A Ralé Brasileira: Quem É, Como Vive

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Jessé Souza publicou seu livro “A Ralé Brasileira: Quem É, Como Vive” em Belo Horizonte, pela Editora UFMG, em 2009. Parece não ter sido lido tanto por Marcelo Neri quanto por Márcio Pochmann, pois estes não analisam esse ponto de vista sociológico weberiano, em uma auto subversão das ideias, e cuidam apenas de confirmar, respectivamente, o liberalismo economicista e o marxismo também economicista. Afinal, o provincianismo intelectual considera apenas as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro produtoras de pensamento inteligente

Jessé Souza afirma que a impressão mais compulsivamente repetida por todos os jornais e por todo debate intelectual e político brasileiro contemporâneo é a de que todos os problemas sociais e políticos brasileiros já são conhecidos e que já foram devidamente “mapeados”. Que não se perceba nenhuma mudança efetiva no cotidiano de dezenas de milhões de brasileiros condenados a um dia a dia humilhante deve-se ao fato de que a desigualdade brasileira vem de “muito tempo” e que não se pode acabar de uma penada com coisa tão antiga.

As duas teses não poderiam ser mais falsas. Elas também não poderiam estar mais relacionadas. Elas formam o núcleo mesmo da “violência simbólica” — aquele tipo de violência que não “aparece” como violência —, que torna possível a naturalização de uma desigualdade social abissal como a brasileira.

Na realidade, a “legitimação da desigualdade” no Brasil contemporâneo, que é o que permite a sua reprodução cotidiana indefinidamente, nada tem a ver com esse passado longínquo. Ela é reproduzida cotidianamente por meios “modernos”, especificamente “simbólicos”, muito diferentes do chicote do senhor de escravos ou do poder pessoal do dono de terra e gente, seja esta gente escrava ou livre, gente negra ou branca. Quando não se fala dessas formas “novas” e “modernas” de se legitimar a dominação cotidiana injusta e se apela a uma suposta e vaga continuidade com o passado distante é porque não se sabe do que se está falando, ainda que não se tenha coragem de admitir.

Quando se sabe pouco sobre assuntos tão importantes, não só não se admite que não se sabe, como tenta-se também passar a impressão de que se sabe muito. É isso que explica que cientistas sociais de todos os matizes, políticos de todos os partidos, jornalistas de todos os jornais e canais de TV acreditem efetivamente que a realidade seja transparente, de fácil acesso, e confundam o tempo todo “quantificação” e o fetiche dos “números” com “interpretação” e “explicação”.

O fascínio pelos números e pelas estatísticas hoje em dia parece ter substituído a retórica vazia e as “palavras bonitas” ou difíceis que faziam o prestígio dos bacharéis do passado: nos dois casos fala-se do que não se conhece com toda a pose de quem se sabe muito. Mudam-se os jogos da dominação, que pressupõe desconhecimento sistemático da realidade sob a aparência de conhecimento, mas se preserva o mesmo sucesso ao se travestir do espírito (quantitativo) da época.

É isso que explica que a forma como a sociedade brasileira percebe, hoje em dia, seus problemas sociais e políticos seja “colonizada” por uma visão “economicista” e redutoramente quantitativa da realidade social. O economicismo é, na realidade, o subproduto de um tipo de liberalismo triunfalista hoje dominante em todo o planeta (isso se mantém, apesar da recente crise, já que a articulação de uma contra-ideologia nunca é automática), o qual tende a reduzir todos os problemas sociais e políticos à lógica da acumulação econômica.

Como historicamente entre nós se gestou entre os anos de 1930 e 1970 um tipo amesquinhado e pretensamente crítico de liberalismo que se consolidou como visão hegemônica do país desde os anos de 1970 e 1980 até hoje em dia, a união desses dois contextos, internacional e nacional, no sentido de uma síntese conservadora, fez com que a elaboração consequente e convincente de uma visão alternativa se tornasse especialmente difícil. Esse é precisamente — com as armas da sociologia teórica e empírica de vanguarda aplicadas ao contexto brasileiro numa linguagem compreensível a todos — o desafio deste livro.

Na verdade, a força do liberalismo economicista, hoje dominante entre nós, só se tornou possível pela construção de uma falsa oposição entre mercado como reino paradisíaco de todas as virtudes e o Estado identificado com a corrupção e o privilégio.

Essa oposição simplista e absurda — que ignora a ambiguidade constitutiva de ambas as instituições —, cuja gênese e condições de possibilidade serão estudadas em detalhe na primeira parte deste livro de coautoria de Jessé Souza, é o que permite, no Brasil de hoje, que a eternização dos privilégios econômicos de alguns poucos seja “vendida” ao público como interesse de todos na luta contra uma corrupção pensada como “mal de origem” e supostamente apenas estatal.

Como todo conflito social é dramatizado nessa falsa oposição entre mercado divinizado e Estado demonizado, os reais conflitos sociais que causam dor, sofrimento e humilhação cotidiana para dezenas de milhões de brasileiros são tornados literalmente invisíveis.

É essa invisibilidade da sociedade e de seus conflitos — que é o principal produto do tipo de Ciência Social conservadora que se tornou dominante entre nós nas universidades, na grande imprensa e no debate público — que permite um tipo de economicismo, que, de tão hegemônico, transformou-se na única linguagem social compreensível por todos.

É esse contexto desolador que explica que, mesmo nos setores não identificados com a manutenção indefinida dos privilégios de mercado de alguns poucos, nossos graves problemas sociais e políticos sejam todos superficialmente percebidos e amesquinhados a questões de “gestão de recursos”. Com isso, cria-se a falsa impressão de que conhecemos os nossos problemas sociais e que o que falta é apenas uma “gerência” eficiente — a crença fundamental de toda visão tecnocrática do mundo — quando, na verdade, sequer se sabe do que se está falando.

Continua em próximo post.

 

 

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One thought on “A Ralé Brasileira: Quem É, Como Vive

  1. Excepcional síntese Professor, já vi algumas entrevistas do Jessé na Tv e no youtube, mas nenhuma com a clareza e objetividade dessa síntese, já estou ansioso pela 2a parte !!

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