Hipótese Geográfica da Orientação dos Continentes para a Desigualdade Mundial

Nogales no México e nos EUA

As desigualdades no mundo moderno são em grande parte fruto da falta de homogeneidade na disseminação e adoção de tecnologias. A tese de Jared Diamond de fato inclui dois argumentos importantes a esse respeito.

Por exemplo: ele defende, seguindo o historiador William McNeill, que a orientação leste-oeste da Eurásia possibilitou que produtos agrícolas, animais e inovações se difundissem do Crescente Fértil para a Europa Ocidental, ao passo que a orientação norte-sul das Américas justifica que os sistemas de escrita criados no México não se disseminassem pelos Andes ou pela América do Norte.

Não obstante, segundo Daron Acemoglu e James A. Robinson, a orientação dos continentes não constitui explicação para as desigualdades mundiais existentes hoje.

Consideremos a África. Embora o Deserto do Saara constituísse de fato uma barreira significativa à penetração de bens e ideias do norte na África subsaariana, não chegava a ser um obstáculo intransponível. Os portugueses, seguidos de outros europeus, circum-navegaram a costa e eliminaram as diferenças de conhecimento num período em que as diferenças de renda eram ínfimas, comparadas à situação atual. De lá para cá, a África não só não alcançou a Europa como, pelo contrário, a lacuna entre a renda da maioria dos países africanos e a dos europeus apenas se aprofundou.

[FNC: Na verdade, não é esse o argumento de Diamond: “barreiras ao transporte representado pelo Deserto do Saara”. É sim que a colonização europeia se deu da África do Sul para o Norte, massacrando tribos nativas, até que encontraram uma barreira natural intransponível em curto prazo: doenças tropicais. As tribos africanas nem moravam perto de rios nem se concentravam em grandes cidades propícias a espalhar epidemias por toda a população aglomerada. Por isso, a África do Sul absorveu, antes dos demais países africanos, mais tecnologia europeia.]

Deve estar claro também que a argumentação de Diamond, centrada na desigualdade intercontinental, não é bem equipada para explicar as variações dentro dos continentes – um aspecto essencial da moderna desigualdade mundial.

Por exemplo, por mais que a orientação da massa de terra eurasiática possa explicar como a Inglaterra logrou beneficiar-se das inovações do Oriente Médio sem precisar reinventá-las, não explica porque a Revolução Industrial se deu na Inglaterra em vez de algum país do Oriente Médio. Ademais, como o próprio Diamond destaca, China e Índia tiraram imenso proveito tanto da rica diversidade da fauna e da flora quanto da orientação da Eurásia. Ainda assim, a maior parte da população pobre do mundo, hoje, encontra-se nesses dois países.

De fato, a melhor maneira de entender o escopo da tese de Diamond é em termos de suas próprias variáveis. O ancestral selvagem do arroz estava amplamente distribuído por todo o sul e sudeste da Ásia, ao passo que os antecessores do trigo e da cevada distribuíam-se ao longo de um comprido arco que ia do Levante e passava pelo “Irã e Afeganistão até os “istões” (Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão). Essas espécies ancestrais encontram-se presentes em grande parte da Eurásia, mas sua ampla distribuição sugere que não há como justificar as desigualdades nesse continente com uma teoria baseada na incidência das espécies.

[FNC: na verdade, Jared Diamond centra seu argumento em torno de grandes animais mamíferos herbívoros domesticáveis. Enquanto nas Américas só a lhama era nativa, no espaço euroasiático as pessoas lidavam há séculos com rebanhos dos animais domesticados, que não eram de poucas espécies (apenas 14), criando anticorpos defensivos de suas doenças. Quando os europeus invadiram as Américas, levaram seus animais (cavalos, gado e porcos) e, junto com eles, os germes. Armas (violência) e aço (tecnologia) completaram o genocídio das populações nativas americanas.]

A hipótese geográfica, segundo Daron Acemoglu e James A. Robinson, não só é inútil na explicação das origens da prosperidade no decorrer da história, além de basicamente incorreta em sua ênfase, mas também incapaz de justificar as circunstâncias de que qualquer padrão persistente, como a hierarquia de rendas nas Américas ou as acentuadas e duradouras diferenças entre Europa e Oriente Médio, pode ser explicado pela inalterabilidade da geografia.

Todavia, não é esse o caso. Acemoglu e Robinson afirmam que é altamente improvável que os padrões no contexto das Américas tenham sido causados por fatores geográficos. Antes de 1492, eram as civilizações no vale central do México, América Central e Andes que dispunham de tecnologia e padrões de vida superiores aos da América do Norte ou de lugares como Argentina e Chile. Embora a geografia tenha permanecido a mesma, as instituições impostas pelos colonos europeus provocaram uma “inversão da fortuna”.

Dificilmente a geografia também explicaria a pobreza do Oriente Médio por motivos similares. Afinal, o Oriente Médio liderou o mundo na revolução neolítica, e as primeiras cidades desenvolveram-se onde atualmente fica o Iraque. O ferro foi fundido pela primeira vez na Turquia e, até a Idade Média, o Oriente Médio era dinâmico em termos tecnológicos.

Não foi a geografia do Oriente Médio que levou a revolução neolítica a florescer naquela parte do mundo, assim como tampouco foi a geografia que tornou o Oriente Médio pobre. Pelo contrário, a expansão e a consolidação do Império Otomano − o legado institucional desse império − é que mantêm a região imersa em pobreza ainda hoje.

Por fim, os fatores geográficos são inúteis para explicar:

  1. não só as diferenças que vemos entre as diversas partes do mundo hoje, mas
  2. também porque muitas nações, como Japão ou China, atravessam longos períodos de estagnação para depois encetar um processo de crescimento acelerado.

Precisamos de outra teoria melhor.

Continua em próximo post.

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