BREXIT: Contra Fatos, há Argumentos, Até o da “Intolerância Inteligente”

São inúmeras as projeções políticas e econômicas sobre o futuro da Europa e os impactos sobre a economia mundial de acordo com suposições subjetivas de cada analista. Como estamos em uma dependência de trajetória caótica, desde a reversão dos motores de crescimento do boom imobiliário e de commodities, entre 2008 e 2011, que afasta-nos das condições iniciais — de quando? — em rumo de um destino transitório e, portanto, ignorado, vivemos o momento dos palpites e/ou das apostas não científicas. Em outras palavras, do “achômetro” pessoal…

Vou comparar duas análises, uma de um observador “de dentro” e outra de um “de fora”. Daí, tiraremos a conclusão que “contra fatos, há argumentos”!

Queen UK X President EUA Brexit-Grexit-EU-Cartoon

Greg Ip (WSJ, 27/06/16) avalia que “o referendo sobre a saída britânica (Brexit) da União Europeia [Fernando Nogueira da Costa: adeus, Estados Unidos da Europa?] é um divisor de águas em duas tendências relacionadas:

  1. a crescente oposição às políticas estabelecidas e
  2. a retração da globalização.

O recuo da globalização vem ocorrendo pelo menos desde 2008, quando as finanças globais quase sofreram um colapso e a rodada de negociações de Doha para redução de barreiras tarifárias fracassou. Na sequência, uma crise de dívida soberana quase destruiu o euro, a grande conquista do bloco europeu.

Essas crises, e a forte desaceleração econômica que veio depois, acentuaram a insatisfação com a ordem política estabelecida. A média de aprovação dos governos em 20 grandes democracias vem caindo continuamente desde 2010.

Mesmo assim, foi necessário mais um fator — uma reação contra a imigração, alimentada em parte pelo terrorismo islâmico na Europa e nos Estados Unidos — para dar ao populismo um papel relevante.

A Brexit marcou a primeira vez no período do pós-guerra em que os eleitores de uma economia avançada decidiram sair de uma região de livre comércio (sem ter a opção de entrarem em outra melhor).

É verdade que houve razões bastante específicas para o resultado da votação. Os chamados eurocéticos britânicos são tradicionalmente defensores do livre comércio, não protecionistas. Eles apoiam a globalização de bens e capital, mas não de pessoas ou regulações.

A UE é mais vulnerável a reações nacionalistas que, por exemplo, a Organização Mundial do Comércio principalmente porque é muito mais ambiciosa. Às voltas com crises financeiras e imigratórias, alguns membros da UE se arrependeram de abrir mão do controle de sua política monetária e fronteiras.

Mas a Brexit pode acelerar esse enfraquecimento do consenso político e econômico no mundo. A história é repleta de exemplos de contágio político:

  1. a queda dos regimes comunistas no leste da Europa, no fim dos anos 80;
  2. a ascensão do populismo de esquerda na América Latina, na década de 2000, e,
  3. mais recentemente, a Primavera Árabe.

A Brexit também mostra como as forças econômicas estão deixando de influenciar os eleitores.

[Fernando Nogueira da Costa: O Capital perde o domínio da opinião de O Trabalho? Não é a primeira vez e nem será a última, desde que exista democracia eleitoral.]

Eleições e referendos frequentemente colocam o medo do isolamento econômico e do empobrecimento contra considerações mais tradicionais e emocionais de identidade e segurança nacionais. O medo [da concorrência de imigrantes no mercado de trabalho] geralmente ganha, o que explica a decisão da Escócia de ficar no Reino Unido e da Grécia de permanecer na zona do euro.

Mas, no referendo do Reino Unido, o medo perdeu.

[Fernando Nogueira da Costa: A esperança venceu o medo? Isso aconteceu aqui em 2002…]

Estudos econômicos sombrios não foram páreo para a convicção de muitos eleitores de que eles perderam o controle de seu próprio país — para a União Europeia ou para os imigrantes — e não compartilharam com as elites os benefícios da globalização.

[Fernando Nogueira da Costa: com o resultado de 52% X 48% dá para reduzir a complexidade da saída britânica e o resultado do plebiscito aos conflitos binários trabalho X capital ou plebe rude X elite ou burrice X inteligência?!]

Eleições [e plebiscitos binários] são normalmente disputadas no terreno familiar de liberais [esquerda] contra conservadores [direita] e do apoio a um tamanho maior ou menor do governo [neoliberais X reguladores/intervencionistas]. Agora, isso está mudando para:

  1. nacionalismo contra internacionalismo e
  2. trabalhadores comuns contra as elites.

Isso está sendo demonstrado na campanha presidencial dos EUA, com o candidato republicano, Donald Trump, prometendo adotar políticas protecionistas para proteger “a classe média e os empregos” dos americanos.

[Fernando Nogueira da Costa: é inesperado um bilionário do setor imobiliário defender o poder de compra de sua clientela devedora?]

Hillary Clinton, sua oponente democrata, lançou sua própria estratégia para insuflar o medo, alertando que as políticas econômicas de Trump são “inconsequentes”.

[Fernando Nogueira da Costa: não se trata só disso, mas sim de temer (sic) os riscos da vitória da intolerância xenófoba, homofóbica, misogínica, racista e religiosa contra as conquistas sociais em termos de Direitos Humanos!]

Mas o debate da Brexit mostrou os limites dos alertas sobre catástrofes econômicas, principalmente para os trabalhadores mais velhos e menos qualificados, que se beneficiaram menos da globalização.

[Fernando Nogueira da Costa: bode-expiatório da vez, os pobres dos velhos?!]

Para empresas e investidores [O Capital], cada eleição nos próximos anos trará o risco de mais políticas nacionalistas [ O Trabalho — ou o protecionismo típico em uma Era de Crise Mundial?] que dificultarão ainda mais o livre fluxo de bens, capital e pessoas. O choque financeiro da Brexit vai acabar sendo absorvido, mas não deverá ser o último.”

Brexit-EU Titanicbrexit-olds X youngs

Marcos Nobre é professor de Filosofia Política da Unicamp e pesquisador do Cebrap. Publicou artigo (Valor, 27/06/16) em que desanda rancor — sentimento de profunda aversão provocado por experiência vivida; forte ressentimento; ódio profundo, não expresso — contra sua própria casta dos sábios. Parece ser um conflito ideológico entre a sub-casta dos sábios-pregadores (inclui professores e sacerdotes) e a sub-casta dos sábios-tecnocratas (inclui economistas-chefes e gestores do capital).

Aliás, tenho percebido muita mágoa pessoal em analistas ex-esquerdistas que, antes eram racionais, mas hoje deixam suas emoções aflorarem como destampassem um desgosto recolhido por muito tempo. Suas marcas transparecem no semblante, nas palavras. Demostram tristeza, amargura, pesar, aquela sensação desagradável causada por agravo ou indelicadeza. É muito ressentimento. Os leitores ou os ouvintes não os entendem. Não sabem se expressam sentimento de pesar, de compaixão, ou apenas dó, lástima, pêsame pela demonstração de inveja…

“Dez anos atrás, em 2006, deveria ter acontecido no Reino Unido um referendo sobre a proposta de uma Constituição Europeia. Mas, depois da vitória do “não” em referendos na França e na Holanda, em 2005, o então primeiro-ministro Tony Blair adiou indefinidamente a consulta ao eleitorado britânico. Para evitar novas derrotas, a elite política europeia deu uma carteirada tecnocrática. Aprovou, em 2007, o Tratado de Lisboa, que veio a se tornar a base constitucional da União Europeia.

A carteirada foi ameaçada pela rejeição do Tratado em referendo na Irlanda, em 2008, resultado revertido no ano seguinte com a realização de nova consulta sobre o mesmo tema naquele país. Os demais países membros aprovaram o Tratado no âmbito de seus parlamentos, sem recurso a referendos. Assim foi no Reino Unido, que aprovou o texto em 2008. O Tratado entrou em vigor em 2009. Não por acaso, nesse mesmo ano Nigel Farage assumiu a direção do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP), que se tornou a partir daí uma das principais forças políticas a liderar o Brexit.

Como na França em 2005, também agora a posição perdedora no Reino Unido quer refazer o referendo. A inteligência europeia pensa que democracia é o exercício de dar às pessoas a oportunidade de concordar com a inteligência europeia.

O campo contrário ao Brexit formou um arco que ia da alta finança ao cinema de protesto. A direita e a esquerda bem informadas se uniram. E, ao formarem essa aliança de amplo espectro, jamais imaginaram que a votação pudesse de fato ir contra toda a inteligência assim reunida. A arrogância do partido da inteligência se estendeu sem cerimônia por todo o planeta, espalhando o discurso sem contraponto de que o Brexit era resposta passional, loucura de uma massa ignara e retrógrada.

Dá até para entender que essa inteligência pense que a votação deva ser repetida até que o eleitorado vote como deve votar e não como acha que pode votar. Insistir em que o eleitorado britânico errou desobriga de reconhecer a própria incapacidade de entender o que aconteceu.

É uma saída fácil para manter a inteligência em sua arrogância, reduzindo o resultado à vitória da xenofobia, do nacionalismo, do ressentimento contra a modernidade e contra a globalização e de mais todo o rol de atributos sinistros que se puder encontrar na cartilha política atual.

Para se manter inteligente, a inteligência precisa qualificar de burra a maioria do eleitorado favorável ao Brexit.

  • Na versão caridosa, diz que todas essas pessoas não sabem o que fizeram, que foram manipuladas para agir de maneira assim tão idiota e estúpida.
  • Na versão econômica do argumento, não são poucos os que atribuem a vitória do Brexit aos efeitos deletérios da crise econômica mundial de 2007-2008.

Já se vê aí que não enxergam qualquer ligação entre os resultados dos referendos de 2005 na França e na Holanda e o da semana passada, que não entenderam nada do que aconteceu nos últimos dez anos. Com a aprendizagem bloqueada, a inteligência insiste em prescrever a si mesma como remédio, como se novas doses de sua lógica tecnocrática pudessem alterar o resultado das votações em que foi derrotada exatamente por ser tão tecnocrática quanto a construção da União Europeia até agora.

Quanto mais a inteligência estigmatizou e hostilizou quem estava simplesmente em dúvida, como se dúvida não coubesse, tanto mais essas pessoas se sentiram confirmadas no tratamento democrático de segunda classe que é o seu dia-a-dia. São tratadas como o baixo clero da democracia, como se seu único papel fosse o de dizer amém à autoproclamada inteligência.

Ao menor sinal de hesitação, de real necessidade de convencimento para tomar uma posição, a pessoa em dúvida ou pouco convicta é imediatamente congelada, empacotada e etiquetada como essencialmente conservadora ou mesmo reacionária, um caso irrecuperável a ser combatido como um inimigo em uma guerra.

Não bastasse isso, ao menor sinal de dúvida ou hesitação, não falta mesmo quem saque a palavra “fascista” do cinto de inutilidades das redes sociais. Não é apenas uma ofensa às reais vítimas do real fascismo do século 20, é também uma banalização daquela que é a mais grave das qualificações políticas. Pior ainda, é justamente esse tipo de arrogância que pode de fato levar a regressões fascistas. Não levar a sério o que as pessoas dizem porque não cabe no esquema da inteligência reduz o campo de escolha ao fascismo autêntico, que não se pretende inteligente nem arrogante.

Foi o círculo vicioso da inteligência que transformou a votação do Brexit em uma alternativa entre a racionalidade e a desrazão e, no limite, entre democracia e fascismo. Só que, com isso, igualou racionalidade e democracia ao que hoje responde por esses nomes, uma racionalidade que ignora o real sofrimento das pessoas e uma democracia que não pouca gente considera pouco democrática.

E essa atitude burra da inteligência não vale apenas para o Reino Unido. Vale para os EUA, para o Brasil e para todo o lugar do planeta em que a revolução digital tenha trazido seu rastro de precarização e de novas desigualdades e divisões sociais. A intolerância inteligente é caminho seguro para novos Brexits.

Mas também não se trata simplesmente de constatar o quanto a inteligência é burra. É muito mais grave do que isso. A inteligência que se arroga a posição de representante e intérprete privilegiada da democracia se mostra, no final das contas, muito pouco democrática. Esse é apenas um sinal de sua incapacidade de lidar com uma democracia que se espalhou pelo planeta e que, em graus muito variados, se firmou nas diferentes sociedades como forma de vida.

Uma radical mudança de posição por parte da inteligência exige que ela se democratize, que deixe a posição estranhamente confortável de ter sempre razão e cada vez menos votos e base social. A discussão em torno do resultado favorável ao Brexit mostra que ela pouco aprendeu nos últimos dez anos. A questão é saber se, desta vez, algo vai mudar, ou se 2026 vai repetir 2006 e 2016.”

Brexit X UK

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