Desenvolvimento do Conceito de Civilidade

Civilidade em ÔnibusNorbert Elias, no livro “O Processo civilizador: volume 1 – Uma História dos Costumes” (Rio de Janeiro; Zahar; 1995), pergunta-se: o que aborda o tratado de autoria de Erasmo de Rotterdam, De civilitate morum puerilium (Da civilidade em Crianças), que veio à luz em 1530? Seu tema deve nos explicar para que fim e em que sentido era necessário o novo conceito. Deve conter indicações das mudanças e processos sociais que puseram a palavra em moda.

O livro de Erasmo trata de um assunto muito simples: o comportamento de pessoas em sociedade — e acima de tudo, embora não exclusivamente, “do decoro corporal externo”. É dedicado a um menino nobre, filho de príncipe, e escrito para a educação de crianças.

Contém reflexões simples, enunciadas com grande seriedade, embora, ao mesmo tempo, com muita zombaria e ironia, tudo isso em linguagem clara e polida e com invejável precisão. Pode-se dizer que nenhum de seus sucessores jamais igualou esse tratado em força, clareza e caráter pessoal.

Examinando-o mais detidamente, percebemos por trás dele um mundo e um estilo de vida que, em muitos aspectos, para sermos exatos, assemelha-se muito ao nosso, embora seja ainda bem remoto em outros. O tratado fala de atitudes que perdemos, que alguns de nós chamaríamos talvez de “bárbaras” ou “incivilizadas”. Fala de muitas coisas que desde então se tornaram impublicáveis e de muitas outras que hoje são aceitas como naturais.

Erasmo fala, por exemplo, da maneira como as pessoas olham. Embora seus comentários tenham por intenção instruir, confirmam também a observação direta e viva de que ele era capaz: “o olhar esbugalhado é sinal de estupidez, o olhar fixo sinal de inércia; o olhar dos que têm inclinação para a ira é cortante demais; é vivo e eloquente o dos impudicos; se seu olhar demonstra uma mente plácida e afabilidade respeitosa, isto é o melhor”. Não é por acaso que os antigos dizem: os olhos são o espelho da alma. “Animi sedem esse in oculis.”

A postura, os gestos, o vestuário, as expressões faciais — este comportamento “externo” de que cuida o tratado é a manifestação do homem interior, inteiro. Erasmo sabe disso e, vez por outra, o declara explicitamente: “Embora este decoro corporal externo proceda de uma mente bem-constituída não obstante descobrimos às vezes que, por falta de instrução, essa graça falta em homens excelentes e cultos”.

Não deve haver meleca nas narinas, diz ele mais adiante. O camponês enxuga o nariz no boné ou no casaco e o fabricante de salsichas no braço ou no cotovelo. Ninguém demonstra decoro usando a mão e, em seguida, enxugando-a na roupa. É mais decente pegar o catarro em um pano, preferivelmente se afastando dos circunstantes. Se, quando o indivíduo se assoa com dois dedos, alguma coisa cai no chão, ele deve pisá-la imediatamente com o pé. O mesmo se aplica ao escarro.

Com o mesmo infinito cuidado e naturalidade com que essas coisas são ditas — a mera menção das quais choca o homem “civilizado” de um estágio posterior, mas de diferente formação afetiva — somos ensinados a como sentar ou cumprimentar alguém. São descritos gestos que se tornaram estranhos para nós, como, por exemplo, ficar de pé sobre uma perna só. E bem que caberia pensar que muitos dos movimentos estranhos de caminhantes e dançarinos que vemos em pinturas ou estátuas medievais não representam apenas o “jeito” do pintor ou escultor, mas preservam também gestos e movimentos reais que se tornaram estranhos para nós, materializações de uma estrutura mental e emocional diferente.

Quanto mais estudamos o pequeno tratado, mais claro se torna o quadro de uma sociedade com modos de comportamento em alguns aspectos semelhantes aos nossos e também, de muitas maneiras, distantes. Vemos, por exemplo, pessoas sentadas à mesa: “O copo de pé e a faca bem limpa à direita, e, à esquerda, o pão”. Assim é como devia ser posta a mesa.

A maioria das pessoas portava uma faca e daí o preceito de mantê-la limpa. Praticamente não existiam garfos e quando os havia eram para tirar carne de uma travessa. Facas e colheres eram com frequência usadas em comum. Nem sempre havia talheres especiais para todos: “se lhe oferecem alguma coisa líquida”, diz Erasmo, “prove-a e, em seguida, devolva a colher depois de tê-la secado”.

Quando são trazidos pratos de carne, geralmente cada pessoa corta seu pedaço, pegava-o com a mão e colocava-o nos pratos, se os houvesse, ou na falta deles sobre uma grossa fatia de pão. A palavra quadra usada por Erasmo pode significar claramente ou prato de metal ou fatia de pão.

“Algumas pessoas metem as mãos nas travessas mal se sentam”, diz Erasmo. Lobos e glutões fazem isso. Não seja o primeiro a servir-se da travessa que é trazida à mesa. Deixe para camponeses enfiar os dedos no caldo. Não cutuque em volta da travessa mas pegue o primeiro pedaço que se apresentar.

E da mesma maneira que demonstra falta de educação cutucar todo o prato com a mão, tampouco é muito pouco polido girar o prato de servir para pegar a melhor porção. O que não pode pegar com as mãos pegue com a quadra. Se alguém lhe passa um pedaço de bolo ou torta com uma colher, pegue-o ou com sua quadra ou pegue a colher oferecida, ponha o alimento na quadra e devolva a colher.

Conforme já mencionado, os pratos são também raros. Quadros mostrando cenas de mesa dessa época ou anterior sempre retratam o mesmo espetáculo, estranho para nós, que é indicado no tratado de Erasmo. A mesa é às vezes forrada com ricos tecidos, às vezes não, mas sempre são poucas as coisas que nela há: recipientes para beber, saleiro, facas, colheres e só.

Às vezes, vemos fatias de pão, as quadrae, que em francês são chamadas de tranchoir ou tailloir. Todos, do rei e rainha ao camponês e sua mulher, comem com as mãos. Na classe alta há maneiras mais refinadas de fazer isso.

Deve-se lavar as mãos antes de uma refeição, diz Erasmo. Mas não há ainda sabonete para esse fim. Geralmente, o conviva estende as mãos e o pajem derrama água sobre elas. A água é às vezes levemente perfumada com camomila ou rosmaninho.

Na boa sociedade, ninguém põe ambas as mãos na travessa. É mais refinado usar apenas três dedos de uma mão. Este é um dos sinais de distinção que separa a classe alta da baixa.

Os dedos ficam engordurados. “Não é polido lambê-los ou enxugá-los no casaco”.

Frequentemente, se oferece aos outros o copo ou todos bebem na caneca comum. Mas Erasmo adverte: “Enxugue a boca antes”. Você talvez queira oferecer “a alguém de quem gosta a carne que está comendo. “Evite isso”, diz Erasmo. “Não é muito decoroso oferecer a alguém alguma coisa semi mastigada”. E acrescenta: “Mergulhar no molho o pão que mordeu é comportar-se como um camponês e demonstra pouca elegância retirar da boca a comida mastigada e recolocá-la na quadra. Se não consegue engolir o alimento, vire-se discretamente e cuspa-o em algum lugar”.

E repete: “É bom se a conversa interrompe ocasionalmente a refeição. Algumas pessoas comem e bebem sem parar, não porque estejam com fome ou sede, mas porque de outra maneira não podem controlar seus movimentos. Têm que coçar a cabeça, esgaravatar os dentes, gesticular com as mãos, brincar com a faca, ou não podem deixar de tossir, fungar e cuspir. Tudo isto realmente tem origem no embaraço do rústico e parece uma forma de loucura”.

Mas é também necessário e possível a Erasmo dizer: não exponha sem necessidade “as partes a que a Natureza conferiu pudor”. Alguns recomendam, diz ele, que os meninos devem “reter os ventos, comprimindo a barriga. Mas dessa maneira pode-se contrair uma doença”. E em outro trecho: “os tolos que valorizam mais a civilidade do que a saúde reprimem sons naturais”. Não tenha receio de vomitar, se a isto obrigado, “pois não é vomitar, mas reter o vômito na garganta que é torpe”.

2 thoughts on “Desenvolvimento do Conceito de Civilidade

  1. Fernando,
    alguns acham que os europeus fundaram essa tal de civilização ocidental de um dia para o outro… Não foi bem assim, como se depreende dos textos que voce vem publicando.

    Olho a discussão sobre educação no Brasil e me pergunto onde queremos chegar… Não entendo, sinceramente, a discussão acadêmica sobre educação. Se fala em indivíduo, criatividade e muito pouca em coletividade. Como acreditamos que a produção seja em si um processo social, educa-se, historicamente, para a cidadania e para o trabalho.

    Eu não sei onde foram buscar essa concepção que a educação é para a felicidade, aliás, sei…

    A Revolução Gloriosa foi uma revolução política e reconheceu, de certa forma, o poder do homem comum, pois vincula os atos dos reis, fossem eles católicos ou protestantes, ao Parlamento; a Revolução Francesa, burguesa, reconheceu os direitos da burguesia e do cidadão, e separou o Estado da religião; a Revolução da Independência dos EUA, verdadeiramente uma “guerra mundial” contra a Grã-Bretanha travada em solo norte-americano, pois nela se envolveram França, Espanha e Países Baixos, foi feita por moralistas religiosos. Estes colocaram as tais da liberdade e da felicidade como princípios fundadores, coisa que os europeus não fizeram, pois tratavam do Estado e da sociedade.

    Os norte-americanos, influenciados por J. Adams, um unitarista, criaram esse outro padrão expresso em sua Constituição: “Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade.”

    E nós, brasileiros, cada vez mais somos influenciados por eles. O Norbert Elias está olhando para a Europa e para os princípios fundadores da “civilização ocidental”….

    Obrigada por me fazer reler toda manhã esta sua série tão inspiradora…

    Bjs.

    1. Brilhante síntese histórica, Glorinha!
      Assino embaixo…
      bjs

      PS: ressalto também que a Ética Protestante moldou os (in)fiéis (sic) a incorporarem o Espírito do Capitalismo para alcançarem a graça divina. No entanto, ao se subordinarem — aliás, também o Islã significa “submissão” — à disciplina da linha de produção ficaram desgraçados…

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