Hipótese Geográfica como Causa da Desigualdade Mundial

Fatores da Prosperidade_pensadores

No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson criticam uma teoria muito aceita sobre as causas da desigualdade mundial: a hipótese geográfica.

Segundo a qual, o abismo que separa países ricos e pobres é gerado por diferenças geográficas. Muitos países pobres, como os da África, da América Central e do Sul da Ásia, localizam-se entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio. As nações ricas, em contrapartida, tendem a situar-se nas latitudes temperadas.

Essa concentração geográfica da pobreza e da riqueza confere um apelo superficial à hipótese geográfica, ponto de partida das teorias e opiniões de não poucos cientistas sociais e sumidades em geral – o que não a torna menos equivocada.

Já no final do século XVIII, o grande filósofo político francês Montesquieu assinalava a concentração geográfica da prosperidade e da pobreza e propunha-se a explicá-la. A seu ver, os habitantes dos climas tropicais tendiam a ser preguiçosos e pouco inquisitivos. Por conseguinte, não trabalhavam com empenho suficiente nem eram inovadores, motivos pelos quais eram pobres.

Montesquieu especulava também que as pessoas preguiçosas tendiam a ser governadas por déspotas, sugerindo que a localização nos trópicos justificaria não só a pobreza mas também parte dos fenômenos políticos associados ao fracasso econômico, como regimes ditatoriais. Ai, que preguiça, falta de “saco” para tirar o peemdebismo do puuuder…

A teoria de que os países quentes são intrinsecamente pobres, embora recentemente desmentida pelo acelerado avanço econômico de países como Cingapura, Malásia e Botsuana, ainda é objeto de ardorosa defesa por parte de alguns, como o economista Jeffrey Sachs.

A moderna versão dessa tese salienta não os efeitos diretos do clima sobre a dedicação ao trabalho ou os processos mentais, mas dois outros argumentos:

  1. primeiro, o de que as doenças tropicais, sobretudo a malária, têm consequências muito adversas para a “saúde e, por conseguinte, para a produtividade; e,
  2. segundo, o de que os solos tropicais não permitem uma agricultura produtiva.

A conclusão, entretanto, é a mesma: os climas temperados possuem uma vantagem relativa sobre as regiões tropicais e subtropicais.

As desigualdades mundiais, todavia, não podem ser explicadas pelo clima ou doenças, nem qualquer outra versão da hipótese geográfica. Basta lembrarmos entre o Norte do México e o Texas. O que separa as duas regiões vizinhas não são as condições de clima, geografia nem de saúde, mas a fronteira México-Estados Unidos.

Se a hipótese geográfica não dá conta de explicar as diferenças entre o Norte e o Sul do Rio Grande, ou as Coreias do Norte e do Sul, ou entre as Alemanhas Ocidental e Oriental antes da queda do Muro de Berlim, poderia ter ainda alguma utilidade para explicar as diferenças entre as Américas do Norte e do Sul? Entre Europa e África? Não.

A história demonstra a inexistência de ligações simples ou duradouras entre clima ou geografia e êxito econômico. Por exemplo, não é verdade que os trópicos tenham sido sempre mais pobres que as latitudes temperadas.

Na época da conquista das Américas por Colombo a faixa ao sul do Trópico de Câncer e ao norte do de Capricórnio, que hoje compreendem México, América Central, Peru e Bolívia, continha as grandes civilizações asteca e inca – impérios politicamente centralizados e complexos, que construíram estradas e prestavam auxílio contra a fome. Os astecas dispunham tanto de moeda quanto de escrita, e os incas, embora lhes faltassem essas duas tecnologias fundamentais, registravam vasta quantidade de informação em cordões cheios de nós, chamados quipos.

Em agudo contraste, nessa mesma época, as áreas ao norte e ao sul daquela habitada por esses dois povos – onde hoje se encontram Estados Unidos, Canadá, Argentina e Chile – eram habitadas basicamente por civilizações na Idade da Pedra, desprovidas de tais tecnologias.

Os trópicos nas Américas eram, portanto, muito mais ricos que as zonas temperadas, o que indica que o “fato óbvio” da pobreza tropical não é nem óbvio e muito menos um fato. Pelo contrário, a maior riqueza dos Estados Unidos e Canadá, hoje, representa uma acentuada inversão da fortuna em relação ao cenário vigente por ocasião da chegada dos europeus.

Tal inversão claramente nada teve a ver com a geografia, mas, como já vimos, com o modo como se deu a colonização dessas áreas – um processo que não se restringiu às Américas. Os povos do Sul da Ásia, sobretudo no subcontinente indiano e na China, eram mais prósperos do que os de muitas outras partes da Ásia – e certamente mais que as populações da Austrália e Nova Zelândia.

Também esse quadro se inverteu à medida que Coreia do Sul, Cingapura e Japão despontaram como nações mais ricas da Ásia, e Austrália e Nova Zelândia ultrapassaram quase todo o continente asiático em termos de prosperidade.

Mesmo no âmbito da África subsaariana verificou-se uma inversão similar. Em tempos mais recentes, antes de começar o intenso contato europeu com os africanos, o sul da África era a área de menor densidade populacional e a que estava mais longe de apresentar Estados estruturados que exercessem algum tipo de controle sobre seus territórios. Não obstante, a África do Sul é hoje uma das mais prósperas nações da África subsaariana.

Voltando atrás na história, novamente vemos muita prosperidade nos trópicos. algumas das grandes civilizações pré-modernas, como Angkor, no moderno Camboja, Vijayanagara, no sul da Índia, e Aksum, na Etiópia, floresceram nos trópicos, do mesmo modo como as civilizações do Vale do Indo, de Mohenjo Daro e Harapa, no atual Paquistão. Diante das evidências históricas, portanto, restam-nos poucas dúvidas de que não existe correlação simples entre localização tropical e sucesso econômico.

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