Problemas com a Revolução Verde

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), adverte que novas tecnologias muitas vezes têm consequências imprevistas, e as tecnologias da revolução verde não são exceção. Variedades de sementes de alto rendimento, que requerem fertilizantes artificiais, outros produtos químicos agrícolas e grandes quantidades de água causaram problemas ambientais em muitas partes do mundo.

A água não absorvida pelo solo e carregada de nitrogênio que escoa de terras cultivadas para os cursos d’água criou “zonas mortas” em algumas áreas litorâneas, estimulando o crescimento de algas e plantas aquáticas e reduzindo a quantidade de oxigênio na água, o que afetou os peixes e as populações de mariscos.

Em alguns casos, variedades mais produtivas mostraram-se menos resistentes a pragas ou doenças do que as variedades tradicionais. Isso exigiu um uso mais intenso de pesticidas, cujo excesso pode contaminar o solo e prejudicar insetos benéficos e outros animais selvagens, reduzindo a biodiversidade.

Pesticidas também podem causar problemas de saúde para agricultores. Segundo a Organização Mundial da Saúde, eles são responsáveis por cerca de um milhão de casos de envenenamento agudo inintencional por ano, e estão também ligados a cerca de 2 milhões de tentativas de suicídio, levando a cerca de 220 mil mortes por ano. (A disponibilidade “pesticidas fez do envenenamento com eles o método mais difundido de suicídio no mundo em desenvolvimento.)

Uma preocupação adicional é o esgotamento das provisões de água. No Punjab, o berço da revolução verde indiana, por exemplo, a proliferação de milhões de poços tubulares fez com que o nível do lençol freático caísse mais de quatro metros entre 1993 e 2003 apenas, e agora muitos agricultores não têm água suficiente para irrigar as plantações.

Muito ainda pode ser feito para mitigar esses problemas. Aplicações mais parcimoniosas e precisas de fertilizantes podem reduzir o escoamento da água não absorvida sem afetar a produtividade. O uso de fertilizantes vem, de fato, declinando nos últimos anos em alguns países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, a produção de milho aumentou de 42 quilos colhidos por quilo de fertilizante, em 1980, para 57 quilos em 2000. Melhoras semelhantes foram alcançadas com o trigo na Grã-Bretanha e com o arroz no Japão. Em muitos países em desenvolvimento, porém, o fertilizante é fortemente subsidiado pelo governo, o que desestimula o uso mais eficiente.

Pode-se fazer mais também para reduzir o uso desnecessário de pesticidas e minimizar os efeitos colaterais nocivos. Quando a revolução verde foi introduzida, os agricultores foram informados de que o uso de pesticidas era um componente necessário da agricultura “moderna”, o que resultou em uso excessivo. Alguns agricultores foram instruídos a aplicar pesticidas segundo um calendário, quer essas aplicações fossem necessárias ou não.

Hoje, esse uso está estável ou em declínio, e técnicas de controle de praga estão sendo promovidas em conjunto com os produtos químicos, tirando melhor partido tanto das práticas tradicionais quanto das modernas. Essa abordagem híbrida, chamada “manejo integrado de pragas”, pode reduzir o uso de pesticidas em 50% para produtos vegetais, podendo mesmo, em alguns casos, torná-lo desnecessário na produção de arroz, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

De maneira semelhante, há grande margem para aperfeiçoar o uso da água. Muito mais atenção está sendo dada agora ao manejo dos aquíferos, por exemplo, à coleta de águas pluviais e a sistemas de armazenamento, e também a sistemas de irrigação que usam a água com mais eficiência, como a tecnologia de gotejamento (que reduz o escoamento de água carregada de nitrogênio).

Direitos sobre a água mais claramente definidos, que possam ser negociados por agricultores, podem também estimular um uso mais sensato, encorajando o foco em cultivos mais apropriados.

Parece estranho cultivar produtos que demandam muita água em determinados lugares – como batatas em Israel, laranjas no Egito, algodão na Austrália e arroz na Califórnia, por exemplo – quando eles poderiam ser cultivados de maneira mais barata e eficiente em outras regiões. No Punjab, o fornecimento de eletricidade gratuita aos agricultores e os subsídios para cultivar arroz, um produto que requer muita água, estimularam muitos a deixar as bombas d’água funcionando ininterruptamente.

Nos últimos anos, a crescente preocupação com a escassez de água para a agricultura – levando-a a ser chamada até de o “petróleo do século XXI” – estimulou governantes a prestarem mais atenção ao desenvolvimento de políticas sensatas para esse uso.

Os problemas ambientais associados à agricultura de alto rendimento devem também ser confrontados com seus benefícios ambientais não aparentes, já que outros métodos usados para o aumento da produção poderiam ter causado danos muito piores ao ecossistema.

As variedades de alto rendimento permitiram que a produção de alimentos se multiplicasse com um aumento apenas marginal do uso de terra. A produção de cereais da Ásia dobrou entre 1970 e 1995, por exemplo, mas a área total dedicada a esse cultivo aumentou apenas 4%. Globalmente, os números são ainda mais impressionantes. Norman Borlaug mostrou que a produção mundial de cereais triplicou entre 1950 e 2000, mas a área usada para o cultivo aumentou apenas 10%. Sem as tecnologias da revolução verde, afirma ele, teria sido necessário explorar enormes quantidades de terra virgem, como florestas, para evitar a fome em massa.

Muitos críticos da revolução verde defendem um retorno às técnicas agrícolas tradicionais, ou orgânicas, que não dependem de fertilizantes químicos e pesticidas. Isso reduziria tanto o impacto ambiental direto da agricultura (como o escoamento de águas carregadas de nitrogênio e o uso de pesticidas) quanto seu impacto indireto (já que a produção de fertilizante químico é um processo que requer muita energia, consome gás natural e contribui para a mudança climática).

Entretanto, cultivar a terra sem o uso de fertilizantes químicos significa menor produtividade, e mais terra seria necessária para alcançar a mesma quantidade de comida produzida. Estudos constataram que a produção orgânica de trigo, milho e batatas, por exemplo, requer duas ou três vezes mais áreas de terra que a produção convencional.

A agricultura global em 1900, sem usar quase nenhum fertilizante químico, sustentava cerca de 1,6 bilhão de pessoas numa área de cerca de 850 milhões de hectares, segundo Vaclav Smil, um especialista no ciclo do nitrogênio da Universidade de Manitoba. O cultivo da terra usando métodos que não requeiram pesticidas (isto é, orgânicos) em 1,5 bilhão de hectares, estima ele, alimentaria apenas 3,2 bilhões de pessoas – ou metade da população global atual –, com dietas principalmente vegetarianas.

Isso dito, o uso de fertilizante no mundo desenvolvido poderia ser reduzido, ainda fornecendo alimento suficiente para proporcionar uma nutrição adequada apesar da queda nos rendimentos. Isso porque os países ricos produzem mais comida do que precisam, em parte porque o pagamento de subsídios aos agricultores estimula a superprodução.

O excesso dá lugar a dietas desnecessariamente ricas em proteínas (resultando nos crescentes níveis de obesidade em países ricos) e a grandes excedentes exportáveis. Há margem, portanto, para se adotar métodos que requeiram menos produtos químicos, como na agricultura orgânica, em parte da produção.

No mundo em desenvolvimento, porém, a situação é muito diferente. Em países ricos, os fertilizantes químicos equivalem a apenas cerca de 45% de todo o nitrogênio aplicado nos campos. Nos países mais pobres, porém, eles equivalem a nada menos que 80% do total. Esse uso é o que faz a nada menos que 80% do total. Esse uso é o que faz a diferença entre nutrição adequada e inadequada – e em muitos países em desenvolvimento, a oferta de proteínas permanece inadequada mesmo assim.

No final dos anos 1990, 75% de todo o nitrogênio que estava sendo aplicado a produtos agrícolas na China vinha de fertilizantes químicos. Como 90% da proteína consumida pelos chineses é produzida no país, isso significa que dois terços do nitrogênio existente na comida chinesa vem do processo Haber-Bosch. Métodos tradicionais, como o plantio de legumes fixadores de nitrogênio ou o uso de adubo animal, simplesmente não podem proporcionar tanto nitrogênio por hectare.

Em muitos outros países em desenvolvimento, o nível de produção de alimentos hoje excede o que se poderia obter com métodos tradicionais, livres de fertilizantes. Pode, sim, haver redução da quantidade de fertilizante utilizado mediante uma aplicação mais precisa, mas é difícil ver como seria possível eliminá-lo por completo sem reduzir a produção.

Não há respostas fáceis. Tanto a agricultura tradicional quanto a orgânica têm ônus e benefícios ambientais. Durante o século XX, a humanidade tornou-se dependente do nitrogênio artificial, e fazer o relógio recuar não é uma opção. A agricultura baseada no uso intensivo de produtos químicos tem efeitos colaterais indesejáveis, e sem dúvida são necessários mais esforços para mitigá-los. Se, contudo, a humanidade abandonasse a revolução verde, as consequências seriam certamente muito piores.

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