Sumário de “Sem Lucro, Sem Investimento” (Carta IEDI nº 738)


Despesas Financeiras X Custos de Produção Margem de Lucro Rentabilidade ENF Desempenho

A recuperação da economia brasileira passa necessariamente pela recuperação da confiança empresarial, que se traduzirá, em algum momento no futuro, em novos investimentos produtivos. [Fernando Nogueira da Costa: desde que o Estado brasileiro lhe aponte projetos estratégicos com incentivos fiscais e creditícios, pois sem eles jamais houve “iniciativa particular” neste pobre País de ricos empresários que não pagam impostos sobre Lucros e Dividendos distribuídos à Pessoa Física…] Mas como diversos estudos indicam, a imobilização de capital na produção depende de recursos provenientes da acumulação de lucros retidos pelas empresas e do acesso a financiamentos de longo prazo do BNDES.

A Carta IEDI n. 738 se propõe, então, a analisar a evolução de um desses delimitadores da capacidade de investimento, qual seja o desempenho econômico-financeiro das grandes empresas, procurando avaliar como a piora gradativa da situação econômica e a grave recessão atual, afetaram a rentabilidade empresarial, assim como seu endividamento e a composição dos seus ativos. Para tanto, foi levado em conta o desempenho de 340 empresas não financeiras com capital aberto entre 2010 e 2015.

Em síntese, o estudo do IEDI mostra que para além da recente deterioração das expectativas e do ambiente econômico e político no Brasil, outro fator mais objetivo também contribuiu para reduzir a capacidade de investimento da indústria: a rentabilidade muito baixa ou mesmo negativa das empresas.

É notável a quase continuada redução da lucratividade da atividade produtiva do país a partir de 2010. No caso da indústria, foi expressivo o declínio das margens de lucro líquida e operacional do conjunto do setor excluindo-se Petrobras e Vale. Entre 2010 e 2015, a margem líquida de lucro perdeu 7,8 pontos percentuais (p.p.) passando de 8,3% para apenas 0,5% no final do período. No caso da rentabilidade operacional, a perda também foi expressiva: -5,8 p.p., sendo que, em 2015, a margem operacional atingiu 7,6%.

Dois fatores sobressaem e se complementam na determinação da compressão das margens de lucros da grande empresa não financeira ao longo do período:

  1. a menor capacidade de as empresas repassarem aos preços as elevações de custos e
  2. as perdas financeiras ocorridas com a piora das condições de financiamento da economia brasileira e da alta das taxas de juros.

De fato, as despesas financeiras cresceram em um ritmo superior aos demais custos operacionais, contribuindo muito para o declínio da rentabilidade líquida das empresas no período em análise. Em termos reais, as despesas financeiras líquidas cresceram 2,57 vezes entre 2010 e 2015, enquanto os custos dos produtos vendidos avançaram menos, 1,12 vez no mesmo período.

Despesas Financeiras e Custo de ProduçãoNeste cenário de alta das despesas financeiras, em que também se somaram o encolhimento da demanda e o encarecimento do crédito, é provável que a pressão tenha vindo tanto da necessidade de renovar dívidas em condições mais desfavoráveis, como do impacto de desvalorizações cambiais sobre o estoque de dívida externa e os serviços das dívidas das empresas não-financeiras. Além da elevação do endividamento, o impacto da desvalorização cambial sobre a situação financeira das empresas também pesou nas margens líquidas de lucro, ainda que de forma heterogênea entre os setores.

Efeito cambialA queda da rentabilidade constitui, assim, destacado componente do atual contexto econômico bastante adverso. Este combina retração da demanda interna e baixo nível de utilização da capacidade instalada com dinamismo ainda insuficiente do mercado externo, configurando um quadro pouco animador para a retomada do investimento produtivo e, consequentemente, do crescimento econômico.

Do ponto de vista da distribuição dos ativos, no agregado da indústria sem a Petrobras e a Vale, as indicações são de que as empresas caminharam na direção de uma menor aplicação de recursos em inversões de longo prazo, especialmente ativos imobilizados, e procuraram manter um volume apreciável de aplicações financeiras e disponibilidades de caixa.

Distribuição de AtivosA manutenção de elevado patamar de recursos disponíveis assegura às empresas um rendimento garantido (em função de altas taxas de juros predominantes na economia doméstica) e um colchão de liquidez, que funciona como uma espécie de “seguro” contra as frequentes reviravoltas da conjuntura macroeconômica e da política econômica.

Outra estratégia das empresas não-financeiras na gestão dos ativos diz respeito às compras ou aquisições de participações em outras companhias. O aumento dessas operações pode indicar um movimento de diversificação das atividades empresariais, num contexto em que os ativos ficaram baratos.

Por fim, quanto ao endividamento, seu patamar médio para o conjunto de empresas analisadas manteve tendência constante de crescimento. Os indicadores gerais de endividamento – relação entre capital de terceiros e capital próprio e relação entre endividamento líquido e capital próprio – praticamente dobraram no período em foco.

Indicadores de EndividamentoA queda da demanda agregada por conta da crise, a elevação das taxas de juros sobre empréstimos e um conjunto de fatores ligados à queda da rentabilidade das empresas não-financeiras, além da desvalorização do Real, contribuíram para o acréscimo do endividamento. Sobretudo em segmentos mais dependentes da retenção de lucros para o financiamento dos investimentos, a queda da rentabilidade das empresas pode ter implicado na maior necessidade de financiamento, tanto de curto, como de longo prazo, e contribuído para o aumento do comprometimento das receitas operacionais com as despesas financeiras.

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