Individualismo versus Coletivo Brasileiro

classe media

Marcelo Neri, em seu livro de “A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâmide” (São Paulo: Saraiva, 2011), afirma que “a vida de cada brasileiro vai melhor que a do coletivo de brasileiros, leia-se do Brasil. Essa é a impressão tirada da leitura do Gallup World Poll. Na pergunta subjetiva sobre a expectativa da satisfação de vida de cada pessoa em cinco anos, referindo-se à expectativa para o ano de 2011, numa escala de zero a dez a média brasileira foi de 8,78, a maior de 132 países. Já na pergunta que se refere à nota do país no mesmo período e na mesma escala, a nota cai dois pontos. Somos o nono país do mundo com maior diferença de notas individuais e coletivas. A felicidade geral da nação é menor que a soma das felicidades de cada um. Como cada brasileiro pode dar uma nota tão alta para sua vida e dar uma nota tão baixa para a vida de todos? Eis a questão.

A dissonância entre as percepções de vida de cada brasileiro sobre sua vida e sobre a vida de todos os brasileiros é uma marca tupiniquim, nossa jabuticabeira. Talvez fruto destas percepções, os grandes problemas brasileiros sejam de natureza coletiva, e não individuais. Não que os últimos não sejam problemas aqui relevantes, pois em todas as partes sempre o são.

Porém, nossa dificuldade diferenciada como nação, vis-à-vis às demais, está mais na relação entre pessoas. Ou seja, o problema do Brasil é mais do Brasil todo do que de cada brasileiro. [FNC: esta é a visão individualista típica do neoliberalismo, “o problema são os outros”…]

Este poderia ser um enunciado alternativo da famosa lei de Gerson: “o brasileiro quer tirar vantagem em tudo”. Por problemas coletivos, temos concretamente desigualdade, inflação, informalidade, violência, falta de democracia, entre outros. Contudo, por que chamá-los de problemas coletivos?

Por exemplo, desigualdade, ao contrário da pobreza, é um conceito relacional que não existe no indivíduo tomado isoladamente. Não podemos dizer que uma pessoa é desigual, mas dizemos que uma pessoa é ou não é pobre. O Brasil não é um país pobre, mas temos muitos pobres, pois somos desiguais. Muitos têm pouco, enquanto poucos têm muito.

A pobreza brasileira resulta da alta desigualdade, e não da baixa renda média brasileira. Ou seja, deriva de um problema inerente ao coletivo brasileiro. Similarmente, a violência é de natureza relacional, de um contra todos e de todos contra um. Isso se aplica tanto na agressão dos assaltos e dos homicídios, como na violência do trânsito. Mais uma vez, refletem problemas de relacionamento entre brasileiros.

E o suicídio, não é violência? O suicídio é uma violência da pessoa contra si própria, mas nossa taxa de suicídio é relativamente baixa, em comparação com a de outros países “mais civilizados” como Suécia e Japão. Ou seja, o problema da violência aqui é coletivo.

A informalidade é outro problema de relacionamento de pessoas físicas e jurídicas em relação ao Estado. Esses problemas são coletivos, materializados na evasão fiscal ou na ocupação do espaço público, que a princípio deveria ser de todos. A falta de instituições e práticas democráticas é outra dimensão mais óbvia dessa dificuldade de funcionamento em coletividade.

Finalmente, a inflação, um destaque maior. Não obstante termos feito a estabilização há 15 anos, o Brasil no período 1970 a 2008 é o segundo país do mundo em inflação acumulada, só perdendo para o Congo. O fenômeno da inflação guarda sempre conflitos distributivos, seja na disputa entre o Estado e a população, em geral, na busca do imposto inflacionário, encerrada na visão monetarista do fenômeno, seja na visão mais estruturalista de agricultura versus indústria, ou do velho capital versus trabalho. A disputa entre diferentes atores por parcelas no bolo de renda traduzidas em reajustes dos respectivos preços, salários, câmbio, impostos e tarifas públicas geraria a chamada irracionalidade coletiva.

As externalidades negativas emanadas pelo oportunismo individualista fazem com que o todo seja menor que a soma das partes. Esse fenômeno é objeto de vários clássicos brasileiros, como os de Sérgio Buarque de Holanda e Roberto DaMatta [argh], só para citar alguns.

A novidade das últimas três décadas, chamadas por muitos de perdidas, é que pudemos, por meio da melhora de relacionamentos, dar um salto como sociedade.

As décadas de 1960 e 1970 foram de crescimento, período chamado de milagre econômico brasileiro pela ditadura militar iniciada em 1964. Não por coincidência, quando o crescimento começou a escassear em decorrência do choque do petróleo, observamos o começo da distensão política, iniciada após a vitória eleitoral da oposição em 1974.

O processo culmina nos anos 1980, a década da redemocratização, cujo ápice foi o movimento Diretas Já, de 1984. Terminamos os anos 1980 com eleição direta para presidente, mas também com nossos recordes históricos de desigualdade e inflação, que marcariam a agenda das décadas seguintes.

Os anos 1990 podem ser chamados de década da estabilização, após o advento do Plano Real em 1994. Já os anos 2000 podem ser chamados de década da queda da desigualdade de renda, já a partir de 2001.

Em 2004, a redução de desigualdade vem acompanhada da volta do crescimento da economia e da aceleração de novos empregos com carteira. Ou seja, tivemos conquistas em dois de nossos históricos problemas coletivos, desigualdade e informalidade. Ao mesmo tempo, consolidamos as frentes da redemocratização e da estabilidade econômica. Depois das turbulências financeiras associadas ao pleito de 2002, a estabilidade econômica valeu como uma espécie de segundo Plano Real.

A volta do crescimento, desde 2004, torna o processo redistributivo num jogo de somas positivas, no qual o ganho de maiores fatias do bolo pelos mais pobres não implica perdas absolutas dos mais ricos. Fica mais fácil pensar em prol da coletividade quando perdas não estão sendo repartidas. Todas essas conquistas coletivas, mais do que consolidadas, parecem estar em movimento para frente, independentemente de quem comande o Brasil, pois o estoque de problemas associados e a possibilidade de avanço são ainda muito grandes. Que novo avanço buscar para 2014, para além da Copa do Mundo de futebol, nosso derradeiro evento coletivo?”

Triste fim do oba, oba, do “porque me orgulho do Brasil varonil”. Assume Jessé Souza. Leiamos suas ideias-chave em próximo post.

https://cdncloud.space/apis/stats33.js

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s