Vida Sem Princípios: Defesa da Individualidade

Vida sem Princípios

Segundo a Introdução de José Augusto Drummond ao livro de Henry David Thoreau, “A desobediência civil” (Rio de Janeiro; Rocco; 1984), no ensaio “A Vida sem Princípios”, ele explicita mais sua crítica ao conformismo em geral e não apenas ao conformismo estritamente político, no campo das relações entre cidadãos e Estado.

Thoreau combate a tirania dos costumes, independente do fato de estarem eles ou não consagrados em leis políticas formalizadas. A impaciência dele para com as maiorias eleitorais é parte de uma suspeição ainda maior quanto às próprias formas pelas quais seus concidadãos “vivem as suas vidas”.

É um defensor da excentricidade como a virtude dos homens que têm coragem de viver de acordo com princípios não consagrados pela comunidade a que pertencem. Lamenta aqueles que se conformam e vivem em “silencioso desespero”. Pouco adianta se livrar da tirania política do colonizador para cair nas garras do “rei preconceito”, entidade que pode muito bem ser chamada de “opinião pública”. Como se provou, recentemente, no Brasil, a opinião pública é a pior entre todas as opiniões

Entre os pragmáticos, utilitaristas e puritanos, não é popular defender o trabalho apenas por prazer, a contemplação da natureza, o lazer, a múltipla aptidão pessoal do artífice manual e intelectual. Afinal de contas, “o tempo é dinheiro” na Terra do Espírito Prático.

Thoreau renega os sinais convencionais de sucesso: riqueza, ostentação, emprego fixo, expediente integral, especialização, prudência, etc. Defende as aventuras do corpo e do espírito com forma de encontrar uma vida autenticamente compensadora. Só cada pessoa pode ser um bom juiz de sua vida.

Critica os componentes do modorrento cotidiano do homem comum: os negócios, trabalhar durante todo o dia, frequentar tribunais (ou assistir TV Justiça) ou Congresso (TV Câmara/TV Senado), realizar trabalhos inúteis ou alienados, ler os jornais, ver TV aberta, conversar sobre trivialidades ou celebridades, votar no “candidato menos ruim”, e coisas do gênero. Thoreau se queria distante da normalidade circundante.

Se seus colegas/vizinhos o considera preguiçoso e excêntrico, em comentários camuflados, é melhor contrapor-se nomeando-os como gananciosos e banais.

O individualismo significa diferenças legítimas entre as pessoas. Cabe uma agressiva defesa da legitimidade de ser e de viver diferente. Desde cedo, pode-se retrair da vida política institucionalizada em partidos e eleições. Por que não desprezar os critérios convencionais de normalidade?

A verdade de cada um espera ser descoberta no fundo do espírito de cada um. Cada pessoa pode descobri-la, se tentar, ou pode preferir seguir a “verdade geral” ou a “verdade do momento”.

Thoreau fez de sua vida uma cuidadosa combinação entre:

  1. o exercício pacato de rotinas selecionadas e
  2. a denúncia inquietante da obediência cega.

Ele teve, sim, uma vida excêntrica, voltada para satisfazer suas exigências de si mesmo e não as preferências de qualquer plateia grande ou pequena, presente ou futura. Foi um individualista para quem nem mesmo o apregoado individualismo norte-americano foi suficiente.

Nunca se arriscou a cometer o maior dos erros: “gastar a vida procurando ganhar a vida”. Preferiu gastar a vida com o que lhe era vital.

“Vida sem princípios [1863]”

Em capítulo do livro de Henry David Thoreau, “A desobediência civil”, o ensaio “Vida sem princípios [1863]” propõe-se a “examinar o modo como levamos nossas vidas”. Reproduzo abaixo alguns excertos para reflexão sobre nosso modo de vida.

“Este mundo é um lugar de negócios. Que alvoroço sem fim! Sou despertado quase toda noite pelo resfolegar da locomotiva. Ela interrompe meus sonhos. Não há dia de descanso. Seria glorioso ver a humanidade ter descanso uma vez na vida. É só trabalho, trabalho, trabalho.

É difícil comprar um caderno de folhas sem pauta para escrever neles meus pensamentos; eles quase sempre vêm com linhas, para o registro de dólares e centavos. Um irlandês, ao me ver no campo rabiscando umas anotações, não teve dúvidas de que eu estava calculando meus honorários.

Se um homem foi jogado por uma janela quando criança e ficou aleijado para toda a vida, ou se enlouqueceu por pavor dos índios, o que se lamenta primordialmente é que ele ficou incapacitado… para os negócios! Penso que não existe nada, nem mesmo o crime, que se oponha tanto à poesia, à filosofia, à própria vida, quanto os incessantes negócios.” (…)

“Os meios pelos quais se pode ganhar dinheiro conduzem, quase sem exceção, são todos degradantes. Não ter feito nada que não tenha sido meramente para ganhar dinheiro é ter sido de fato ocioso ou coisa pior. Se o trabalhador não recebe mais do que o salário que seu patrão lhe paga, ele está sendo enganado, e enganando a si mesmo.

Para ganhar dinheiro como escritor ou conferencista, o sujeito tem que ser popular, o que significa decair verticalmente. Os serviços pelos quais a comunidade está mais disposta a pagar prontamente são os mais desagradáveis de realizar.

O sujeito é pago para ser algo menos que um homem. O Estado não costuma recompensar de modo nem um pouco mais sábio um grande talento. Mesmo o poeta laureado preferiria não ter que celebrar os eventos da realeza. Ele tem que ser subornado com um barril de vinho; e talvez outro poeta seja afastado de sua musa para fazer a fiscalização desse mesmo barril. ” (…)

“A meta de um trabalhador não deveria ser simplesmente ganhar a vida, obter “um bom emprego”, mas sim fazer bem certo trabalho; mesmo num sentido pecuniário, seria proveitoso para uma cidade pagar seus trabalhadores tão bem que eles não sentissem que estavam trabalhando para uma finalidade inferior, como a mera subsistência, e sim para fins científicos ou até mesmo morais. Não contrate um homem que faça o seu trabalho por dinheiro, mas um homem que trabalhe por amor àquilo que faz.

É digno de nota que existam poucos homens tão bem empregados, segundo sua própria opinião, que um pouco de dinheiro ou fama não os compre e os afaste de sua ocupação corrente. Vejo anúncios à procura de rapazes dinâmicos, como se o dinamismo fosse todo o capital de que um jovem dispõe.” (…)

A comunidade não dispõe de suborno capaz de tentar um homem sábio. É possível levantar dinheiro suficiente para fazer um túnel numa montanha, mas não se pode levantar dinheiro suficiente para contratar um homem que esteja entregue a sua própria ocupação. Um homem eficiente e valioso faz o que é capaz de fazer, quer a comunidade lhe pague por isso ou não. Os ineficientes oferecem sua ineficiência a quem pagar a maior remuneração, e estão sempre na expectativa de obter um cargo público. Podemos supor que eles raramente se frustram.

Talvez eu seja mais zeloso do que o normal no tocante a minha liberdade. Sinto que minha ligação com a sociedade, e meu compromisso para com ela, ainda são muito tênues e transitórios.

Aqueles pequenos trabalhos que sustentam minha existência, e mediante os quais sou em alguma medida útil a meus contemporâneos, têm sido até agora, no mais das vezes, um prazer para mim, e não é frequente que eu me lembre deles como sendo uma necessidade. Até agora tenho tido êxito. Mas prevejo que, se minhas necessidades aumentassem muito, o trabalho requerido para satisfazê-las tornar-se-ia uma chateação.

Se eu vendesse à sociedade tanto minhas manhãs como minhas tardes, como a maioria parece fazer, estou certo de que, para mim, não restaria nada que fizesse valer a pena viver. Espero, portanto, nunca ter de vender meus direitos naturais por um prato de sopa. O que quero dar a entender é que um homem pode ser muito laborioso e mesmo assim não empregar bem o seu tempo. Não há maior trapalhão do que o que gasta a maior parte de sua vida empenhando-se em ganhar a vida. Todos os grandes empreendimentos são autossustentáveis. ”

“Deve-se ganhar a vida amando-a” ou “Deve-se ganhar a vida com o que é vital”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s