo, maior produtividade agrícola significa que uma menor parcela da população é necessária na agricultura, abrindo caminho para a urbanização e a industrialização.

Isso, por sua vez, parece levar as pessoas a reavaliar sua atitude com relação à procriação: a riqueza, ao que parece, é um poderoso anticoncepcional. O declínio na mortalidade infantil levou os pais das áreas rurais a perceber que não precisavam ter tantos filhos para assegurar que haveria pessoas suficientes para trabalhar nos campos ou cuidar deles na velhice. Em áreas urbanas, nesse meio-tempo, os pais decidiram que era melhor ter um menor número de filhos, dado o custo de abrigá-los, vesti-los e educá-los.

Isso é por vezes caracterizado como uma mudança na ênfase da “quantidade” para a “qualidade” de filhos. Além disso, à medida que recebem mais educação e ingressam no mercado de trabalho, as mulheres podem adiar o casamento e mudar de atitude com relação à maternidade. E os governos nos países em processo de industrialização geralmente introduzem reformas proibindo o trabalho infantil e tornando a educação compulsória, o que significa que as crianças dependem dos recursos da família até atingir a idade de trabalhar. O resultado é que a taxa de natalidade cai, e a população se estabiliza.

Esse padrão pode ser visto claramente em nações ocidentais, as primeiras a se industrializar. Em alguns países europeus, a taxa de fertilidade (o número médio de nascimentos por mulher) caiu, agora, abaixo da taxa de reposição, enquanto a maioria dos países em desenvolvimento está no meio de sua transição demográfica.

É claro que a realidade é mais complicada do que esse modelo simples sugere, devido a outros fatores como:

  1. os efeitos da migração,
  2. o impacto do HIV/Aids na África e da política do filho único da China, introduzida em 1980.

Mas, tendo inicialmente sustentado uma explosão populacional, a revolução verde está agora impelindo muitos países, e consequentemente o mundo, para a transição demográfica. Segundo previsões publicadas pelas Nações Unidas em 2007, espera-se que a população mundial atinja 8 bilhões por volta de 2025, e chegue ao máximo com 9,2 bilhões em 2075, depois do que declinará.

Essas rápidas mudanças na preferência de tamanho da família e nas práticas contraceptivas são indicações de que a transição demográfica vai continuar, se não se acelerar, em áreas rurais que experimentam a revolução verde. Do mesmo modo, as mulheres de Bangladesh tinham uma média de sete filhos em 1981, mas após a adoção generalizada de tecnologias da revolução verde, nos anos 1980, e a rápida expansão da indústria têxtil do país, nos anos 1990, esse número caiu para uma média de dois ou três.

O mundo enfrentará novos desafios à medida que a população encolher – entre os quais estará a dificuldade de cuidar de uma população enferma e idosa, o que já é uma preocupação nos países desenvolvidos em que as taxas de fertilidade caíram. Mas o tamanho máximo da população mundial pode já estar à vista.

Depois que a população começar a declinar, preocupações com o risco de que o excessivo crescimento demográfico suplante a oferta de alimentos talvez comecem a parecer bastante fora de moda. Uma torrente de best-sellers irá, sem dúvida, alertar para os perigos da implosão populacional que se anuncia, mas o fantasma de Malthus terá finalmente sido enterrado.

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2 thoughts on “O Fantasma de Malthus

  1. Pois não é que o fantasma do Malthus existe mesmo, Fernando?

    Eu que dou aula em faculdade particular, quando em vez escuto isto.

    Também, dado o retrocesso e avanço da direita, tenho escutado pérolas que beiram o fascismo, tal como ser justo lutar contra imigrantes em função destes “roubarem o mercado de trabalho” da população nativa.

    No Brasil, claro, o discurso recai sobre os negros vindos dos países africanos e do Haiti, principalmente; na Europa, a coisa fica mais grave, pois nem se compadecem da sina dos imigrantes da Síria, Líbia e de todo o Oriente prpoximo. Um horror!!!

    Quem sabe deixam o Malthus, finalmente, descansar em paz…
    Bjs. Glorinha Moraes.

    1. Estimada Glorinha,
      eu não imaginava o grau de intolerância a que chegamos, depois de séculos de processo civilizatório e de lições da história como os genocídios.

      Achava que nas Américas, continente-refúgio das intolerâncias europeias, com sociedades multiétnicas, os homens não deixariam seus instintos primários aflorarem.

      Infelizmente, a reação à crise mundial atual, tal como a de 1929, está nos trazendo de volta o pior de nós, seres humanos: a intolerância com “rivais”, o fascismo, o xenofobismo, a violência estúpida, etc.

      E ainda não retrocedemos ao “mundo de escassez” de outrora…
      bjs

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