Índice de Incerteza: Eterna Enquanto Dura

Índice de Incerteza

Depois que escrevi meu comentário no post anterior, colocando a retórica sem fundamentos estruturais da “incerteza” dos heterodoxos como contrapartida igual e contrária da “confiança” dos ortodoxos, li reportagem publicada por Sergio Lamucci (Valor, 28/07/16), onde informa que o Brasil vai ganhar o seu índice de incerteza sobre política econômica, juntando-se a um grupo formado por 14 países mais a Europa.

Observo que incerteza, na visão pós-keynesiana, é a resultante de decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas cada uma das outras. Isto é real, porém decisões são sempre tomadas ex-ante com resultados só constatáveis ex-post. Em outras palavras, em qualquer decisão, haverá sempre incerteza! Capitalismo sem risco só “aqui, em Terrae Brasilis, onde se plantando tudo dá”!

Então, pode-se alegar que é questão de dosagem. Concordo com Humphrey Bogart, quando ele disse que “a humanidade está sempre duas doses abaixo do normal”. Ou como dizia um velho amigo, “prá guentá os homi, só biritando!”

Logo, em estado de incerteza estivemos sempre. Com grau de confiança zero em governo golpista estamos agora…

Uma versão experimental mostra a evolução do indicador brasileiro de janeiro de 1991 a abril deste ano, quando atingiu o ponto mais alto, no mês em que a Câmara dos Deputados autorizou a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, camuflagem “legalista” para o golpe na democracia brasileira: os políticos sem votos e o programa derrotado em 2014 estão no Poder Executivo! Notícias relacionadas à Lava-Jato mantiveram o índice em níveis elevados desde o começo da operação, em março de 2014.

O indicador foi construído por uma equipe comandada por Nicholas Bloom, da Universidade de Stanford, Scott Baker, da Universidade Northwestern, e Steven Davis, da Universidade de Chicago, quantificando a cobertura do noticiário brasileiro de temas relacionados à incerteza de política econômica.

Em 2011, os três apresentaram um estudo sobre o assunto, lançando um indicador para os EUA. O trabalho ressaltou o efeito negativo da questão sobre o investimento, a produção e o emprego, evidenciando o salto da incerteza a partir da Grande Recessão (2007 a 2009).

Ao comentar o indicador brasileiro, Davis diz que os fatores que guiam a incerteza são muito mais relacionados a acontecimentos domésticos do que em outros países. Uma grande exceção é a crise financeira global que se agravou com a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008, segundo ele. “Já outros eventos que afetaram vários outros países, como os atentados de 11 de setembro [nos Estados Unidos] e a invasão do Iraque em 2003, não tiveram grandes ecos no Brasil“, afirma Davis. “Isso é consistente com a visão de que o Brasil ainda é uma economia muito voltada para dentro.”

Ele também ressalta o impacto “poderoso” dos escândalos de corrupção relacionados à Lava-Jato sobre o índice de incerteza brasileiro. O início da operação, em março de 2014, coincide com um salto do indicador, que também subiu com força em setembro de 2015, quando o ex-ministro José Dirceu e mais 16 pessoas foram denunciadas por crimes como corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

“Eu não consigo pensar outro exemplo em que um escândalo de corrupção tenha causado esse impacto sobre a incerteza”, afirma Davis, observando que o indicador brasileiro ficou por muito tempo num nível elevado.

O Brasil viveu uma crise política intensa especialmente a partir de 2015, num cenário marcado pelas investigações da Lava-Jato e pela perspectiva de abertura do processo de impeachment de Dilma, que foi aceito pelo Senado em maio. No fim de agosto, os senadores deverão decidir o destino da presidente afastada, devendo retirá-la em definitivo do cargo. Estará consumado o golpe parlamentarista em um regime presidencialista.

Para Davis, o desempenho econômico negativo do Brasil e o alto nível de incerteza se retroalimentam. A recessão contribui para tornar o cenário mais incerto, e o ambiente de indefinição, por sua vez, alimenta o desempenho ruim da economia. “Um reforça o outro”, diz Davis, ao comentar o fato de que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro encolheu quase 4% em 2015 e deve recuar mais de 3% neste ano.

O indicador americano é uma combinação de três componentes:

  1. o primeiro quantifica a cobertura de dez jornais sobre temas relacionados à incerteza;
  2. o segundo engloba o número de tributos que vão expirar nos próximos anos;
  3. o terceiro busca refletir a discrepância nas estimativas dos analistas para alguns indicadores.

Já os indicadores de todos os outros países, inclusive o brasileiro, têm apenas o primeiro componente – o mais importante dos três, segundo Davis. No caso do Brasil, a base é o arquivo do jornal “Folha de S. Paulo“, computando-se reportagens e artigos com as palavras “incerto”, “incerteza”, “econômico”, “economia” e um ou mais termos relevantes como “regulação”, “déficit”, “orçamento”, “imposto”, banco central”, “Planalto”, “Congresso, “Senado”, “legislação”, “tarifa” e “militar”. O que é isto?!

[FNC: Ora, o PIG (Partido da Imprensa Golpista) com suas manchetes escandalosas em campanha aberta em favor do Golpe de Estado no Brasil é responsável pelo Índice de Incerteza?! E, agora, pós-golpe, manchete chapa-branca, baba-ovos, puxa-saco, laudatória, “como me ufano de meu País”, passada a incerteza da conspiração golpista, revela o Índice de Confiança?!]

Segundo Davis, o fato de o indicador brasileiro ter como fonte um só jornal faz com que haja mais “ruídos de alta frequência” do que o de países em que os índices têm mais periódicos como fontes. Com isso, é importante evitar a tentativa de interpretar com exagero cada movimento mensal do indicador, diz ele. Todos os países, aliás, têm apenas indicadores mensais, com exceção dos EUA, que também têm um índice diário. Além de Brasil e EUA, há indicadores para Alemanha, Reino Unido, Itália, França, Espanha, Holanda, Europa, Canadá, China, Índia, Rússia, Coreia do Sul e Austrália.

No estudo de 2011, os pesquisadores mostram que o indicador americano de incerteza sobe com mais força perto de eventos como eleições presidenciais disputadas, o ataque de 11 de setembro de 2001, o colapso do Lehman e o debate sobre o teto da dívida federal, em 2011. Um salto do índice como o ocorrido entre 2006 e 2011 está associado a um PIB 1,4% menor e a 2,5 milhões de empregos a menos.

Davis nota que os indicadores são muito usados em pesquisa acadêmica sobre incerteza. Além disso, bancos de investimento como o Goldman Sachs costumam mencionar os índices em seus relatórios. Numa versão de 2015 do estudo, Davis, Bloom e Baker escrevem que “preocupações com incertezas sobre política se intensificaram depois da crise financeira global, da série de crises na zona do euro e das disputas partidárias nos EUA”.

Eles notam que o Comitê de Mercado Aberto do Federal Reserve (o banco central americano) em 2009 e o Fundo Monetário Internacional em 2012 e 2013, por exemplo, sugeriram que indefinições sobre política fiscal, política monetária e regulação nos EUA e na Europa contribuíram para a forte retração em 2008 e 2009, assim como para a lenta recuperação subsequente. Nesse quadro, o índice é uma tentativa de medir o papel da incerteza na economia.

[FNC: E os “formadores” de opinião pública — a pior entre todas as opiniões — passaram a ter o poder de manipular o índice de incerteza da economia?!]

Um dos autores do estudo, o inglês Bloom foi apontado em 2014 pela revista “Finance & Development“, do FMI, como um dos 25 economistas mais influentes do mundo com menos de 45 anos. No mesmo ano, Bloom ganhou um prêmio do Banco Europeu de Investimento por pesquisas em outra área de sua especialidade, a inovação gerencial e tecnológica.

Uma versão atualizada do índice para o Brasil deve ser lançada logo com dados até julho de 2016.

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