Hipótese Climática como Causa da Desigualdade Mundial

Fronteira

Daron Acemoglu e James A. Robinson afirmam que as doenças tropicais evidentemente são causa de profundo sofrimento e elevadas taxas de mortalidade infantil na África, mas não constituem a razão da pobreza africana. O adoecimento é, em grande parte, consequência da pobreza e da falta de capacidade ou vontade dos governos para tomar as medidas de saúde pública necessárias à sua erradicação.

A Inglaterra no século XIX também era um lugar bastante insalubre, mas o governo efetuou investimentos graduais no abastecimento de água limpa, no devido tratamento de esgotos e efluentes, e, por fim, em serviços de saúde eficazes. A melhoria das condições de saúde e o aumento da expectativa de vida decerto não foram as causas do êxito econômico britânico, mas um dos frutos de suas transformações políticas e econômicas prévias.

A outra parte da hipótese geográfica diz que os trópicos devem sua pobreza à intrínseca improdutividade da agricultura tropical. Os solos tropicais são finos e incapazes de reter nutrientes, segundo esse argumento, que enfatiza a rapidez com que eles são erodidos pelas chuvas torrenciais.

A ideia não deixa de ter seu mérito, mas, como Daron Acemoglu e James A. Robinson mostram, o principal determinante da baixíssima produtividade agrícola – expressa em produção agrícola por acre – em tantos países pobres, sobretudo na África subsaariana, pouco tem a ver com a qualidade do solo. Pelo contrário, é consequência da estrutura de propriedade da terra e dos incentivos criados para os fazendeiros pelos governos e instituições sob os quais vivem.

Eles demonstram também que a desigualdade mundial não pode ser explicada por diferenças na produtividade agrícola. As profundas disparidades do mundo moderno nascidas no século XIX foram causadas pela disseminação desigual das tecnologias industriais e da produção manufatureira, não por diferenças no desempenho agrícola.

Outra versão influente da hipótese geográfica é defendida pelo ecologista e biólogo evolutivo Jared Diamond, para quem a origem das desigualdades intercontinentais nos primórdios da era moderna, há 500 anos, jaz na falta de uniformidade na distribuição histórica de espécies vegetais e animais, que posteriormente influenciaria a produtividade agrícola.

Em alguns lugares, como o Crescente Fértil, no atual Oriente Médio, havia maior número de espécies passíveis de domesticação pelos seres humanos. Em outros, como as Américas, não. O pequeno número de espécies domesticáveis tornou interessante para as sociedades fazer a transição de um estilo de vida de caça e coleta para outro agrário. Por conseguinte, a agricultura desenvolveu-se antes no Crescente Fértil que nas Américas.

A densidade demográfica aumentou, possibilitando a especialização da mão de obra, o comércio, a urbanização e o desenvolvimento político. Fundamentalmente, nos lugares em que a agricultura se tornou dominante as inovações tecnológicas ocorreram com mais rapidez do que em outras partes do mundo.

Assim, de acordo com Diamond, as discrepâncias na disponibilidade de espécies animais e vegetais acarretaram graus variados de exploração agrícola, o que, por sua vez, conduziu a caminhos distintos de transformação tecnológica e prosperidade em cada continente.

Embora a tese de Diamond constitua uma abordagem respeitável ao problema sobre o qual ele se debruça, não pode ser estendida à explicação da desigualdade no mundo moderno.

Por exemplo, Diamond defende que os espanhóis conseguiram dominar as civilizações das Américas graças à maior antiguidade de sua tradição agrícola e consequente superioridade tecnológica. Agora, porém, precisamos explicar por que os mexicanos e peruanos que habitam as antigas terras dos astecas e incas são pobres.

Por mais que o acesso a trigo, cevada e cavalos tornasse os espanhóis mais ricos que os incas, a disparidade de renda entre os dois povos não era tão significativa. A renda média de um espanhol correspondia, provavelmente, a menos que o dobro da de um cidadão do Império Inca.

A tese de Diamond sugere que, uma vez que os incas se viram expostos a todas as espécies e tecnologias delas resultantes que não haviam sido capazes de desenvolver por conta própria, deveriam ter atingido rapidamente o padrão de vida dos espanhóis. Todavia, não foi em absoluto o que aconteceu.

Pelo contrário, nos séculos XIX e XX abriu-se uma lacuna muito maior entre as rendas de espanhóis e peruanos. Hoje, o espanhol médio é mais de seis vezes mais rico do que o peruano médio – um abismo intimamente relacionado à heterogeneidade na disseminação das modernas tecnologias industriais, mas que pouco tem a ver tanto com o potencial para a domesticação de plantas e animais quanto com as diferenças intrínsecas de produtividade agrícola entre os dois países.

Enquanto a Espanha, ainda que com atraso, adotou as tecnologias do motor a vapor, ferrovias, eletricidade, mecanização e produção manufatureira, o Peru não – ou, no máximo, o fez de modo muito lento e imperfeito. Tal lacuna tecnológica persiste ainda hoje e reproduz-se em maior escala à medida que as novas tecnologias, sobretudo aquelas relacionadas à tecnologia da informação, alimentam mais crescimento em muitas nações desenvolvidas e outras em acelerado desenvolvimento.

A tese de Diamond não nos diz por que essas tecnologias cruciais não se difundem e uniformizam a renda ao redor do mundo, como tampouco explica por que a margem norte do Rio Grande é tão mais rica que sua gêmea ao sul, muito embora ambas fizessem parte da mesma civilização, 500 anos atrás.

Essa história de Texas [ex-região do México, rica em petróleo, conquistada pelos Estados Unidos] versus México põe em evidência outro grave problema da adaptação da teoria de Diamond: como já vimos, fossem quais fossem os pontos fracos dos impérios inca e asteca em 1532, Peru e México eram sem dúvida mais prósperos do que aquelas regiões das Américas que viriam a ser os Estados Unidos e o Canadá.

A América do Norte tornou-se mais rica justamente por haver adotado com entusiasmo as tecnologias e avanços da Revolução Industrial. O nível educacional da população aumentou e as ferrovias se espalharam pelas grandes pradarias, em agudo contraste com o que transcorreu na América do Sul. Isso não pode ser justificado apontando-se as distintas características geográficas das Américas do Norte e do Sul – as quais, diga-se de passagem, concederiam vantagem à América do Sul.

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