Falsas Teorias da Desigualdade Mundial

Acemoglu e Robinson

No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson se concentram na explicação, não só das desigualdades mundiais, mas também de alguns dos padrões gerais mais prontamente visíveis que nela encontram morada.

O primeiro país a experimentar crescimento econômico sustentado foi a Inglaterra – ou Grã-Bretanha, como é conhecida a união de Inglaterra, País de Gales e Escócia desde 1707. O crescimento despontou gradualmente na segunda metade do século XVIII, à medida que a Revolução Industrial, baseada em grandes inovações tecnológicas e sua aplicação na indústria, ia se estabelecendo. À industrialização da Inglaterra logo se seguiria a da maior parte da Europa Ocidental e Estados Unidos.

A prosperidade inglesa não tardou a espalhar-se também pelas “colônias de povoamento” britânicas – Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Uma lista dos 30 países mais ricos hoje inclui estes que citamos mais Japão, Cingapura e Coreia do Sul. A prosperidade dos três últimos é, por sua vez, parte de um padrão mais amplo conforme o qual diversas nações do Leste Asiático, inclusive Taiwan e, posteriormente, a China, experimentaram acelerado crescimento em tempos recentes.

O segmento inferior da distribuição da renda mundial apresenta um quadro tão agudo e peculiar quanto o superior. Se, ao contrário, fizermos uma lista dos 30 países mais pobres do mundo atual, constataremos que quase todos se encontram na África subsaariana. A estes se juntam países como Afeganistão, Haiti e Nepal, que, mesmo não se situando na África, têm um elemento crítico em comum com as nações africanas, como vamos explicar.

Se voltássemos 50 anos no tempo, os 30 países mais ricos e mais pobres não seriam muito diferentes. Cingapura e Coreia do Sul não figurariam entre os mais ricos e haveria vários outros entre os 30 mais pobres, mas a situação geral que se apresentaria seria notavelmente consistente com o que vemos nos dias atuais. Voltando 100 anos, ou 150, encontraríamos praticamente os mesmos países, nos mesmos grupos.

Outro padrão interessante pode ser detectado nas Américas. Se arrolarmos os países americanos em ordem decrescente de riqueza, dos mais prósperos para os mais pobres, veremos que no topo estão Estados Unidos e Canadá, seguidos do Chile, Argentina, Brasil, México e Uruguai (e talvez também a Venezuela, dependendo do preço do petróleo); em seguida, temos Colômbia, República Dominicana, Equador e Peru. No final, há outro grupo separado, bem mais pobre, composto por Bolívia, Guatemala e Paraguai.

Se recuarmos 50 anos no tempo, encontraremos a mesma classificação. Cem anos: a mesma coisa. E novamente se voltarmos 150 anos. Portanto, não são só Estados Unidos e Canadá que são mais ricos que a América Latina; há também uma separação definida e persistente entre países ricos e pobres dentre os latino-americanos.

Um último padrão interessante pode ser encontrado no Oriente Médio, onde encontramos nações ricas em petróleo, como Arábia Saudita e Kuwait, cujos níveis de renda são próximos àqueles dos 30 mais ricos. Caso o preço do petróleo caia, porém, eles despencarão para o estrato inferior. Países do Oriente Médio com pouco ou nenhum petróleo, como Egito, Jordânia e Síria, aglomeram-se em torno de um nível de renda próximo ao da Guatemala ou Peru. Sem suas reservas petrolíferas, as nações do Oriente Médio são tão pobres quanto as da América Central e dos Andes, ainda que não tanto quanto as da África subsaariana.

Apesar da grande persistência dos padrões de prosperidade que observamos hoje ao nosso redor, contudo, eles não são cristalizados nem imutáveis.

Em primeiro lugar, como já enfatizamos, grande parte da atual desigualdade mundial remonta ao final do século XVIII, tendo nascido no rastro da Revolução Industrial. As lacunas entre os diferentes níveis de riqueza não só eram menores até meados do século XVIII, mas a ordenação que desde então tem se mostrado tão estável não se manterá caso recuemos mais longe no tempo. Nas Américas, por exemplo, a classificação que se manteve nos últimos 150 anos era completamente outra 500 anos atrás.

Em segundo lugar, diversas nações experimentaram décadas seguidas de crescimento acelerado, como boa parte do Leste Asiático da Segunda Guerra Mundial para cá e, mais recentemente, a China. E não poucas delas viram posteriormente tal tendência se inverter.

A Argentina, por exemplo, cresceu rapidamente por cinco décadas até 1920, chegando a se tornar um dos países mais ricos do mundo, mas desde então iniciou um longo declínio. A União Soviética constitui um exemplo ainda mais notável, tendo apresentado crescimento acentuado entre 1930 e 1970, mas experimentando depois um súbito colapso.

Daron Acemoglu e James A. Robinson lançam, então, as seguintes perguntas:

  1. O que explica essas diferenças significativas de grau de pobreza e prosperidade e entre padrões de crescimento?
  2. Por que os países da Europa Ocidental e seus rebentos coloniais, povoados com colonos europeus, começaram a crescer no século XIX sem olhar para trás?
  3. O que explica a persistência do ranking da desigualdade nas Américas?
  4. O que impede a África subsaariana e o Oriente Médio de apresentarem o mesmo crescimento econômico ocorrido na Europa Ocidental, enquanto tão grande parte do Leste Asiático vem ostentando níveis de crescimento estratosféricos?

Pode-se pensar que o fato de a desigualdade mundial ser tão acentuada, com consequências tão graves e padrões tão nítidos e evidentes, implique que haja para ela alguma explicação que goze de ampla aceitação. Não é o caso. A maioria das hipóteses propostas pelos cientistas sociais para as origens da pobreza e da prosperidade não funciona e revela-se incapaz de explicar, de maneira convincente, as atuais circunstâncias.

Continua em próximo post.

2 thoughts on “Falsas Teorias da Desigualdade Mundial

  1. Caro professor,

    Sou leiga em economia ,porém apaixonada pelo assunto .sou muito estranha rsrs.
    Acredito que o assunto do livro e um dos mais interessantes e relevantes não somente área de conhecimento econômico , mas tambem nas ciências política e sociais ,pois qual ser humano, comunidade ou nação nao deseja prosperar? . Saber que nem os grandes estudiosos do tema estão em consenso alivia minha consciência como eleitora e cidadã .
    Acredito que determinar uma causa única seja próximo do impossível ,levando em conta que existem fatores preponderantes , mas o acaso sempre tem sua influência na história humana.
    Adoro seu blog e seus textos
    Obrigada
    Abraços

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