Envelhecimento da População limita a Efetividade da Política Monetária

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Chris Bryant (Bloomberg, 20/06/16) informa que o Banco Central Europeu (BCE) zerou as taxas de juros, passou a oferecer uma enorme liquidez aos bancos e expandiu muitíssimo o balanço patrimonial da instituição. Mesmo assim, a economia da zona do euro continua patinando.

O principal motivo citado para isso é o falido sistema bancário europeu, que sugou quantidades sem precedente de liquidez e fracassou em transferir grande parte disso aos consumidores. Mas há outro bode-expiatório menos óbvio que pode estar interferindo na política do BCE: o envelhecimento da população. E isso não vai desaparecer, nem se o BCE arrumar os bancos!

A idade mediana da população da Europa está crescendo mais rapidamente que a dos EUA. Ter menos trabalhadores para sustentar um número maior de aposentados é um problema tanto para o crescimento econômico quanto para o equilíbrio orçamentário.

O envelhecimento da população também pode limitar a efetividade da política monetária, algo que é pouco compreendido. Isso está relacionado com a forma como a política de afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) pode estimular a economia.

O primeiro canal é o crédito. O QE deveria encorajar os bancos a fornecer mais empréstimos, o que, junto com as taxas de juros baixas, deveria estimular o crescimento.

Talvez esse seja o canal mais importante, porque a zona do euro é mais dependente do financiamento bancário que os EUA. As condições do crédito na região melhoraram, mas a expansão do crédito ainda é bastante modesta considerando o baixo nível dos juros.

Isso se deve principalmente ao fato de que:

  1. os balanços dos bancos europeus continuam intoxicados com créditos podres, e
  2. as famílias continuam tentando reduzir suas dívidas desde a crise financeira.

Mas a demanda por empréstimos também poder estar limitada por outra razão: pessoas mais velhas são menos propensas a tomar empréstimos. A teoria sugere que as pessoas na faixa de 20-30 anos costumam ser mais receptivas às mudanças nos juros porque tomam empréstimos para:

  1. financiar sua formação acadêmica,
  2. comprar uma casa e
  3. formar uma família.

Mas hoje os jovens são um grupo proporcionalmente menor na Europa e estão se casando e tendo filhos mais tarde. Além disso, o desemprego entre os jovens continua alto. A elevação dos preço dos imóveis significa que obter uma hipoteca para comprar uma casa é um sonho distante para muitos jovens. Por isso, a demanda por crédito continua sendo fraca.

Segundo, o canal do risco: a queda de rendimento dos títulos da dívida dos governos deveria estimular os investidores a optar por ativos de risco, como as ações.

Os juros dos bônus corporativos despencaram na Europa e os preços das casas estão subindo rápido em alguns países, como a Alemanha. Contudo, o reequilíbrio das carteiras de valores não se estendeu para o mercado acionário.

O prêmio de risco das ações — o retorno adicional exigido pelos investidores por ter ações em vez de ativos sem riscos, como os títulos de governos — continua elevado na zona do euro. Há muitos motivos para isso: preocupação com a volatilidade, crise da dívida soberana, fraqueza do crescimento econômico e dos lucros corporativos e também os bancos.

Mas é possível que a demografia também tenha um pequeno papel: pessoas mais velhas tendem a ter maior aversão a riscos, porque não querem perder seus investimentos por causa de um tombo no mercado de ações. Os poupadores optam por ativos mais seguros, como papéis de dívida e dinheiro, à medida que se aproximam da aposentadoria. Na teoria, um número maior de idosos implica em menor demanda local por ações.

Finalmente, há o canal da riqueza: a alta dos preços dos ativos deveria fazer com que as pessoas se sintam mais ricas e gastem mais.

[Fernando Nogueira da Costa: Será?! O consumismo típico da geração do baby-boom norte-americano nunca aconteceu entre os herdeiros da geração da guerra europeia. Pouca herança eles receberam dos pais que tiveram a riqueza destruída pela II Guerra Mundial. Trataram, em consequência, de recompor o patrimônio familiar.]

Idosos têm mais ativos financeiros que os mais jovens, por isso lucram mais com qualquer aumento dos preços de imóveis, ações e títulos estimulado pelo QE. Seus gastos com serviços, como assistência médica e viagens deveriam ser algo positivo para a atividade econômica e, consequentemente, para as empresas. No entanto, é provável que o efeito de riqueza do QE na Europa seja menor que nos EUA.

Em um discurso recente, Dragai, presidente do BCE, observou que os americanos alocam um terço de seus ativos em ações, enquanto na França e na Itália a proporção é de um quinto e, na Alemanha, de apenas um décimo. Além disso, quase 40% dos ativos dos alemães estão em dinheiro e em depósitos bancários, comparado com menos de 15% dos americanos.

[Fernando Nogueira da Costa: Uai, isso é novidade?! Os EUA têm uma economia de mercado de capitais e a Europa uma economia de endividamento desde o século XIX...]

É improvável que idosos que possuem apenas esses ativos com baixas taxas de rendimento para financiar sua aposentadoria ou que estejam preocupados com o aumento dos déficits nos planos de aposentadoria dos setores público e privado (outra consequência do QE) elevem o consumo.

Por não aproveitarem muitos dos benefícios do QE, não é uma surpresa que os aposentados alemães estejam entre mais fortes críticos de Draghi. Mas eles não são apenas uma dor de cabeça política para o BCE. Seus hábitos de poupança limitam os esforços da autoridade monetária para estimular a demanda, e isso prejudica todas as empresas na Europa.

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[Fernando Nogueira da Costa: que bobagem… O problema não está no “hábito de poupar” em renda fixa (e não em renda variável), pois os produtos financeiros podem ser lastro para empréstimos, desde que haja demanda efetiva para o crédito. Se não há gastos privados, que o gasto público os substitua, aliás, como foi feito na superação da Grande Depressão, ocorrida após a Crise de 1929. Porém, a retomada da hegemonia da casta dos mercadores (tal como na década de 20 do século XX) trouxe de volta a ideia pré-keynesiana de orçamento da União equilibrado. A visão míope dos capitalistas em particular impede o salvamento do sistema capitalista!]

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