Quatro Estilos Negativos de Palestras

Obs.: legenda em português em configurações no canto à direita.

Chris Anderson, no livro “TED Talks: O guia oficial do TED para falar em público”, diz que existem inúmeras formas de preparar uma grande palestra. Antes de tudo, porém, é preciso levar em conta algumas dicas de segurança fundamentais. Certos estilos de palestra são ruins, perigosos tanto para a reputação do palestrante quanto para a satisfação da plateia. Eis quatro deles, dos quais convém fugir a todo custo:

  1. Conversa de vendedor;
  2. Divagações;
  3. Tédio organizacional;
  4. Desempenho motivador.

A maneira gananciosa de falar como autopromoção não favorece o palestrante. Nenhum empresário contratará sua consultoria com base em sua palestra-propaganda. Muitos que o escutar e perdem o respeito por esse tipo de palestrante que só fala bem de si.

Reputação é tudo. Um bom palestrante quer ser visto como alguém generoso — que dá à sua plateia algo de maravilhoso —, e não como um chato que só pretende se promover. É tedioso e frustrante ouvir um discurso de vendas, principalmente se estamos esperando outra coisa.

“É claro que, em geral, a promoção acontece de forma bem mais sutil: o slide que mostra uma capa de livro, uma breve referência à dificuldade que a organização do palestrante vem enfrentando para captar recursos. No contexto de uma palestra em que tudo mais é excelente, esses pecadilhos passam sem maiores inconvenientes. (E é claro que a coisa muda de figura no caso de terem pedido ao palestrante que fale sobre seu livro ou sua organização.) Mas ele corre um grande risco. Por isso, desestimulamos os palestrantes TED a fazer esse tipo de promoção”.

O princípio fundamental é lembrar que o palestrante deve fazer uma doação a seus ouvintes, e não tirar algo deles. (Mesmo num contexto comercial, quando alguém faz uma exposição com o claro intuito de efetuar uma venda, a meta deve ser ajudar. Os melhores vendedores se põem no lugar dos possíveis clientes e imaginam a melhor forma de atender a seus interesses.) As pessoas não vão a uma conferência para escutar argumentos de venda. Quando percebem que talvez seja essa a intenção do palestrante, elas fogem para a segurança de suas caixas de e-mails…

“Pode-se discordar quanto à linha que separa a transmissão de uma ideia e os argumentos de venda, mas o princípio é essencial: dar, e não tirar. E saiba de uma coisa: a generosidade provoca uma reação positiva.”

Divagações ocorrem quando um dos oradores começa assim: “Enquanto eu vinha de carro para cá, pensando no que diria a vocês…” E segue-se uma série de observações dispersas sobre futuros possíveis sem nenhuma argumentação instigante, nenhuma revelação, nenhum momento de descoberta, nada a ser assimilado, a plateia aplaude educadamente. Mas, na verdade, ninguém aprendeu nada!

Uma coisa é se preparar menos do que o necessário. Mas vangloriar-se disso? Isso é um insulto. Com o contumaz improviso de palestrante midiático, pseudo celebridade convidada sempre tal como “arroz-de-festa”, ele está dizendo que o tempo da plateia não vale nada comparado com o dele. Que o evento não vale nada para ele.

Muitas palestras são assim. Sinuosas, sem uma direção clara. Um palestrante pode se iludir e se convencer de que mesmo uma exploração desordenada de suas ideias brilhantes será fascinante para a plateia. No entanto, se oitocentas pessoas planejam dedicar vinte minutos de seu dia a ouvi-lo, ele não pode simplesmente improvisar sua exposição.

“Quando as pessoas se reúnem em uma sala para ouvir o que alguém tem a dizer, estão lhe dando algo extremamente precioso, irrecuperável: alguns minutos de seu tempo e de sua atenção. O palestrante tem de usar esse tempo da melhor forma possível”.

Assim, se você vai presentear pessoas com uma ideia magnífica, primeiro precisa dedicar algum tempo a preparar sua exposição. Ficar divagando não é uma opção.

“Aliás, esse palestrante que divagou o tempo todo acabou dando uma espécie de presente ao TED. A partir de então, redobramos os esforços na preparação dos palestrantes”.

O Tédio Organizacional aparece quando o palestrante só fala de sua instituição acadêmica ou empresa corporativa. Uma organização pode ser fascinante para quem trabalha nela — e superentediante para quase todos os demais. Qualquer palestra centrada na “excepcional história de sua companhia/instituição e da talentosíssima equipe que trabalha com você — isso sem contar o enorme sucesso de seus produtos no mercado — vai fazer a plateia cochilar logo de cara. Você e sua equipe podem considerá-la interessante. Infelizmente, porém, a plateia não trabalha nela…

Entretanto, tudo muda quando você se concentra na natureza do trabalho que está realizando e no poder das ideias nele instiladas, e não na sua organização corporativa ou em seus produtos.

Isso pode ser muito mais difícil do que parece. “Muitas vezes, os diretores das organizações são, naturalmente, seus porta-vozes e atuam sempre no modo propaganda, por acreditarem que têm a obrigação de homenagear a esforçada equipe que os cerca”.

Uma exposição é uma doação. Não deve ser entediante e/ou promocional.

Quanto ao Desempenho Motivador, primeiro, Chris Anderson esclarece uma coisa: “sem dúvida, uma das impressões mais fortes que podemos experimentar ao ouvir uma palestra é a motivação. O trabalho e as palavras do palestrante nos emocionam e nos inundam com possibilidades e empolgação. Temos vontade de ser pessoas melhores a partir daquele momento. O crescimento e o sucesso do TED devem muito à natureza profundamente motivadora de muitas palestras. Na verdade, foi essa a razão pela qual eu me senti atraído pelo TED. Eu acredito na força da motivação”.

No entanto, deve-se ter muito cuidado ao usar essa força. “O intenso desejo de uma ovação pode conduzir palestrantes inexperientes ao erro. Às vezes, eles veem a apresentação de palestrantes motivadores e tentam copiá-los… mas só na aparência. O resultado pode ser péssimo: a imitação incessante de todos os truques conhecidos para manipular a plateia intelectual e emocionalmente”.

Como o palestrante motivador se empolga e adora a ribalta, acaba extrapolando o tempo determinado. Perto do encerramento, começa a dizer às pessoas que estava ao alcance delas adotar as ideias que ele promovera, então fala de sonhos e inspiração, terminando com os braços estendidos para a plateia. Como tinha ficado claro o quanto a palestra significava para ele, parte da plateia chega a se pôr de pé para aplaudi-lo.

“Mas, quanto a mim [Chris Anderson], o que eu tinha visto era de revirar o estômago. Aquilo era o clichê do TED que vínhamos tentando eliminar com tanto esforço. Muita encenação e pouquíssimo conteúdo”.

[Fernando Nogueira da Costa: lembro-me do clichê que aparecia em todos os discursos de meus colegas da Caixa ao promoverem “o sonho-da-casa-própria”… Lugar comum repetitivo cansa e se esvazia.]

O problema de apresentações como essa não está apenas no fato de adularem a plateia para enganá-la. Está sobretudo em enxovalhar a reputação do gênero. Elas reduzem as chances de que os espectadores se deixem atingir por um palestrante genuinamente motivador. Entretanto, atraídos pela droga que é o aplauso do público, cada vez mais palestrantes tentam seguir esse caminho.

Por favor, solicita Chris Anderson, “não seja um deles! “.

O fato mais importante a respeito da inspiração é o seguinte: ela tem de ser conquistada. Ninguém se torna inspirador ao olhar para os presentes com cara de pidão e solicitar que “sondem o coração em busca de motivos para crer no sonho deles”. O palestrante inspira quando realmente compartilha um projetosonho não existe na realidade – que merece o entusiasmo dos demais. E esses “sonhos” não surgem com facilidade. São produzidos no mundo-real com sangue, suor e lágrimas.

“A inspiração é como o amor. Você não o conquista quando decide buscá-lo diretamente”.

Se você tenta tomar um atalho e conquistar pessoas apenas com o carisma, pode obter êxito por alguns instantes, mas logo será flagrado e deixado de lado. A motivação não pode ser encenada. Ela é a reação de uma plateia à autenticidade, à coragem, ao trabalho altruísta e aos conhecimentos genuínos.

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