Voto Inútil

desobedienciacivil (1)

A letra da música “Ideologia“, composta por Cazuza, expressa muito a respeito dos meus sentimentos políticos no momento: Meu partido / É um coração partido / E as ilusões / Estão todas perdidas / Os meus sonhos / Foram todos vendidos / Tão barato que eu nem acredito / Ah! Eu nem acredito / Que aquele garoto / Que ia mudar o mundo / Mudar o mundo / Frequenta agora / As festas do “Grand Monde” / Meus heróis / Morreram de overdose / Meus inimigos / Estão no poder / Ideologia! / Eu quero uma pra viver / Ideologia! / Eu quero uma pra viver…

Henry David Thoreau, em “A desobediência civil” (Rio de Janeiro; Rocco; 1984 – original de 1849), afirma: “não discuto com inimigos distantes, mas com aqueles que, perto da minha casa, obedecem e cooperam com os que estão longe, e que sem eles seriam inofensivos”.

Estamos habituados a dizer que “as massas são despreparadas”; mas o aprimoramento é lento, porque a minoria não é essencialmente mais sábia ou melhor que a maioria. Mais importante do que haver muitos que sejam bons como você é haver em algum lugar a excelência absoluta, pois isso fará fermentar a massa como um todo.

“Toda votação é uma espécie de jogo, como damas ou gamão, com um leve matiz moral, uma brincadeira em que existem questões morais, o certo e o errado, e evidentemente é acompanhada de apostas. O caráter dos votantes não entra em jogo. Deposito meu voto, talvez, de acordo com o que julgo correto; mas não estou vitalmente preocupado com a vitória do certo. Estou disposto a deixar isso para a maioria”.

A obrigação do voto, portanto, nunca vai além do que é conveniente. Mesmo votar pelo que é correto não é o mesmo que fazer alguma coisa por ele. É apenas expressar debilmente aos outros o desejo de que o certo prevaleça. Um homem sábio não deixará o que é correto à mercê da sorte, nem desejará que ele prevaleça mediante o poder da maioria.

Há pouca virtude na ação das massas. “Quando a maioria finalmente votar pela abolição da escravidão [original de 1849], isso se dará porque a escravidão lhe é indiferente, ou porque terá restado pouca escravidão a ser abolida por seu voto. A essa altura serão eles, os da maioria, os únicos escravos. Só pode apressar a abolição o voto daquele que afirma sua própria liberdade por meio do voto”.

Thoreau descobriu que o homem respeitável, ou assim chamado, abandonou prontamente sua posição e não espera mais nada de seu país, quando é o seu país que tem mais motivos para nada mais esperar dele. Ele mais que depressa adota um dos candidatos assim escolhidos como o único disponível, provando desse modo que ele próprio está disponível para todos os propósitos do demagogo. Seu voto não tem mais valor do que o de qualquer forasteiro sem princípios ou nativo mercenário, que pode muito bem ter sido comprado.

“Oh, mas um homem que é de fato um homem, como diz meu vizinho, tem uma coluna dorsal que não se verga! Nossas estatísticas estão incorretas: gente demais foi computada. Quantos verdadeiros homens existem em cada quilômetro quadrado neste país? Quando muito, um.”

Não é obrigação de um homem, evidentemente, dedicar-se à erradicação de um mal qualquer, nem mesmo do maior que exista. Ele pode muito bem ter outras preocupações que o absorvam. Mas é seu dever, pelo menos, manter as mãos limpas e, mesmo sem pensar no assunto, recusar o apoio prático ao que é errado.

“Se eu me dedico a outros planos e atividades, devo antes de mais nada garantir, no mínimo, que para realizá-los não estarei pisando nos ombros de outro homem. Devo sair de cima dele para que também ele possa perseguir seus objetivos”.

O soldado que se recusa a lutar numa guerra injusta é aplaudido por aqueles que não se recusam a apoiar o governo injusto que faz a guerra. Ele é aplaudido por aqueles cujos atos e cuja autoridade ele despreza. É como se o Estado fosse penitente a ponto de contratar alguém para açoitá-lo enquanto ele peca, mas não a ponto de deixar de pecar por um instante sequer.

Assim, em nome da Ordem e do Governo Civil, somos todos levados, em última instância, a prestar homenagem e apoio a nossa própria torpeza. Depois do enrubescimento inicial de vergonha pelo pecado vem a indiferença. E de imoral, o pecado se torna, por assim dizer, amoral, e não totalmente desnecessário à vida que edificamos.

O erro mais amplo e frequente requer a virtude mais desinteressada para se sustentar. É o homem nobre o mais propenso a fazer as leves ressalvas a que geralmente está sujeita a virtude do patriotismo. Aqueles que, embora desaprovando o caráter e as medidas de um governo, empenham a ele sua obediência e seu apoio são sem dúvida seus defensores mais conscienciosos, e por conta disso, com muita frequência, os mais sérios opositores das reformas.

Como pode um homem se satisfazer em ter uma opinião e se deleitar com ela? Que deleite pode haver nisso, se sua opinião for a de que ele está sendo lesado?

Se seu vizinho lhe subtrai por artimanhas um simples dólar, você não ficará satisfeito apenas em saber que foi ludibriado, ou em proclamar o fato, ou mesmo em reivindicar a ele que pague o que lhe é devido. Imediatamente você tomará medidas efetivas para reaver a quantia completa e assegurar-se de que nunca mais seja tapeado.

A ação baseada em princípios, a percepção e a prática do que é certo, isso muda as coisas e as relações. É algo necessariamente revolucionário, e não condiz de forma integral com qualquer coisa preexistente. Uma ação assim não divide apenas Estados e Igrejas, ela divide famílias. Mais que isso, divide o indivíduo, separando o que há de diabólico nele de o que há de divino.

Leis injustas existem: devemos nos contentar em obedecê-las? Ou nos empenhar em aperfeiçoá-las, obedecendo-as até obtermos êxito? Ou devemos transgredi-las imediatamente?

Em geral, sob um governo como o nosso, os homens julgam que devem esperar até que tenham convencido a maioria a alterar as leis. Pensam que, se resistissem, o remédio seria pior que os males. Mas é culpa do próprio governo que o remédio seja de fato pior que os males. É ele, o governo, que o torna pior.

Por que ele não se mostra mais inclinado a se antecipar e a providenciar as reformas? Por que não valoriza suas minorias sensatas? Por que não encoraja seus cidadãos a estar alertas para apontar suas falhas, e assim melhorar sua atuação para com eles?

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