Uma Segunda Revolução Verde?

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Tom Standage, em “Uma história comestível da humanidade” (Rio de Janeiro; Zahar; 2010), pergunta: viveremos uma segunda revolução verde?

Entre janeiro de 2007 e abril de 2008, após vários anos de estabilidade, o preço do trigo duplicou abruptamente, o do arroz triplicou e o do milho aumentou 50%. Pela primeira vez desde o início dos anos 1970, tumultos provocados pela falta de alimentos explodiram em vários países simultaneamente. No Haiti, o primeiro-ministro foi obrigado a renunciar por multidões em protesto, que entoavam: “Estamos com fome!”

Duas dúzias de pessoas morreram em tumultos semelhantes em Camarões. O presidente do Egito mobilizou o exército e ordenou aos soldados que começassem a assar pão. Nas Filipinas, foi introduzida uma nova lei tornando a estocagem de arroz crime punível com prisão perpétua.

Após anos em que agricultores e especialistas em desenvolvimento lamentaram os baixos preços dos alimentos básicos, a era da comida barata parecia ter terminado abruptamente. Sob muitos aspectos, as origens dessa crise alimentar estão nas consequências da revolução verde.

Uma delas foi que governos e agências humanitárias perderam o interesse pela agricultura como um meio de promover desenvolvimento. Segundo o Banco Mundial, o percentual de “auxílio oficial ao desenvolvimento” gasto com agricultura caiu de 18% em 1979 para 3,5% em 2004.

Houve várias razões para essa mudança, segundo o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2008 do Banco Mundial. Até certo ponto, parecia que o problema alimentar tinha sido resolvido. Havia superabundância de alimentos na América do Norte e na Europa, e baixos preços internacionais para itens alimentares básicos, sendo ambos resultado tanto das tecnologias da revolução verde quanto dos subsídios a agricultores no mundo desenvolvido. Em consequência, os doadores perderam o entusiasmo em financiar projetos agrícolas nos países em desenvolvimento. A redução dos investimentos governamentais em pesquisa agrícola, a partir dos anos 1990, fez o aumento da produtividade se desacelerar.

Agricultores e grupos ambientalistas de países ricos também convenceram doadores a reduzir o financiamento para pesquisa agrícola em países em desenvolvimento. Os primeiros os viam como mercados exportadores valiosos, e não queriam que seus governos financiassem competidores potenciais. Os segundos destacavam a poluição causada pela agricultura que faz uso intenso de produtos químicos, e conseguiram desacreditar a revolução verde aos olhos de muitos doadores.

Nos anos 1980, quando iniciou uma campanha para estender a revolução verde à África, onde ela tivera pouco impacto, Norman Borlaug constatou que as atitudes estavam mudando. O lobby ambientalista tinha convencido o Banco Mundial e a Fundação Ford de que promover o uso de fertilizantes químicos na África era má ideia.

O surgimento de uma classe média na China e na Índia, com acesso a dietas de estilo ocidental mais ricas em carne, aumentou a demanda de cereais para a alimentação de animais, elevando os preços. O direcionamento de produtos agrícolas para a produção de biocombustível também provocou uma alta, embora não se saiba ao certo qual foi exatamente o impacto sobre os mercados mundiais. Preços mais altos do petróleo também contribuíram para a alta dos alimentos, em virtude do aumento dos custos de produção e transporte e do preço dos fertilizantes (já que o preço do gás natural, a partir do qual o fertilizante é feito, está atrelado ao do petróleo).

Em suma, embora a oferta de alimentos continuasse a crescer, a taxa de crescimento declinava (para 1 a 2% ao ano, desde meados dos anos 1990) e não conseguia acompanhar o crescimento da demanda (por volta de 2% ao ano). É significativo que a Índia tenha começado a importar trigo novamente em 2006. Como muitos países, ela também proibiu a exportação de muitos gêneros alimentícios, num esforço para manter o abastecimento da população doméstica. Essas proibições aumentaram ainda mais os preços internacionais dos alimentos, reduzindo a quantidade de comida disponível nos mercados globais.

No mínimo, a crise alimentar pôs a agricultura de volta na ordem do dia do desenvolvimento internacional, após anos de descaso.

A curto prazo, a resposta apropriada é um rápido aumento na ajuda alimentar humanitária. Programas que promovem biocombustíveis feitos de produtos agrícolas alimentícios devem também ser reconsiderados.

A médio prazo, porém, o envio de grandes quantidades de alimento dos países ricos para os pobres torna as coisas piores, porque solapa o mercado dos produtores locais.

A resposta a longo prazo é iniciar um novo esforço para aumentar a produção agrícola no mundo em desenvolvimento, com ênfase renovada à pesquisa agrícola e ao desenvolvimento de novas variedades de sementes, investimentos na infraestrutura rural necessária para apoiar agricultores, maior acesso ao crédito, introdução de planos de seguro de safras e assim por diante. Tudo isso pode soar muito familiar, porque é, em essência, uma convocação para uma segunda “revolução verde”.

Inevitavelmente, isso reacendeu as discussões sobre os prós e os contras da revolução verde original. Alguns defensores dessa segunda revolução enfatizam o potencial de sementes geneticamente modificadas, agora em desenvolvimento, que produzem seus próprios pesticidas ou são projetadas para fazer um uso mais eficiente de água e fertilizante. (Isso foi chamado de “revolução duplamente verde”.)

Enquanto isso, defensores da agricultura orgânica veem a crise de alimentos como uma oportunidade ideal para promover maior uso de métodos orgânicos, particularmente na África, onde os rendimentos são baixos. Em grande parte desse continente, elevar a produtividade ao mesmo nível da agricultura pré-fertilizante de outros países já seria um valioso progresso.

É claro que qualquer nova revolução verde deveria levar em conta as lições aprendidas desde os anos 1960. Há muitas novas técnicas que podem melhorar os rendimentos ao mesmo tempo em que reduzem os problemas ambientais. Algumas envolvem pouca tecnologia, como enterrar bolinhas de fertilizante precisamente medidas para minimizar o escoamento da água, ou usar certos besouros e aranhas para repelir pragas. Sementes podem ser revestidas diretamente com fungicidas ou pesticidas, reduzindo a necessidade de borrifar produtos químicos. E uma abordagem particularmente promissora é a “agricultura de conservação” (também conhecida como agricultura “sem lavra” ou de “plantio direto”), um conjunto de técnicas desenvolvidas desde os anos 1970 que minimizam a necessidade de arar o solo, ou até a eliminam por completo.

Os agricultores que praticam a agricultura de conservação deixam os resíduos das plantas nos campos após a colheita, em vez de ará-los ou queimá-los. Culturas de cobertura são depois plantadas para proteger o solo. (Plantar legumes como culturas de cobertura ajuda a aumentar o nitrogênio do solo.) Na primavera, a cultura de cobertura e quaisquer ervas daninhas são mortas com uso de um herbicida ou cortadas na superfície com o uso de máquinas especiais.

O plantio da cultura principal é feito, então, com o uso de máquinas que guiam as sementes para sulcos no solo, feitos abaixo da camada protetora de resíduos. Tudo isso ajuda a reduzir a erosão da terra, já que o solo coberto, não arado, é menos propenso a ser arrastado pela água ou carregado pelo vento. A água é usada de maneira mais eficiente, porque a capacidade do solo de reter umidade aumenta e menos água é perdida por escoamento ou evaporação.

A agricultura de conservação também poupa combustível e reduz o consumo de energia, já que diminui a necessidade de máquinas para arar o solo. Em geral, menos fertilizante é necessário, porque menos nitrogênio é perdido para o ambiente; isso reduz também a poluição das vias navegáveis. A agricultura de conservação é mais amplamente usada nas Américas do Norte e do Sul, onde foi inicialmente desenvolvida, mas como ainda é responsável por apenas uma pequena proporção (cerca de 6%) da terra cultivada no mundo, há muito potencial para expandir seu uso.

É possível que as novas sementes geneticamente modificadas cumpram sua promessa de absorção do nitrogênio e uso mais eficiente da água. Novas sementes estão sendo também produzidas por engenharia genética para crescer em solos salgados demais para os tipos tradicionais. O desenvolvimento delas demandará ainda muitos anos, e é cedo demais para dizer se serão bem-sucedidas.

É certamente um exagero sugerir que a modificação genética é uma solução mágica para os vários problemas alimentares do mundo, mas seria insensato descartar inteiramente o seu uso. Ao mesmo tempo, pode haver técnicas orgânicas passíveis de aplicação mais ampla, particularmente em se tratando de controle biológico de pragas e do cultivo de produtos agrícolas em áreas áridas. Alguns estudos mostram que métodos orgânicos podem gerar maior produtividade em condições secas, por exemplo.

Para assegurar uma oferta adequada de alimentos quando a população mundial ruma para o ápice e as mudanças climáticas alteram padrões de agricultura estabelecidos há muito, será necessário reunir a maior variedade possível de técnicas agrícolas. Diferentes métodos serão os mais apropriados em diferentes regiões. Pode fazer sentido cultivar produtos agrícolas básicos usando métodos que requeiram muitos fertilizantes químicos em algumas partes do mundo, e trocá-los por safras especializadas cultivadas por métodos tradicionais em outras partes, por exemplo.

É excessivamente simplista sugerir que o mundo enfrenta uma escolha entre o fundamentalismo orgânico, por um lado, e uma fé cega na biotecnologia, por outro. O futuro da produção de alimentos, e da humanidade, reside certamente no amplo e fértil terreno entre uma coisa e outra.

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