O Processo Civilizador: Volume 1 – Uma História dos Costumes

O Processo Civilizador I

Eu jamais imaginei o grau de intolerância humana a que chegamos, depois de séculos de processo civilizatório e de lições da história como os genocídios. Achava que nas Américas, continente-refúgio das intolerâncias europeias, com sociedades multiétnicas, através de autocontrole, os descendentes de imigrantes não deixariam seus instintos primários aflorarem.

Infelizmente, a reação à crise mundial atual, tal como a de 1929, está nos trazendo de volta o pior de nós, seres humanos: a intolerância com “rivais”, o fascismo, o xenofobismo, a violência estúpida, etc. E ainda não retrocedemos ao “mundo de escassez” de outrora…

Vale, então, reler o livro de Norbert Elias, “O Processo civilizador: volume 1 – Uma História dos Costumes” (Rio de Janeiro; Zahar; 1995), para verificar o que fazer, baseado nas lições da História. Como resgatar a cortesia e o trato civilizado entre os homens?

Esse livro de Norbert Elias foi escrito nos anos 1930, durante a ascensão do nazismo, na Alemanha. Ele teve sua primeira edição, em 1939, na Suíça. Com o autor exilado nos EUA, depois de muitos anos, em 1978, o livro ganhou uma edição inglesa e apenas em 1990 a primeira edição em português.

Elias diz que a antítese fundamental que expressa a autoimagem do Ocidente na Idade Média opõe Cristianismo a paganismo ou, para ser mais exato, o Cristianismo correto, romano-latino, por um lado, e o paganismo e a heresia, incluindo o Cristianismo grego e oriental, por outro.

Em nome da Cruz e mais tarde da civilização, a sociedade do Ocidente empenha-se, durante a Idade Média, em guerras de colonização e expansão. E a despeito de toda a sua secularização, o lema “civilização” conserva sempre um eco da Cristandade Latina e das Cruzadas de cavaleiros e senhores feudais. A lembrança de que a cavalaria e a fé romano-latina representam uma fase peculiar da sociedade ocidental, um estágio pelo qual passaram todos os grandes povos do Ocidente, certamente não desapareceu.

O conceito de civilité adquiriu significado para o mundo Ocidental em uma época em que a sociedade de cavaleiros feudais e a unidade da Igreja Católica se esboroavam. É a encarnação de uma sociedade que, como estágio específico da formação dos costumes ocidentais, ou “civilização”, não foi menos importante do que a sociedade feudal que a precedeu.

O conceito de civilité, também, constitui expressão e símbolo de uma formação social que enfeixava as mais variadas nacionalidades, na qual, como na Igreja, uma língua comum é falada, inicialmente o italiano e, em seguida, cada vez mais, o francês. Essas línguas assumem a função antes desempenhada pelo latim. Traduzem a unidade da Europa e, simultaneamente, a nova formação social que lhe fornece a espinha dorsal, a sociedade de corte. A situação, a autoimagem e as características dessa sociedade encontram expressão no conceito de civilité.

Este conceito recebeu seu cunho e função específicos, discutidos por Elias, no segundo quartel do século XVI. Seu ponto de partida individual pode ser determinado com exatidão. Deve ele o significado específico adotado pela sociedade a um curto tratado de autoria de Erasmo de Rotterdam, De civilitate morum puerilium (Da Civilidade em Crianças), que veio à luz em 1530.

Esta obra evidentemente tratava de um tema que estava maduro para discussão. Teve imediatamente uma imensa circulação, passando por sucessivas edições. Ainda durante a vida de Erasmo — isto é, nos primeiros seis anos após a publicação — teve mais de 30 reedições. No conjunto, houve mais de 130 edições, 13 das quais em data tão recente como o século XVIII. Praticamente não tem limites o número de traduções, imitações, e sequências. Dois anos após a publicação do tratado, apareceu sua primeira tradução inglesa. Em 1534, veio a lume sob a forma de catecismo e nesta ocasião já era adotado como livro-texto para educação de meninos. Seguiram-se traduções para o alemão e o tcheco. Em 1537, 1559, 1569 e 1613 apareceu em francês, com novas traduções todas as vezes. (…)

Neste particular, como ocorre com tanta frequência na história das palavras, e aconteceria mais tarde na evolução do conceito de civilité para civilisation, um indivíduo serviu como instigador. Com seu tratado, Erasmo deu nova nitidez e força a uma palavra muito antiga e comum, civilitas. Intencionalmente ou não, ele obviamente expressou na palavra algo que atendia a uma necessidade social da época.

O conceito civilitas, daí em diante, ficou gravado na consciência do povo com o sentido especial que recebeu no tratado de Erasmo. Palavras correspondentes surgiram em várias línguas: a francesa civilité, a inglesa civility, a italiana civilità, e a alemã Zivilität, que reconhecidamente nunca alcançou a mesma extensão que as palavras correspondentes nas outras grandes culturas.

O aparecimento mais ou menos súbito de palavras em línguas quase sempre indica mudanças na vida do próprio povo, sobretudo quando os novos conceitos estão destinados a se tornarem fundamentais e de longa duração como esses.

O próprio Erasmo talvez não tenha atribuído, no conjunto total de sua obra, qualquer importância especial ao seu curto tratado De civilitate morum puerilium. Diz ele na introdução que “a arte de educar jovens envolve várias disciplinas, mas que a civilitas morum é apenas uma delas, e não nega que ela é crassissima philosophiae pars (a parte mais grosseira da filosofia)”.

Este tratado reveste-se de uma importância especial menos como fenômeno ou obra isolada do que como sintoma de mudança, uma concretização de processos sociais. Acima de tudo, é a sua ressonância, a elevação da palavra-título à condição de expressão fundamental de autointerpretação da sociedade europeia, que chama a atenção de Norbert Elias para esse tratado de Erasmo.

Continua em próximo post.

Leia maishttps://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2013/07/15/processo-civilizador-de-guerreiros-a-cortesaos/

2 thoughts on “O Processo Civilizador: Volume 1 – Uma História dos Costumes

  1. Prezado Fernando,

    a humanidade precisa resgatar o sentido do que significa civilização, a razão urgente para isso é que temos preparados e prontos para disparo armas termo nucleares que podem aniquilar algo em torno de 100 planetas terras em menos de uma hora. Abaixo um exemplo de uma delas. Abs.

    Ebooks, Volumes I e II em Epub!

    O Processo Civilizador – Uma História dos Costumes Vol 01 – Norbert Elias – Epub: https://drive.google.com/file/d/0B-IzSwsM47neY1BwMWpmTnpES0k/view?usp=sharing

    O Processo Civilizador – Formação do Estado e Civilização Vol 02 – Norbert Elias – Epub: https://drive.google.com/file/d/0B-IzSwsM47ned0hwaHZscThxb1U/view?usp=sharing

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    Também tem na Apple Store.

    1. Grato, Reinaldo.
      Vivemos tempos obscuros de intolerância com as diferenças.

      Porém, os cidadãos devem ter consciência não só dos direitos, mas também dos deveres.

      Por exemplo, extremistas de direita com sua violência contra a democracia não são aceitáveis por gente civilizada.

      São falsos os argumentos deles que são contrapartida de outro pólo. Quem não respeita o pacto democrático-eleitoral não é respeitável.
      abs

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