Hipótese da Ignorância: prova da ignorância de quem a defende

James Robinson & Daron Acemoglu

A hipótese da ignorância distingue-se das hipóteses geográfica e cultural à medida que implica uma pronta sugestão sobre como “solucionar” o problema da pobreza: se foi a ignorância que nos trouxe até aqui, basta contar com autoridades e governantes esclarecidos e bem informados – de preferência colonizados culturalmente pelos States – para sair deste lugar e, assim, “implementar” a prosperidade em todo o mundo, mediante a divulgação das orientações corretas e o convencimento dos políticos acerca do que seria uma economia de qualidade. A defendida pelos próprios PhDeuses!

No entanto, a experiência histórica sublinha o fato de que o principal obstáculo à adoção de políticas capazes de reduzir as falhas do mercado e estimular o crescimento econômico não é a ignorância das autoridades, mas os incentivos e restrições que lhes são impostos pelas instituições políticas e econômicas em suas sociedades.

Ainda que a hipótese da ignorância reine soberana entre a maior parte dos economistas e nos altos círculos do Ocidente – que, excluindo praticamente qualquer outra possibilidade, concentram-se na implementação mecânica da prosperidade –, é só mais uma hipótese que não dá certo.

Não explica a origem da prosperidade no mundo nem as circunstâncias em que estamos imersos – por exemplo:

  1. por que determinados países, como México e Peru, mas não Estados Unidos ou Inglaterra, adotaram instituições e políticas que levariam ao empobrecimento da maioria dos seus cidadãos ou
  2. por que quase toda a África subsaariana e a maior parte da América Central são tão mais pobres do que a Europa Ocidental ou o Leste Asiático.

Quando os países rompem com os padrões institucionais que os mantinham condenados à pobreza e conseguem enveredar por um caminho de crescimento econômico, não é porque seus líderes ignorantes de repente se tornaram mais bem informados ou menos egocêntricos, ou porque passaram a ser orientados por economistas melhores.

[Fernando Nogueira da Costa: viu, PIG? Não é o propagandeado, cotidianamente em suas páginas adulatórias e chapas-brancas, “o brilhantismo da nova equipe econômica” que a economia brasileira sairá da depressão causada pelas mesmas políticas neoliberais adotadas agora que resumem tudo a uma questão de ajuste fiscal!]

A China, por exemplo, é um dos países que substituíram as políticas econômicas conducentes à pobreza e à fome de milhões por outras de estímulo ao crescimento econômico. Entretanto, como discutem Daron Acemoglu e James A. Robinson, isso não se deu porque o Partido Comunista chinês finalmente compreendeu que a propriedade coletiva das terras agrícolas e da indústria constituíam péssimos incentivos econômicos.

Assim, Deng Xiaoping e seus aliados, que não eram menos egocêntricos que seus adversários, mas tinham outros interesses e objetivos políticos, derrotaram seus poderosos oponentes no Partido Comunista e planejaram uma espécie de revolução política mudando radicalmente a liderança e a direção do partido. Suas reformas econômicas, que criaram incentivos de mercado à agricultura, e posteriormente à indústria, foram consequências dessa transformação política. Foi a política que determinou a passagem do comunismo para os incentivos de mercado na China, não orientações melhores ou um melhor entendimento do funcionamento da economia!

Daron Acemoglu e James A. Robinson defendem que, para compreender as desigualdades do mundo, é preciso entender por que algumas sociedades são organizadas de maneiras muito ineficazes e socialmente indesejáveis. Os países, às vezes, conseguem adotar instituições eficientes e alcançar a prosperidade – mas, infelizmente, são casos raros.

A maioria dos economistas e autoridades concentra-se em “acertar”, quando o que é de fato necessário é uma explicação de onde os países pobres estão “errando”. E “erram”, basicamente, não por uma questão de ignorância ou cultura.

Como Acemoglu e Robinson pretendem mostrar, os países pobres são pobres porque os detentores do poder fazem escolhas que geram pobreza. Erram, não por equívoco ou ignorância, mas de propósito.

Para entender melhor, o leitor terá de ir além da Economia e das orientações dos especialistas acerca do melhor a fazer e, em vez disso, estudar como as decisões são efetivamente tomadas, quem são seus autores e por que eles decidem fazer o que fazem. Estamos no campo da Política e dos processos políticos.

A Economia tradicionalmente ignora a Política, mas compreendê-la é crucial para explicar as desigualdades do mundo. Como observou o economista Abba Lerner, na década de 1970, “a Economia conquistou o título de Rainha das Ciências Sociais ao escolher como domínio problemas políticos já resolvidos”.

Daron Acemoglu e James A. Robinson defendem que a conquista da prosperidade depende da resolução de certos problemas políticos básicos. É exatamente por partir do pressuposto de que os problemas políticos já foram solucionados que a Economia se torna incapaz de apresentar uma explicação convincente das desigualdades mundiais.

Para explicá-las, a Economia ainda terá de compreender como os diferentes tipos de políticas e acordos sociais afetam os incentivos e comportamentos econômicos. Mas, para tanto, precisará também da Política.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s