Reflexão sobre nosso Modo de Vida

Tempo

Em capítulo do livro de Henry David Thoreau, “A desobediência civil”, o ensaio “Vida sem princípios [1863]” propõe-se a “examinar o modo como levamos nossas vidas”. Reproduzo abaixo outros excertos para reflexão sobre nosso modo de vida.

“Vir ao mundo meramente como herdeiro de uma grande fortuna não é nascer, é ser natimorto. Ser sustentado pela caridade dos amigos, ou por uma pensão governamental — desde que você continue a respirar —, quaisquer que sejam os eufemismos usados para descrever essas relações, é o mesmo que ir para o asilo de indigentes. ”

“É digno de nota que não exista quase nada de relevante escrito sobre ganhar a vida; sobre como tornar o ganha-pão não apenas honesto e honrado, mas completamente atrativo e glorioso; pois se ganhar a vida não for assim, a vida também não o será.”

“Conheço raros homens de intelecto que sejam tão aberta e genuinamente liberais a ponto de podermos pensar em voz alta em sua companhia. A maioria daqueles com que tentamos conversar começa logo a criticar alguma instituição na qual parece ter interesse — ou seja, sustenta um modo particular, não universal, de ver as coisas. ” (…)

“Para falar com imparcialidade, os melhores homens que conheço não são puros, não são um mundo fechado em si. Em sua maioria, eles se conformam aos padrões, e simplesmente encantam e representam seu papel de modo mais sutil que os outros. (…)

Frequentemente critico em meus melhores conhecidos sua imensa frivolidade; pois, ao mesmo tempo em que nossas maneiras e comportamentos não combinam, não ensinamos uns aos outros as lições de honestidade e sinceridade que os animais ensinam, nem a firmeza e solidez ensinada pelas rochas. A culpa é geralmente recíproca, porém, pois não temos o hábito de exigir mais uns dos outros. (…)

“Igualmente vazia e inconsequente, em sua maior parte, é a nossa conversação cotidiana. O superficial se encontra com o superficial. Quando nossa vida deixa de ser interior e privada, a conversa degenera para o mexerico. Raramente encontramos um homem que possa nos contar alguma novidade que ele não tenha lido no jornal, ou ouvido de um vizinho; e no mais das vezes a única diferença entre nós e nosso interlocutor é que ele folheou os jornais ou saiu para tomar chá, e nós não.

Quanto mais a nossa vida interior vai mal, com mais frequência e ansiedade acorremos à agência de correio e venda de jornais. Podem estar certos de que o pobre sujeito que sai do correio [ou do “feicebuque” – sic] com o maior número de cartas [“laiques” – sic], orgulhoso de sua volumosa correspondência, não tem notícias de si mesmo há muito tempo.

Não sei ao certo, mas me parece um excesso ler um jornal por semana. Tentei fazer isso recentemente e me senti como se, durante o tempo da leitura, não estivesse morando em minha região natal. O sol, as nuvens, a neve e as árvores já não me diziam tanto.

Não é possível servir a dois senhores. É necessário mais do que um dia de dedicação para conhecer e possuir a riqueza de um dia.

Podemos muito bem ter vergonha de dizer as coisas que lemos ou ouvimos ao longo de nosso dia. Não sei por que minhas notícias teriam que ser tão triviais. Levando em conta os sonhos e expectativas que as pessoas têm, por que os fatos precisam ser tão insignificantes?

A notícia que ouvimos, no mais das vezes, não é novidade para o nosso espírito. É a mais gasta repetição. Somos muitas vezes tentados a perguntar o porquê de tanta ênfase numa experiência particular que tivemos… ”

“De fato, ver o sol nascer e se pôr todos os dias, conectando-nos assim a um fato universal, é algo que preserva nossa sanidade para sempre. Nações! O que são as nações? Tártaros, hunos e chineses! Como insetos, elas fervilham. O historiador empenha-se em vão por torná-las memoráveis.

É por falta de um homem verdadeiro que há tantos homens. São os indivíduos que povoam o mundo.

Percebo com frequência o quanto cheguei perto de deixar entrar em minha mente os detalhes de algum assunto trivial, da notícia ouvida na rua. E fico estupefato ao constatar o quanto os homens estão propensos a atulhar suas mentes com essas bobagens, a permitir que rumores inúteis e incidentes da espécie mais insignificante invadam um terreno que deveria ser consagrado ao pensamento.

Será que a mente deve ser uma arena pública, onde o que mais se discute são os assuntos da rua e o mexerico da mesa de bar?

Considero tão difícil lidar com os poucos fatos significativos para mim que hesito em sobrecarregar minha atenção com aqueles que são insignificantes, e cuja obscuridade só uma mente divina seria capaz de iluminar. Tal é o caso, no mais das vezes, das notícias dos jornais e das conversas. É importante preservar a castidade da mente a esse respeito. ” (…)

“O que se costuma chamar de política é, comparativamente, algo tão superficial e inumano que nunca reconheci inteiramente que ela tenha algo a ver comigo. Os jornais, pelo que percebo, dedicam algumas de suas colunas especialmente à política ou ao governo, sem cobrar por isso. E essa circunstância, alguém pode argumentar, é o que salva a atitude. Mas, como amo a literatura, e também a verdade, de qualquer forma nunca leio essas colunas. Não quero embotar desse modo meu senso do que é direito.

Não posso ser acusado de ter lido sequer uma mensagem do presidente [ainda mais sendo conspirador, golpista e ilegítimo]. Estranha era do mundo esta nossa, em que impérios, reinos e repúblicas vêm bater na porta do homem particular e despejar sobre ele suas queixas!

Não há um jornal que eu abra sem que encontre nele um ou outro governo ignóbil, sob forte pressão e à beira do colapso, apelando a mim, o leitor, para que o apoie. Num caso assim, não hesito em sugerir (…) que o palácio do tal governo fique em silêncio, como faço na minha casa. O pobre presidente, pensando em preservar sua popularidade e cumprir suas obrigações, fica completamente desconcertado.

Os jornais são a força dirigente. Qualquer outro governo fica reduzido se um homem deixa de lê-los. Então, o governo se ajoelha a seus pés, pois essa é a única traição hoje em dia.

Essas coisas que hoje mais ocupam a atenção dos homens, a política e a rotina diária, são, admito, funções vitais da sociedade humana, mas deveriam ser desempenhadas de modo inconsciente, como as funções análogas do corpo físico. São infra-humanas, uma espécie de atividade vegetativa. ”

“(…) os dois partidos políticos são suas duas metades opostas — às vezes subdivididas em quartas partes — que se trituram mutuamente. Não apenas os indivíduos, mas também os Estados têm assim uma dispepsia crônica, que se expressa por um tipo de eloquência que vocês podem imaginar.

Assim, nossa vida não é um total esquecimento, mas também, infelizmente, uma lembrança daquilo de que nunca deveríamos ter consciência, ao menos em nossas horas de vigília. Por que, em vez de nos encontrarmos como dispépticos [com sensação de desconforto digestivo] que ficam narrando uns aos outros seus pesadelos, não poderíamos às vezes nos encontrar como eupépticos [com digestão satisfatória] celebrar juntos a sempre gloriosa manhã? Por certo não estou fazendo uma exigência descabida.”

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