Hipótese Religiosa como Causa da Desigualdade Mundial

Desigualdade

E a ética protestante de Max Weber? Embora seja verdade que países predominantemente protestantes, como Holanda e Inglaterra, foram os primeiros grandes sucessos econômicos da Era Moderna, Daron Acemoglu e James A. Robinson, no livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), afirmam que há pouca ligação entre religião e prosperidade econômica.

A França, país predominantemente católico, rapidamente reproduziu o desempenho econômico dos holandeses e ingleses no século XIX, e a Itália é tão próspera quanto qualquer desses países hoje.

Olhando mais para o Oriente, veremos que nenhum dos sucessos econômicos do Leste Asiático guarda qualquer relação com a religião cristã, de modo que tampouco aí a tese de uma conexão especial entre o protestantismo e o êxito econômico encontra grande respaldo.

Daron Acemoglu e James A. Robinson voltam-se, então, para uma das regiões favoritas dos entusiastas da hipótese cultural: o Oriente Médio, onde os países são preponderantemente islâmicos, e os que não produzem petróleo são muito pobres. Os produtores de petróleo são mais ricos, mas esse golpe de sorte pouco contribuiu para a instalação de economias modernas e diversificadas na Arábia Saudita ou Kuwait.

Esses fatos não constituem uma demonstração cabal da influência da religião? Por mais plausível que seja, esse argumento também não está correto. Sim, países como Síria e Egito são pobres e suas populações são basicamente muçulmanas. Contudo, apresentam outras peculiaridades bem mais significativas para efeitos de prosperidade.

Em primeiro lugar, todos foram províncias do Império Otomano, o que afetou intensa e adversamente o modo como se desenvolveram. Após o colapso do domínio otomano, o Oriente Médio foi absorvido pelos impérios coloniais inglês e francês, que continuaram tolhendo suas possibilidades.

Após a independência, a exemplo de boa parte do antigo mundo colonial, desenvolveram regimes políticos hierárquicos e autoritários, de que faziam parte poucas das instituições políticas e econômicas que, como mostram Acemoglu e Robinson, são cruciais para a geração de prosperidade econômica. Essa trajetória de desenvolvimento foi moldada, em grande parte, pela história dos domínios otomano e europeu. A relação entre religião islâmica e pobreza, no Oriente Médio, é basicamente espúria.

O papel desses acontecimentos históricos, e não de fatores culturais, na conformação do percurso econômico da região pode ser constatado também no fato de que aquelas partes do Oriente Médio que escaparam temporariamente ao jugo do Império Otomano e das potências europeias (como o Egito, entre 1805 e 1848, sob Muhammad Ali) mostraram-se capazes de enveredar por um caminho de acelerado crescimento.

Muhammad Ali usurpou o poder logo após a retirada das forças francesas que haviam ocupado o país sob o comando de Napoleão Bonaparte. Aproveitando-se da tibieza do controle exercido pelos otomanos sobre o território egípcio na época, logrou fundar sua própria dinastia, que, de uma forma ou de outra, governaria o país até a revolução encabeçada por Nasser, em 1952.

As reformas de Muhammad Ali, embora tenham sido impostas por coerção, promoveram o crescimento do país à medida que a burocracia estatal, o Exército e o sistema de arrecadação fiscal foram modernizados, gerando crescimento na agricultura e na indústria. Não obstante, tal processo de modernização e crescimento chegou ao fim com a morte de Ali, quando o Egito voltou a cair sob influência europeia.

Todavia, essa talvez seja uma forma errada de considerar a presença da cultura na equação. Talvez os fatores culturais mais importantes não estejam ligados à religião, mas a “culturas nacionais” específicas. Quem sabe a influência da cultura inglesa não seja importante e explique a prosperidade de países como Estados Unidos, Canadá e Austrália?

Por mais sedutora que essa ideia possa parecer à primeira vista, também não funciona. Sim, Canadá e Estados Unidos foram colônias britânicas, mas Serra Leoa e Nigéria, também. As variações de prosperidade entre as ex-colônias inglesas são tão grandes quanto entre os demais países do mundo. O legado britânico não é a causa do enriquecimento da América do Norte!

Entretanto, há ainda outra versão da hipótese cultural: talvez a questão não seja ingleses versus não ingleses, mas europeus versus não europeus. Será que os europeus são de algum modo superiores em virtude de sua ética do trabalho, perspectiva de vida, valores judaico-cristãos ou legado romano?

É verdade que a Europa Ocidental e a América do Norte, cuja população é primordialmente de ascendência europeia, são as regiões mais ricas do mundo. Talvez o legado europeu e sua superioridade cultural sejam as razões da prosperidade – e o derradeiro refúgio da hipótese cultural. Infelizmente, essa versão da hipótese oferece tão pouca capacidade de explicação quanto as demais.

Argentina e Uruguai apresentam descendentes de europeus em proporções maiores de sua população total que o Canadá e os Estados Unidos, mas o desempenho econômico tanto de uma quanto do outro deixa muito a desejar. Japão e Cingapura nunca tiveram mais que uma gota de descendentes de europeus entre seus habitantes, mas são tão abastados quanto muitas áreas da Europa Ocidental.

A China, apesar de umas tantas imperfeições em seu sistema econômico e político, tem sido o país de crescimento mais rápido nas três ultimas décadas. Sua pobreza até a morte de Mao Tsé-Tung nada tinha a ver com a cultura chinesa, mas com o modo desastroso como Mao organizou a economia e conduziu a política.

Na década de 1950, ele promoveu o Grande Salto Adiante, drástica política de industrialização que acarretou fome em massa. Nos anos 1960, propagou a Revolução Cultural, que levou à perseguição maciça de intelectuais e eruditos – qualquer um cuja fidelidade ao partido pudesse ser posta em dúvida –, o que mais uma vez provocou enorme desperdício dos talentos e recursos da sociedade.

Da mesma forma, o atual crescimento chinês nada tem a ver com os valores ou mudanças na cultura local. Ele é fruto de um processo de transformação econômica deflagrado pelas reformas implementadas por Deng Xiaoping e seus aliados – que, após a morte de Mao Tsé-Tung, foram pouco a pouco abandonando as instituições e políticas econômicas socialistas, primeiro na agricultura, depois na indústria.

Como no caso de sua correlata geográfica, a hipótese cultural tampouco tem serventia para explicar outros aspectos do atual estado de coisas. Há, evidentemente, diferentes crenças, valores e atitudes culturais entre Estados Unidos e América Latina. Porém, assim como as que separam cidades divididas por fronteiras ou as Coreias do Sul e do Norte, tais disparidades são consequências das diferentes instituições e histórias institucionais distintas dos dois lugares.

Fatores culturais que enfatizem o modo como a cultura “hispânica” ou “latina” moldou o Império Espanhol não dão conta das divergências no seio da própria América Latina – por exemplo, por que Argentina e Chile são mais ricos que Peru e Bolívia.

Outros tipos de argumentos culturais – por exemplo, os que salientam a cultura indígena contemporânea – saem-se igualmente mal. Argentina e Chile tinham população nativa relativamente pequena, se comparada ao Peru e Bolívia. Embora seja verdade, a cultura indígena como explicação também não funciona. Colômbia, Equador e Peru têm níveis de renda similares, mas a Colômbia hoje apresenta muitos poucos indígenas, ao contrário do Equador e Peru.

Por fim, as atitudes culturais, em geral de modificação tão lenta, dificilmente responderão por si pelos milagres do crescimento no Leste Asiático e China. Por mais persistentes que sejam as instituições, em determinadas circunstâncias podem transformar-se rapidamente, como mostram Daron Acemoglu e James A. Robinson, no livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza”.

3 thoughts on “Hipótese Religiosa como Causa da Desigualdade Mundial

  1. Gostei do texto, há muitas informações históricas e culturais que a leitura me agrada. Mas tive a impressão de o discurso busca pelos cantos do mundo, uma causa única, ou melhor, uma força motriz que justificasse o desenvolvimento de algumas civilizações e outras não.
    Não sou economista, nem sociólogo, apenas psicólogo, mas onde minha leitura sobre o ser humano, que é sistêmica, também se aplica a outras áreas.

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