Ajuste Fiscal Neoliberal, Ajuste Externo Depressivo e Golpe no Brasil: “Tiro-no-pé”

Saída de IEDEntradas e Saídas de IDEDéficit Externo e IDE jun 2015-jun2016

Edna Simão e Fabio Graner (Valor, 27/07/16) avaliam que o ritmo do ajuste das contas externas deve desacelerar no segundo semestre deste ano com a apreciação do real frente ao dólar e a estabilização da atividade econômica já que se supõe que a economia brasileira “atingiu o fundo-do-poço”, tipo “pior que está não pode ficar”. No primeiro semestre deste ano, o déficit na conta de transações correntes do balanço de pagamentos somou US$ 8,444 bilhões, o valor mais baixo para o período desde 2009 e 78% menor do que o verificado nos primeiros seis meses de 2015, quando o rombo nas contas chegou a US$ 37,888 bilhões.

Somente em junho de 2016, o déficit foi de US$ 2,479 bilhões, o menor para o mês desde 2009. O resultado veio pior do que estimava o BC, cuja previsão era um resultado negativo de US$ 1 bilhão. Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, essa diferença se deve ao fato de o balanço comercial não ter registrado um resultado melhor quando comparado com o mesmo mês de 2015, como vinha acontecendo nos meses anteriores.

Em junho de 2016, houve uma redução do ritmo desse ajuste externo. Isso já pode ser em alguma proporção devido à menor a intensidade da influência dos fatores câmbio desvalorizado e queda da atividade econômica, que estiveram presentes nos últimos 12 meses.

Apesar de a trajetória de redução no déficit externo começar a dar sinais de arrefecimento, esse processo não é linear e pode se mostrar mais ou menos intenso ao longo do tempo. Portanto, é de se esperar um ajuste mais lento no setor externo ao longo deste segundo semestre.

Medido em 12 meses, a diferença entre o que país gastou e o que recebeu nas transações internacionais relativas a comércio, serviços, rendas e transferências unilaterais alcançou US$ 29,439 bilhões, o equivalente a 1,67% do PIB estimado pela autoridade monetária. Nos 12 meses encerrados em maio de 2016, o déficit foi de 1,7% do PIB. Para dar uma dimensão do ajuste externo, nos 12 meses findos em junho de 2015, o déficit era de 4,4% do PIB.

Um déficit de 4,4% do PIB (acumulado em 12 meses até junho de 2015) chamava a atenção dos analistas. Recuou para 1,67% (em 12 meses terminados no mês de junho de 2016. Isso evidencia bem o ajuste feito nas contas externas. Fundamental nesse processo é o regime de câmbio flutuante. O câmbio é a primeira barreira/linha de defesa de ajuste das contas externas. Outro aspecto é a atividade econômica. Ao longo do processo houve retração da atividade econômica. Naturalmente, significa menor demanda de bens e serviços.

Pelo menos, por enquanto, o BC mantém a previsão de déficit em transações correntes para o ano de 2016 em US$ 15 bilhões ou o equivalente a – 0,84% do PIB. Em 2015, o rombo foi de US$ 58,9 bilhões (-3,33%).

Ainda em julho de 2016, o Investimento Direto no País (IDP) será insuficiente para bancar o déficit em transações correntes. O BC projeta uma saída de investimentos do país de US$ 700 milhões no mês, se confirmada a previsão, será a maior saída registrada desde o início da série, em janeiro de 1995. A última saída de recursos computada foi em março de 1995, quando deixaram o país US$ 24,1 milhões.

No semestre, entraram no país US$ 33,816 bilhões em investimentos estrangeiros no país, crescimento de 10% sobre igual período de 2015. Para todo o ano de 2016, o BC estima ingresso de US$ 70 bilhões.

A taxa de rolagem de empréstimos de longo prazo subiu bastante em junho, atingindo 110%. O indicador ficou bem acima da média do primeiro semestre, de 50% de renovação dos créditos que venceram no período. Essa fraca rolagem no período refletiu uma preferência por operações de curto prazo e também decisão de não se financiar a custos altos no exterior por algumas empresas.

Refletindo a menor atividade econômica que reduz a rentabilidade das companhias, as remessas de lucros para suas matrizes no exterior no primeiro semestre registraram uma redução de ante mesmo período do ano passado ao totalizar US$ 7,862 bilhões. Somente em junho, a remessa somou US$ 1,396 bilhão.

Estoques Globais de IED

A Carta IEDI n. 742 comenta o Relatório sobre Investimentos Mundiais de 2016 (World Investment Report) da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Ele mostra uma retomada dos fluxos de investimentos estrangeiros diretos (IED) em 2015, com crescimento de 38% em relação a 2014, alcançando assim a marca de US$ 1,76 trilhão.

Ranking de Entrada de IDE 2014-15 Ranking de Saída de IDE 2014-15

Os países desenvolvidos foram os principais responsáveis por essa evolução, assumindo o papel tanto de origem como de destino do IED. Os fluxos de entrada de IED nesses países assinalaram alta de 75%, passando de US$ 522 bilhões em 2014 para US$ 962 bilhões em 2015, no que se destacaram as operações de fusão e aquisição especialmente entre esses mesmos países. Com isso, voltaram a deter maior parcela dos influxos globais (55%), posição que não ocupavam desde 2012. Tal expansão se deu principalmente nos países da América do Norte (+160%), mas também compreendeu aqueles da União Europeia (+65%).

A expansão da participação da América do Norte é explicada, a seu turno, essencialmente pelos EUA, que ascendeu em 2015, ao topo do ranking de países com maiores fluxos de entrada de IED, ultrapassando Hong Kong e China (que caiu do 1º para 3º lugar). Países europeus desenvolvidos, em geral, melhoraram sua posição no ranking, como Irlanda, Holanda, Suíça, França, Alemanha, Bélgica e Luxemburgo.

Em contrapartida, os países em desenvolvimento assinalaram crescimento mais modesto na entrada de fluxos de IED, apenas 9% frente a 2014. E ademais, tal crescimento foi produto de evoluções muito distintas entre os países. Os países em desenvolvimento da Ásia formaram o grupo de maior recepção de IED, notadamente aqueles do Leste e do Sudeste Asiáticos. Os asiáticos tiveram recorde de entrada de investimentos em 2015, somando US$ 540 bilhões, uma alta de 15% frente a 2014.

Em direção oposta, refletindo a baixa performance econômica, houve queda dos fluxos de entrada nos países da América Latina (-2%) e na África (-7%). Em todos os casos, contudo, viu-se uma redução da participação dos influxos de 2014 para 2015: de 37% para 31% no caso da Ásia em desenvolvimento, de 13% para 9% no caso da América Latina e Caribe e de 5% para 3% no caso da África. As economias em transição também tiveram queda dos fluxos de entrada de IED, da ordem de 40% em 2015 frente a 2014, com o que sua participação no influxo do IED global saiu de 4% para 2% nesse período.

Se considerarmos os países pertencentes ao BRICS, entre 2014 e 2015 os influxos de IED cresceram tanto na China (+5%, para US$ 135 bilhões) como na Índia (+29%, para US$ 44 bilhões), caindo nos demais países. A despeito do declínio de 12% da entrada de IED no Brasil em 2015, quando atingiu o patamar de US$ 64 bilhões, o país continua atrás apenas da China como receptor de investimentos. No caso da Rússia, a queda foi de 65%, para US$ 10 bilhões em 2015, enquanto no caso da África do Sul a entrada de US$ 1,7 bilhão representou declínio de 70% frente a 2014.

Com isso, o Brasil retrocedeu da 4ª para 8ª posição no ranking dos principais destinos de IED a nível mundial. O rebaixamento de posição da Rússia foi ainda maior, dado que em 2013 ocupava a 5ª posição, caindo para a 16ª em 2014 para finalmente sair do ranking dos 20 maiores receptores em 2015. A Índia, por sua vez, manteve igual colocação (10ª) em 2014 e em 2015 e a China foi do 1º para o 3º lugar, a despeito do aumento das entradas de investimento nesses países.

Já em relação aos fluxos de saída de IED, os EUA se mantiveram como a principal origem, isto é, como os maiores investidores mundiais. Em 2015 frente a 2014 houve aumento de cerca de 6% dos investimentos dos EUA no resto do mundo. Neste mesmo período, o Japão subiu da 4ª para 2ª posição do ranking e a China manteve-se em 3º lugar.

Em termos setoriais, as operações internacionais de fusão e aquisição no setor manufatureiro bateram o recorde histórico em 2015 (US$ 388 bilhões), impulsionadas pelos setores farmacêutico (US$ 61 bilhões), minerais não-metálicos (US$ 26 bilhões), móveis (US$ 21 bilhões) e químicos e produtos químicos (US$ 16 bilhões).

Para 2016, o relatório prevê uma queda global de 15% nos investimentos estrangeiros diretos, decorrente da maior fragilidade econômica e política, da fraca recuperação da demanda agregada e de medidas para evitar inversões corporativas. Diante desse quadro mais adverso, é muito provável que o IED no Brasil volte a se retrair, já que o país não foi capaz de aproveitar sequer um ano de resultados positivos em termos internacionais.

Fusões e Aquisições nos Países Desenvolvidos e Subdesenvolvidos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s