Porque as Nações Fracassam

Porque as Nações fracassam

No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson defendem que são os manifestantes de países pobres, e não a maioria dos acadêmicos e comentaristas, que têm razão. Com efeito, o país é pobre exatamente por vir sendo governado por uma pequena elite que organizou a sociedade em função de seus próprios interesses, em detrimento da massa da população. O poder político, estritamente concentrado, vem sendo usado para gerar riqueza para aqueles que já a detêm. Quem sai perdendo é o povo, como os oposicionistas entendem muito bem.

Esses autores mostram que essa interpretação da pobreza, a interpretação popular, na verdade constitui uma explicação genérica de por que os países pobres são pobres. Seja Coreia do Norte, Serra Leoa ou Zimbábue, Acemoglu e Robinson mostram que os países pobres são pobres por esse mesmo motivo. Países como o Reino Unido e os Estados Unidos enriqueceram porque seus cidadãos derrubaram as elites que controlavam o poder e criaram uma sociedade em que

  1. os direitos políticos são distribuídos de maneira muito mais ampla,
  2. o governo é responsável e tem de responder aos cidadãos-eleitores, e
  3. a grande massa da população tem condições de tirar vantagem das oportunidades econômicas.

Acemoglu e Robinson defendem que, para compreender por que há tanta desigualdade no mundo de hoje, temos de mergulhar no passado e estudar a dinâmica histórica das sociedades. A razão por que o Reino Unido é mais rico que o Egito é que, em 1688, os britânicos (ou ingleses, depois da Brexit) promoveram uma revolução que transformou a política e, por conseguinte, a economia do país. As pessoas lutaram por mais direitos políticos e os conquistaram, usando-os para expandir suas oportunidades econômicas. O resultado foi uma trajetória política e econômica essencialmente distinta, que culminaria na Revolução Industrial.

Por exemplo, a Revolução Industrial e as tecnologias por ela lançadas não se espalharam para o Egito porque este se encontrava, então, sob domínio do Império Otomano, que tratava o país mais ou menos da mesma maneira como, mais tarde, a família Mubarak. A dominação otomana no Egito encontrou seu fim nas mãos de Napoleão Bonaparte, em 1798, mas o país caiu então sob o controle do colonialismo britânico, que tinha tão pouco interesse quanto os otomanos em promover a prosperidade egípcia.

Assim, embora os egípcios tenham se livrado dos impérios otomano e britânico, e, em 1952, da própria monarquia, suas revoluções não foram como a de 1688 na Inglaterra. Em lugar de promover uma radical transformação política no país, limitaram-se a conduzir ao poder mais uma elite – no caso, uma casta de guerreiros-militares –, tão desinteressada na prosperidade dos egípcios comuns quanto os otomanos e britânicos de outrora. Em consequência, a estrutura básica da sociedade não mudou, e o Egito permaneceu pobre.

Neste livro, Acemoglu e Robinson estudam como esses padrões se reproduzem ao longo do tempo e por que às vezes são alterados, como aconteceu na Inglaterra em 1688 e na França, com a revolução de 1789 – o que nos ajudará a entender se a situação em um país pobre atual mudou e se uma revolução que depôs o ditador de plantão produziu um novo conjunto de instituições, capazes de proporcionar prosperidade ao povo.

O Brasil já atravessou “revoluções burguesas” que nada mudaram, porque seus promotores limitaram-se a tomar as rédeas daqueles que depuseram, recriando sistemas semelhantes. Com efeito, é difícil para os cidadãos comuns adquirir poder político real e modificar a maneira como sua sociedade funciona.

Mas é possível, e veremos no livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” de autoria de Daron Acemoglu e James A. Robinson como isso aconteceu na Inglaterra, França e Estados Unidos, bem como no Japão, Botsuana e… no Brasil?! Basicamente, é uma transformação política desse gênero que se faz necessária para que uma sociedade pobre enriqueça. Há indícios de que isso esteja acontecendo no nosso País?

Reda Metwaly, um manifestante da Praça Tahrir de Cairo-Egito, durante a Primavera Árabe, observou: “Agora a gente vê muçulmanos e cristãos juntos, velhos e novos lado a lado, todos em busca dos mesmos objetivos.” Acemoglu e Robinson mostram que esse movimento amplo da sociedade foi um aspecto fundamental dessas outras transformações políticas. Se compreendermos quando e por que ocorrem tais transições, estaremos em melhores condições de avaliar quando o fracasso será mais provável, como tantas vezes aconteceu no passado, e quanto podemos alimentar esperanças de que o sucesso traga benefícios para milhões de pessoas.

3 thoughts on “Porque as Nações Fracassam

  1. Prezado Fernando,

    tirando a corrupção que sempre foi uma marca registrada em nosso país (está no DNA do povo – o congresso é uma prova), diria que ainda existem três problemas principais, segundo as proposições: CCEP (Crença, Cultura, Educação Precária).

    Em pleno século XXI nosso povo ainda acredita em Deus (igrejas surgem aos milhares todos os meses); mesmo com tanta informação e acesso à internet e a ciência avançando astronomicamente.

    Temos uma cultura extremamente fragmentada e as milhares de etnias indígenas do país são tratados como vagabundos, mesmo sendo os herdeiros da terra e da cultura nativa; foram os primeiros moradores do Brasil.

    Por fim, nossa educação está cada vez mais pobre e sem chances de competir com nossos próprios vizinhos.

    Falar de emprego em pleno século XXI não faz muito sentido, estamos caminhando para uma robotização e extinção da mão de obra. Perdemos nossa infraestrutura industrial que se encontra em sucatas, o custo Brasil impede investimentos tanto internos quanto externos. Muitos afirmavam que nosso país seria do futuro, precisamos corrigir isso rápido, ainda nem chegamos ao século XXI, paramos no século passado e ficaremos por lá um bom tempo.

    A minha proposta para o Brasil é investir pesadamente em educação de qualidade 15% do PIB, com escola integral e obrigatória (manhã e tarde na escola) de primeira a nona série, aumento de salário aos professores e foco em educação com vistas para o futuro. Adicionar ao currículo escolar uma segunda língua obrigatória (inglês de preferência), como ocorre nos países latinos.

    Deveríamos acabar com o ensino de segundo grau (na educação integral de primeira à nona série esse conteúdo já seria distribuído). Ainda poderíamos adicionar a décima série, visando avaliação de aptidão com foco no ensino superior.

    O único caminho para limpar a mentalidade do brasileiro, cheia de pseudociência, é via caminho da aquisição de conhecimento. Sem educação o progresso é inexistente e o povo continuará adorando os Deuses. Esse livro deve ser muito bom, já comecei a lê-lo, há milhares de fontes para download em milhões de hosts (hospedeiros). Abs.

    Segue o livro pronto para ler online ou download:

    Porque as nações fracassam – As origens do poder, da prosperidade e da pobreza – Daron Acemoglu & James Robinson – PDF: https://desenvolvimentoeconomico2016.files.wordpress.com/2015/02/por_que_as_nacoes_fracassam_nodrm1.pdf

    Why Nations Fail The Origins of Power, Prosperity and Poverty – James A. Robinson, Daron Acemoglu – Epub: https://drive.google.com/open?id=0B-IzSwsM47necFJMRkZFVHVvS0U

    1. Prezado Reinaldo,
      de acordo. Enquanto isso, o governo golpista neoliberal prioriza o corte de gastos, que abrangerá Educação, Saúde e Previdência Social, para garantir a capacidade de pagamento governamental de juros reais estratosféricos para a elite rica!
      abs

  2. Caros,
    discordo com relação ao pensamento de que corrupção é mais uma jabuticaba. O tempo da Politica é mais lento – por boas razões quando se trata de debater em busca de um justo consenso, por má razões quando o interesse de grupos ou indivíduos se interpõem – “acelerar” a Politica passa pelo uso de catalizadores – “lobbys”, quando acima do Rio Grande, “propina” quando ao sul do velho rio.

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