A Nova Classe Média : O Lado Brilhante da Base da Pirâmide

A nova classe media_Neri

Marcelo Neri intitulou seu livro de “A nova classe média : o lado brilhante da base da pirâmide” (São Paulo: Saraiva, 2011). O subtítulo é muito expressivo da defesa de sua tese de que, de fato, houve uma mobilidade social no País. Talvez sua posição contra o ceticismo demonstrado pelos economistas social-desenvolvimentistas (leia a resenha do livro do Márcio Pochmann no post anterior), tenha lhe angariado simpatia por parte do próprio governo social-desenvolvimentista, em que pese sua filiação ideológica à escola de pensamento neoliberal (leia post anterior com seu breve currículo).

Sua retórica é adjetivada e apologética em relação às forças de O Mercado. “Buscamos também entender coração e mente dos brasileiros por meio de perguntas diretas aos próprios. Entre mais de 150 países, o brasileiro é o povo mais positivo do planeta com maior nota de felicidade futura. A latência da nova classe média estava clara no boom de consumo surgido depois de cada plano de estabilização, a começar pelo Cruzado — objeto de minha tese de mestrado no século passado. O congelamento de ativos do Plano Collor em 1990 tentou contê-lo. O trabalho que a inflação “mais grande” do mundo tinha para refrear impulso, agora é desempenhado por nossa taxa de juros real também recorde. A inflação alta mantinha o lado indiano de nossa Belíndia do lado de lá de sua fronteira”.

Ele escreveu com todas as letras o que o governo brasileiro queria ler. “A nova classe média brasileira é filha da combinação do crescimento com a equidade, que difere de nossa história pregressa e daquilo que ocorre nas últimas décadas em países emergentes e desenvolvidos nos quais a concentração de renda sobe.

O grande momento de um pesquisador empírico não é quando ele confirma o que já sabia, mas quando ele se surpreende com o que não sabia. Sensação comparável a de um garoto que acha uma moeda preciosa jogada na calçada. O que posso dizer bem ao fim da presente pesquisa é que achei não só um pote de moedas preciosas, mas o tal arco-íris.

Mais do que o consumismo e o otimismo, o que caracteriza a nova classe média brasileira — para minha surpresa e talvez para sua — é o lado do produtor, leia-se educação e trabalho. Este é o lado brilhante da base da pirâmide (the bright side of the base of the pyramid)”.

Ele afirma sem pudor que “Nova Classe Média foi o apelido que demos à classe C há anos. Chamar a pessoa de classe C soava depreciativo, pior do que classe A ou B, por exemplo. Nova classe média difere em espírito da expressão nouveau riche, que acima de tudo discrimina a origem das pessoas.

Nova classe média dá o sentido positivo e prospectivo daquele que realizou — e continua a realizar — o sonho de subir na vida. Aonde você vai chegar é mais importante do que de onde você veio ou onde está. Nova classe média não é definida pelo ter, mas pela dialética entre ser e estar olhando para a posse de ativos e para decisões de escolha entre o hoje e o amanhã. Mais do que assíduos frequentadores de templos de consumo, o que caracteriza a nova classe média brasileira é o lado do produtor. A nova classe média busca construir seu futuro em bases sólidas que sustentem o novo padrão adquirido.

Crédito ao consumidor e benefícios oficiais fazem parte da cena da classe C, mas como coadjuvantes. O protagonista é o lado do produtor, do empregado formal em particular. A carteira de trabalho é o maior símbolo da ascensão como ato consumado, e o concurso público é seu platônico objeto de desejo. Já o pequeno empreendedor continua relegado a um segundo plano aqui, dadas as dificuldades burocráticas, fiscais, creditícias e de valores. Ao contrário do que reza a lenda, o Brasil não é celeiro de pequenos grandes empreendedores, mas de grandes empreendedores do tipo fordista, desses que, depois de florescer no hostil ambiente de negócios tupiniquim, aspiram competir em seus respectivos segmentos globais.

Há deficiência crônica nas políticas públicas de apoio produtivo, do curso profissionalizante ao crédito produtivo popular, jogando contra o “brasileiro profissão esperança”. O instrumento-chave para liberar o potencial produtivo de nosso trabalhador seria a educação regular, que, embora ainda esteja num nível classe E, tem melhorado na quantidade, na qualidade, e nas prioridades tanto da população (passou de 7a. para 2a. na lista de preocupações do brasileiro) como da elite empresarial. A falta de preocupação com a educação colocava nossa elite econômica no pior dos mundos.

Ser nova classe média também é consumir serviços públicos de melhor qualidade no setor privado, aí incluindo colégio privado, plano de saúde e o produto prêmio, que é a previdência complementar. Todos podem ser vistos como ativos meio públicos, meio privados, que conferem maior, ou menor, sustentabilidade ao sonho brasileiro de subir na vida.

Em nossa visão, baseada em renda sobre nova classe média, aninhamos expectativas subjetivas das pessoas e seus respectivos estoques de ativos físicos, humanos e sociais. Entretanto, para que a análise tenha consequência, há que se arbitrar um ponto de apoio central que aqui é baseado em renda. Com base na classificação das pessoas em grupos de renda, são incorporadas expectativas e atitudes e a renda permanente é aquela na qual os estoques de ativos são convertidos em fluxos”.

Afirma, claramente, que “o objeto deste livro é a nova classe média brasileira, o público-alvo deste livro também é a nova classe média, lato sensu. Não se trata de explorar o conhecido antropofagismo cultural tupiniquim, mas de fornecer um espelho a cada leitor. Diferentemente da literatura de pobreza que geralmente não é lida pelos próprios pobres, mas por outros, motivados por altruísmo e sentido de justiça social, a ideia de classe média mexe com todos para além daqueles contidos em suas fronteiras. Aos pobres e remediados como aspiração de destino, as elites, que muitas vezes se enxergam como uma espécie de classe média estrangeira em solo tupiniquim. De fato, se aplicarmos a definição de classe média norte-americana calculada com base em sua distribuição, convertida ao custo de vida brasileiro, chegamos a valores bem superiores.

Outra diferença da nova classe média em relação à pobreza é o aspecto positivo do tema. Não falamos tanto de evitar o pesadelo da miséria humana, mas muito mais em realizar aspirações individuais e de, finalmente, aproveitar as oportunidades como nação. Não há como fugir em um país que anda para frente do novo mundo da ideia de sonho americano.

Ao mirarmos o cidadão comum, por meio de uma linguagem de compreensão mais universal, atingimos a todos: políticos, gestores de políticas e de empresas, formadores de opinião, acadêmicos etc. Não só porque esses atores sociais são, ao fim e ao cabo, cidadãos comuns, mas também porque ver-se lado a lado com o coletivo de brasileiro é diferente de estar na privacidade de seu grupo de referência. A aposta é que essa mudança de referência pode ajudar a escutar as demandas da sociedade na oferta de produtos e serviços, públicos ou privados”.

Neri (2010) mostra que o ganho de renda do trabalho per capita real médio no Nordeste durante o período 2003 a 2008 foi de 7,3% ao ano, praticamente igualando o crescimento de renda total, contrariando a ideia de que o aumento de renda do brasileiro em geral e do nordestino em particular deve-se apenas ao “assistencialismo oficial”.

Afirma: “complementarmente, destrinchamos a importância de diferentes fontes de renda no avanço dos indicadores sociais do país. Os resultados apontam que, embora tenha havido um aumento forte da renda, derivado de programas sociais e aposentadorias ligadas ao salário-mínimo, a parcela devida ao trabalho fica próxima ao expressivo crescimento de renda de 4,72% dessa fase, entre 2003 e 2009. O incremento médio de 4,61% ao ano da renda trabalhista por brasileiro, que corresponde a 76% da renda média percebida pelo brasileiro, confere sustentabilidade das condições de vida para além das transferências de renda oficiais”.

Neri diz que “destrinchou a evolução dos indicadores sociais baseados em renda domiciliar per capita tradicionalmente gerados pelo CPS, como pobreza, desigualdade (incluindo os sem renda) e as classes econômicas (AB, C, D e E), sintetizando o que aconteceu com o bolso dos brasileiros de famílias de diferentes estratos econômicos” e que “analisou os impactos imediatos de diferentes fontes de renda”.

Porém, não fala nada a respeito da renda da propriedade do capital (juro e aluguel). Ele diz qual foi a importância relativa dos proventos do trabalho, dos benefícios da previdência ou do Bolsa Família para explicar as origens das alterações dos indicadores baseados nos fluxos de renda (média e desigualdade de renda e classes econômicas), bem como sua maior ou menor sustentabilidade prospectiva, mas não trata da desigualdade mais forte: a concentração da riqueza.

Quando Neri se pergunta: como reduzir prospectivamente a desigualdade? Ele responde que “a renda do trabalho explica 66,86% da redução da desigualdade observada entre 2001 e 2008 o que confere algum grau de sustentabilidade à mudança”. Reconhecidamente, houve queda da desigualdade da renda do trabalho, mas ele não trata da elevação da desigualdade da riqueza.

Para economista defensor do livre-mercado que tem profissão de fé na meritocracia, “o mais relevante determinante da desigualdade e da pobreza no país é a educação. Pesquisas anteriores mostram que a renda aumenta monotonicamente com os anos de escolaridade. A média de educação da classe AB é de 12 anos de estudos, contra 4,98 da classe E. Observamos, a seguir, a distribuição da proporção de frequentadores de curso superior para diferentes grupos de renda: na classe AB, 47,67% da população frequenta ou já frequentou algum curso superior, enquanto na classe E esse percentual é de 2,44%”.

One thought on “A Nova Classe Média : O Lado Brilhante da Base da Pirâmide

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s