Hipótese da Ignorância como Causa da Desigualdade Mundial

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No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson criticam uma última teoria popular para explicar por que certos países são pobres e outros ricos é a hipótese da ignorância, segundo a qual a desigualdade existe no mundo porque nós e/ou nossos governantes não sabemos o que fazer para tornar ricos os países pobres!

É uma ideia defendida por não poucos economistas, inspirados pela célebre definição proposta pelo economista inglês Lionel Robbins, em 1935, segundo a qual a Economia é uma ciência que estuda o comportamento humano como uma “relação entre os fins e meios escassos, que têm usos alternativos”. Ficamos, assim, dizem Acemoglu e Robinson, a um passo da conclusão de que a Ciência Econômica deveria enfocar o melhor uso de meios escassos para satisfazer os fins sociais.

Com efeito, o mais famoso resultado teórico em economia, o chamado Primeiro Teorema do Bem-Estar Social, identifica as circunstâncias em que a alocação de recursos em uma “economia de mercado” torna-se, do ponto de vista econômico, desejável socialmente. A economia de mercado não passa de uma abstração para descrever aquela situação em que todos os indivíduos e empresas têm liberdade de produzir, comprar e vender os produtos ou serviços que bem entenderem. Se essas circunstâncias não estiverem presentes, diz-se que há “falha do mercado”. Tais falhas constituem a base de uma teoria da desigualdade no mundo, uma vez que, quanto mais elas seguirem sem solução, mais pobre o país provavelmente será.

A hipótese da ignorância sustenta que os países pobres devem sua pobreza ao excesso de falhas de mercado e ao fato de que seus economistas e autoridades ignoram como livrar-se delas, tendo dado ouvidos aos conselhos errados no passado. Já os países ricos são ricos por terem concebido políticas melhores e conseguido eliminar tais falhas.

[FNC: os economistas neocolonizados nos States se acham PhDeuses — oniscientes e onipotentes –, portanto, superiores aos tapuias desenvolvimentistas, quando absorvem tal crença em seus corações e mentes!]

Seria a hipótese da ignorância capaz de explicar as desigualdades no mundo?

Será possível que os países africanos são mais pobres do que o resto do planeta porque seus líderes tendem a partir das mesmas premissas equivocadas acerca do governo de seus países, levando ao quadro de pobreza, ao passo que os líderes da Europa Ocidental são mais bem informados ou orientados, o que explicaria seu relativo êxito?

Embora haja alguns exemplos famosos de líderes que adotaram políticas desastrosas por terem se enganado a respeito de suas consequências, a ignorância pode, na melhor das hipóteses, explicar no máximo uma pequena parte das desigualdades mundiais.

Nem o decepcionante desempenho de alguns países após a independência nem os inumeráveis outros casos de aparente desvario econômico podem ser atribuídos à ignorância. Afinal, se fosse ela o problema, líderes bem-intencionados logo compreenderiam que alternativas seriam capazes de promover o aumento da renda e do bem-estar de seus cidadãos, e naturalmente as adotariam.

Daron Acemoglu e James A. Robinson consideram as trajetórias divergentes de Estados Unidos e México. Responsabilizar a ignorância dos governantes dos dois países por tais disparidades é, para dizer o mínimo, altamente implausível.

Não foram diferenças de conhecimento ou intenção entre John Smith e Cortés que causaram o afastamento entre os dois países ainda no período colonial, assim como não foram diferenças de conhecimento entre seus presidentes posteriores, como os americanos Teddy Roosevelt ou Woodrow Wilson e o mexicano Porfirio Díaz, que levaram o México a optar, entre o fim do século XIX e o começo do XX, por instituições econômicas que assegurariam o enriquecimento das elites em detrimento do resto da sociedade, enquanto Roosevelt e Wilson tomavam o caminho oposto. Pelo contrário, foram as distintas delimitações institucionais encontradas pelos presidentes e elites dos respectivos países.

Analogamente, os governantes africanos que se deixaram debilitar, ao longo dos últimos 50 anos, pela fragilidade do direito à propriedade e das instituições econômicas, acarretando o empobrecimento da maior parte de seus povos, não permitiram que isso se desse por acreditarem que estavam fazendo boa economia, mas porque podiam fazê-lo impunemente e enriquecer à custa dos demais ou por acharem que seria uma boa política, que os manteria no poder mediante a compra do apoio de grupos ou elites cruciais.

[FNC: Tal lá como cá… O peemedebismo aqui é um poder dinástico de oligarquias regionais que lutam para manter suas famílias no luxo e pouco se lixam para as demais…

Muitos dirigentes do Terceiro Mundo, diante de uma série de crises no balanço de pagamentos e escassez de moeda estrangeira, assinaram um acordo com o Fundo Monetário Internacional que incluía a maxidesvalorização da moeda do país.

O FMI, o Banco Mundial e toda a comunidade internacional pressionavam eles para implementar as reformas previstas no acordo. Embora as instituições internacionais ignorassem alegremente o fato, cada qual estava plenamente ciente das implicações daquela aposta política.

A consequência imediata da desvalorização da moeda foi uma série de levantes e tumultos em seus domínios, que sofrem escalada vertiginosa até o presidente ser derrubado pelos militares ou pelos democratas, que imediatamente tratou de reverter os efeitos maléficos da desvalorização a favor apenas dos exportadores de commodities e da proteção de mercado dos industriais nacionais pouco competitivos, devido à baixa produtividade pela ausência de investimentos em tecnologia. O choque cambial transforma-se em um choque inflacionário que corrói o poder aquisitivo popular.

Assim acabou a ditadura militar no Brasil, depois de duas maxidesvalorizações cambiais do Delfim Netto, e a reação popular contra o choque inflacionário e o autoritarismo da casta do sábios-tecnocracias com a Campanha Diretas Já!]

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