Linha Mestra de uma Palestra

Obs.: legenda em português em configurações no canto à direita.

Chris Anderson, no livro “TED Talks: O guia oficial do TED para falar em público”,  destaca algo que acontece com muita frequência: “você está na plateia, ouvindo alguém falar, e percebe que a pessoa poderia fazer uma palestra excelente, melhor do que a que está fazendo.” Ele não suporta ver palestrantes de grande potencial estragarem sua chance.

O objetivo de uma palestra consiste em… dizer algo significativo. No entanto, é impressionante o número de palestras que não atingem esse objetivo. De fato, muitas coisas são ditas nelas. Mas, por um ou outro motivo, a plateia não recebe nada que possa levar consigo. Belos slides e carisma não fazem mal algum, mas, se o palestrante não presenteia o público com algo real e valioso, tudo o que ele fez, na melhor das hipóteses, foi entretê-lo.

A principal razão dessa tragédia é que o palestrante não preparou um plano correto para sua apresentação. Talvez a palestra tenha sido planejada tópico a tópico, ou mesmo frase a frase, mas em momento algum o autor se dedicou ao seu plano geral, à sua integralidade.

Existe uma expressão útil usada com frequência na análise de peças, filmes e romances, mas que também se aplica a palestras. É a “linha mestra”, o tema que une os elementos narrativos. Toda palestra precisa de uma.

Como o que queremos é construir algo relevante na mente dos ouvintes, podemos pensar na linha mestra como um fio-condutor ao qual você prenderá todos os elementos da ideia que está desenvolvendo.

Isso não significa que toda palestra possa cobrir apenas um assunto, contar uma só história ou avançar numa única direção, sem digressões. De forma alguma. Isso só quer dizer que todas as partes precisam estar interligadas.

Um bom exercício consiste em resumir sua linha mestra em não mais que quinze palavras. E elas precisam oferecer um conteúdo vigoroso. Não basta pensar em sua meta em termos de “quero motivar a plateia” ou “quero obter apoio para o meu trabalho”. Sua linha mestra precisa ter mais foco do que isso. Qual é a ideia exata que você quer inserir na mente dos ouvintes? O que eles vão levar para casa?

É importante também que a linha mestra não seja previsível ou banal, como “a importância do trabalho duro” ou “os quatro projetos principais a que estou me dedicando”. Zzzzz… Você pode fazer melhor do que isso! Veja estas linhas mestras de algumas Conferências TED bem-sucedidas. Note que cada uma incorpora algo de inesperado:

  • Ter mais opções nos deixa menos felizes.
  • Devemos valorizar a vulnerabilidade, e não fugir dela.
  • O potencial da educação se transforma quando nos concentramos na extraordinária (e hilariante) criatividade infantil.
  • Você pode simular a linguagem corporal até ela se tornar verdadeira.
  • Uma história do universo em dezoito minutos mostra um caminho do caos à ordem.
  • Vamos fazer uma revolução silenciosa: um mundo redesenhado para os introvertidos.
  • A combinação de três tecnologias simples cria um sexto sentido assombroso.
  • Vídeos on-line podem humanizar a sala de aula e revolucionar a educação.

“Muitos palestrantes se apaixonam por suas ideias e acham difícil imaginar o que elas têm de complicado para aqueles que ainda não mergulharam nelas. A solução está em apresentar apenas uma ideiae do modo mais detalhado e completo possível no tempo limitado. O que você deseja que o público compreenda plenamente ao fim da palestra? ”

O conselho que Chris Anderson daria a palestrantes é “procurar uma única ideia importante, que seja maior que você ou sua organização, e ao mesmo tempo alavancar sua experiência para mostrar que ela é mais do que mera especulação vazia. Sua linha mestra não precisa ser tão ambiciosa quanto as da lista [acima]. Contudo, ainda assim precisa ter algum aspecto provocante.

Quando sabe aonde você quer chegar, o público sente muito mais facilidade para acompanhar seu trajeto.

Pensemos outra vez na palestra como uma viagem que palestrante e plateia realizam juntos, com o palestrante no papel de guia. Se você quiser que a plateia viaje a seu lado, provavelmente terá de lhe dar uma ideia de seu destino. E a partir daí precisa ter certeza de que cada passo na viagem a aproxima desse destino. Nessa metáfora de viagem, a linha mestra traça o percurso. Ela garante que não haverá saltos impossíveis e que, no fim da apresentação, o palestrante e o público chegarão juntos a um destino satisfatório.

Muitos fazem o planejamento uma palestra imaginando que lhes bastará:

  1. delinear seu trabalho em linhas gerais,
  2. descrever sua organização ou
  3. analisar uma questão.

Não é um bom plano. É provável que a palestra termine sem foco e exerça pouco impacto. Tenha em mente que uma linha mestra não é o mesmo que um assunto.”

Então, como definir sua linha mestra?

O primeiro passo é saber o máximo possível sobre a plateia. Quem são essas pessoas? Qual é o nível de informação delas? O que esperam? Com o que se importam? Sobre o que outros palestrantes já lhes falaram? Só se pode dar de presente uma ideia a mentes preparadas para recebê-la. Se você vai falar a uma plateia de taxistas sobre o assombro que é uma economia compartilhada com base na comunicação digital, seria conveniente saber de antemão que o Uber está destruindo o ganha-pão deles.

No entanto, o principal obstáculo para a definição de uma linha mestra é expresso pelo grito primal de todo palestrante: “Tenho muito a dizer e pouco tempo para isso!”

Chris Anderson diz que ouve isso o tempo todo. As Conferências TED têm um limite de tempo de dezoito minutos. (Por que dezoito? Porque é um tempo curto o suficiente para manter a atenção das pessoas, inclusive na internet, sem que seu interesse desvie para outras coisas. Mas também é longo o bastante para que se possa dizer algo de fato relevante.)

Entretanto, em geral os palestrantes estão habituados a falar de trinta a quarenta minutos, ou até mais [no caso de professores: de duas a quatro horas!]. Por isso, sentem dificuldade para sequer imaginar a possibilidade de realizar uma palestra adequada em tão pouco tempo.

Uma apresentação mais curta não significa de modo algum menos tempo de preparação. Certa vez, perguntaram ao presidente americano Woodrow Wilson quanto tempo ele levava para preparar um discurso, no que ele respondeu:

“Depende da extensão. Se durar dez minutos, preciso de não menos do que duas semanas para me preparar; se for de meia hora, preciso de uma semana; mas, se eu puder falar o tempo que quiser, não preciso me preparar. Fico pronto na hora”.

Isso lembra a Chris Anderson uma citação famosa, atribuída a vários grandes pensadores e escritores: “Se eu tivesse mais tempo, teria escrito uma carta mais curta.”

Por isso, vamos aceitar que a criação de uma palestra de alto nível ajustada a um tempo limitado exigirá um esforço considerável. Entretanto, existe um jeito certo e um jeito errado de levar a tarefa a cabo.

Continua no próximo post.

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