Hipótese Cultural como Causa da Desigualdade Mundial

favela-do-lado-de-condomnio-de-luxo-001

No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson criticam a segunda teoria que goza de ampla aceitação: a hipótese cultural. Ela correlaciona prosperidade e cultura.

A hipótese cultural, do mesmo modo que a hipótese geográfica, é de linhagem distinta, remontando no mínimo ao grande sociólogo alemão Max Weber, que defendia que a Reforma Protestante e a ética protestante dela decorrente desempenharam papel central na facilitação da ascensão da moderna sociedade industrial na Europa Ocidental. A hipótese cultural já não se baseia exclusivamente na religião, mas enfatiza igualmente outros tipos de crenças, valores e éticas.

Por mais que não seja politicamente correto dizê-lo em público, ainda há quem mantenha, e não são poucos, que os africanos são pobres por serem desprovidos de uma boa ética de trabalho, insistindo em acreditar em feitiçaria e magia ou resistindo às novas tecnologias ocidentais.

Muitos acreditam também que a América Latina jamais enriquecerá devido ao caráter intrinsecamente libertino e carente de seu povo, que além disso sofre do mal da cultura “ibérica”, a tendência a deixar tudo para mañana (amanhã). Ai, que tesão! Eu só quero mocotó…

Evidentemente, muitos já acreditaram que a cultura chinesa e o confucionismo fossem incompatíveis com o crescimento econômico, muito embora a importância da ética de trabalho chinesa como motor do crescimento na China, Hong Kong e Cingapura seja agora alardeada.

Daron Acemoglu e James A. Robinson se perguntam: será que a hipótese cultural é útil para compreender a desigualdade mundial? Sim e não.

Sim, no sentido de que as normas sociais, que são relacionadas à cultura, exercem profunda influência e podem ser difíceis de mudar – além de, por vezes, darem sustentação às diferenças institucionais que, segundo este livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza”, são o que explica as desigualdades mundiais.

Em sua maior parte, porém, não, à medida que os aspectos culturais que se costuma enfatizar – religião, ética nacional, valores africanos ou latinos – não têm importância para entendermos como chegamos até aqui e por que as desigualdades do mundo persistem. Outros aspectos, como até que ponto as pessoas confiam umas nas outras ou são capazes de colaborar, são importantes, mas constituem basicamente um resultado das instituições, não causas independentes.

Entre o México e os Estados Unidos diversos aspectos culturais são idênticos, de um lado e de outro da cerca. Não obstante, detectam-se certas diferenças marcantes de práticas, normas e valores, ainda que elas sejam não causas, mas consequências da divergência entre os rumos do desenvolvimento dos dois lugares.

Por exemplo, nas pesquisas, os mexicanos normalmente dizem confiar em outras pessoas menos do que os cidadãos dos Estados Unidos declaram confiar nos outros. Contudo, a falta de confiança dos mexicanos não surpreende, tendo-se em vista que seu governo se mostra incapaz de eliminar os cartéis de drogas ou assegurar um sistema jurídico imparcial.

O mesmo vale para as Coreias do Norte e do Sul. O Sul é um dos países mais ricos do mundo, ao passo que o Norte enfrenta fomes periódicas e uma pobreza abjeta. Embora, hoje, a “cultura” dos dois países seja muito distinta, ela não fez a menor diferença nos destinos econômicos divergentes dessas duas meias-nações. A península coreana tem um longo período de história comum. Até a Guerra da Coreia e a divisão no paralelo 38, apresentava uma homogeneidade sem precedentes em termos de idioma, etnicidade e cultura. O importante é a fronteira. Ao norte fica um regime totalitário, que impõe instituições singulares e cria outros incentivos. Eventuais divergências culturais encontradas nas terras ao sul e ao norte da fronteira que a Coreia em duas é, pois, consequência, e não causa das diferenças nos níveis de prosperidade.

E a África e a cultura africana? Historicamente, a África subsaariana sempre foi mais pobre do que a maior parte do resto do mundo e suas civilizações antigas chegaram a desenvolver a roda, a escrita (exceto por Etiópia e Somália) e o arado. Embora tais tecnologias não tivessem utilização mais ampla até o advento da colonização formal europeia, no final do século XIX e início do XX, as sociedades africanas tomaram conhecimento de sua existência muito antes. Os europeus começaram a circum-navegar sua costa ocidental no final do século XV, e embarcações asiáticas chegavam à África Oriental já muito antes disso.

Podemos compreender por que essas tecnologias não foram adotadas com base na história do Reino do Congo, na foz do Rio Congo, que deu seu nome à moderna República Democrática do Congo. Os congolenses estavam longe de ser avessos às modernas tecnologias em geral. Foram muito rápidos, por exemplo, em adotar outra venerável inovação ocidental: a pólvora. Usaram essa nova e poderosa ferramenta para responder a incentivos de mercado: a captura e exportação de escravos.

Não há nenhum indício de que a cultura ou os valores africanos de alguma maneira concorressem para impedir a adoção de novas tecnologias e práticas. À medida que se estreitavam seus laços com os europeus, os congolenses adotariam outras práticas ocidentais: a escrita, estilos de indumentária e arquitetura habitacional.

No século XIX, não poucas sociedades africanas tiraram proveito também das crescentes oportunidades econômicas engendradas pela Revolução Industrial, mudando seus padrões de produção. Contudo, esses promissores experimentos econômicos foram obliterados, não pela cultura africana nem pela incapacidade dos africanos comuns de tomar iniciativas em prol de seus próprios interesses, mas pelo colonialismo europeu, em primeiro lugar, e mais tarde pelos governos africanos pós-independência.

A verdadeira razão por que os congolenses não adotaram uma tecnologia superior foi o simples fato de que lhes faltaram incentivos para tanto. Enfrentavam elevado risco de expropriação e tributação de sua produção pelo monarca todo-poderoso, houvesse ele se convertido ao catolicismo ou não.

Com efeito, a insegurança imperava, não só no que dizia respeito à propriedade, mas a continuidade de sua própria existência encontrava-se sempre por um fio. Muitos eram capturados e vendidos como escravos – condições que dificilmente serviriam de estímulo para investimentos que aumentassem a produtividade em longo prazo. Tampouco o rei dispunha de incentivos para adotar o arado em larga escala ou para fazer do aumento da produtividade agrícola sua maior prioridade; a exportação de escravos era muito mais rentável.

Talvez se possa afirmar que, hoje, os africanos confiam menos uns nos outros que outros povos, de outras partes do mundo – o que seria, contudo, fruto de uma longa história de instituições que solaparam os direitos humanos e de propriedade na África. A possibilidade de serem capturados e vendidos como escravos sem dúvida exerceu alguma influência sobre o grau de confiança dos africanos entre si ao longo do tempo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s