Passado como Guia do Futuro: Tempo de Recuperação das Crises

Evolução da ConfiançaConfiança do consumidorTempo de Recuperação nas CrisesHá uma anedota corporativa que pergunta: qual é a diferença entre um economista e um contabilista? Resposta: hipótese. O contador registra fatos do passado ao presente; o economista tenta levantar alguma hipótese sobre o futuro desconhecido.

Recentemente, tenho observado que o que no jargão ortodoxo denomina-se “confiança” está sendo usado e abusado, quase tanto o que, em contrapartida, no jargão heterodoxo, especialmente no de economistas pós-keynesianos, denomina-se “incerteza“. Com base no individualismo metodológico foca-se apenas em um tratamento homogêneo da subjetividade comportamental dos empresários tomadores de decisões. Então, é uma tal de “incerteza” prá cá e uma tal de “falta de confiança” prá lá, que ninguém aguenta mais! É a Economia como arte da retórica vazia…

Juan Jensen, mestre e doutor em economia pela USP, é sócio da 4E Consultoria e professor do Insper. Publicou artigo (Valor, 22/07/16) em que faz um interessante exercício de prever o futuro com base no passado.

Obviamente, a regularidade do passado só pode projetada para o futuro se não tiver ocorrido nenhuma mudança estrutural. O que, evidentemente, não é o caso entre crises pré-industrialização pesada (1930-31), pós (1981-83) e em fase de predominância de financeirização, desindustrialização, agroindústria e serviços urbanos (2015-16). Mas vale a reflexão comparativa a respeito. Reproduzo o artigo abaixo.

A crise econômica pela qual o Brasil passa está causando a maior retração econômica que se tem registro, ainda que similar em termos de magnitude à crise global da década de 30 e à crise da dívida externa de 80. Ao somarmos os resultados do PIB do ano passado e deste ano, considerando a projeção da 4E, chegamos a uma queda acumulada de 6,5%. Como comparação:

  • a queda do PIB na crise global da década 30 (1930 e 31) foi de 5,3% e
  • a queda do PIB na crise da dívida externa da década de 80 (1981, 82 e 83), foi de 6,3%.

Diante deste quadro, a boa notícia é que estamos chegando, se já não estamos lá, no que tem se denominado de fundo do poço. A virada para o crescimento está ocorrendo ao longo do atual semestre e vamos entrar em 2017 em uma trajetória de alta. Vários indicadores antecedentes já têm mostrado uma melhor dinâmica, com destaque para a recuperação da confiança dos agentes, tanto dos consumidores como dos produtores.

A resolução de parte das incertezas políticas, com destaque para a votação final do processo de impeachment, juntamente com a sinalização de correções dos nossos problemas econômicos por parte do novo governo, são os principais fatores por trás desta melhora. Mas em que ritmo esta melhora ocorrerá? Quando voltaremos ao patamar de atividade do pré-crise?

Se analisarmos as duas crises anteriores, o processo de recuperação foi muito rápido. Tanto na década de 30 como na década de 80, logo no segundo ano após o “fundo do poço” estávamos significantemente acima do patamar pré-crise (7,5% acima do patamar pré-crise em 30 e 6,5% em 80). Com 4 anos de recuperação o produto nacional estava em torno de 20% acima do patamar anterior à crise.

As razões que levaram a fortes recuperações nos anos posteriores a essas crises são distintas. Na década de 30, uma política contracíclica, estimulando a demanda doméstica, num contexto em que os problemas econômicos vinham da economia global, permitiu rápida recuperação. De certa forma, o processo foi parecido com o desempenho do Brasil na esteira da crise global de 2008/09.

A adoção de uma política econômica contracíclica, numa economia com bons fundamentos, permitiu rápida recuperação em 2010 (crescemos 7,5% após a retração de 0,3% em 2009).

Na década de 80, a crise trouxe um profundo ajuste externo e elevada ociosidade doméstica, permitindo rápido crescimento, ainda que com o custo de uma inflação crescente que cobraria seu preço à frente.

E com que força deve vir a recuperação atual? Diferentemente das recuperações anteriores, a atual deve vir num ritmo muito mais lento. As razões são diversas e passam pelo campo político e restrições econômicas estruturais.

No campo político, mesmo confirmado o impeachment, as incertezas não se dissiparão completamente. Neste campo, dois aspectos ainda estarão no radar.

O primeiro são as incertezas em relação à continuidade de novos escândalos no contexto da apuração da Lava-Jato, juntamente com o ativismo do Judiciário. Vale lembrar que três ministros de Temer já foram afastados. Se a longo prazo podemos colher bons frutos de uma melhora da relação setor público e setor privado, a curto prazo este ativismo limita a recuperação da atividade econômica.

Um segundo ponto não menos importante é a eleição de 2018. Esta eleição terá certa similaridade com o pleito de 1989, com muitas candidaturas e com elevado grau de imprevisibilidade sobre o resultado. A razão é que os políticos e partidos tradicionais têm muita rejeição, abrindo espaço para candidatos aventureiros com chances nada desprezíveis de vitória. Em termos econômicos isto se traduz em incerteza, sobretudo num risco de não continuidade dos ajustes e reformas que serão implementados pelo governo Temer. [?!] Assim, por maior que seja a capacidade da equipe econômica atual em colocar a economia nos trilhos [?!], existe uma incerteza à frente que limita a capacidade de recuperação, sobretudo via confiança.

Em termos econômicos as restrições são mais estruturais. Diferentemente da década de 30, não temos nenhuma condição hoje de fazer política anticíclica. [?!] Foi justamente um exagero na política fiscal expansionista a razão da crise atual, não sendo possível qualquer resposta neste sentido. Comparando com 80, a rápida recuperação trouxe outros desequilíbrios, como um quadro de inflação crescente, desembocando num cenário de hiperinflação, algo não imaginável como solução para a situação atual.

Na situação atual, a aprovação de uma agenda estrutural muito mais complexa é necessária para recolocar o país numa rota de crescimento sustentável. A recuperação econômica vai ter que conviver com uma política fiscal contracionista e inflação controlada, o que obviamente afeta a velocidade de recuperação. [?!]

Assim, comparando o processo de recuperação da atual crise com as crises anteriores, vemos profunda diferença no ritmo de recuperação (figura acima).

  • Nas crises das décadas de 30 e 80, em dois anos o patamar do produto já era bem maior que o patamar pré-crise.
  • Na crise atual, chegaremos em 2018 em um patamar ainda bem inferior ao patamar que tínhamos em 2013/14.

Ao final de quatro anos, enquanto o produto das crises anteriores era em torno de 20% superior ao período pré-crise, teremos, na recuperação atual, patamar apenas de 3 a 4% superior ao pré-crise. E isso que a 4E trabalha com ritmo de crescimento a partir de 2019 bem superior à média do mercado (3,4% para 2019 e 3,7% para 2020).”

Ciclos de Negócios
Outro exemplo de “passado como guia do futuro” é dado pelo artigo (Valor, 28/07/16) publicado por Marcelo Kfoury é superintendente do departamento econômico do Citi Brasil. Leonardo Porto e Mauricio Une são economistas do Citi Brasil. Aliás, a torcida para “o Brasil dar certo”, após o lockout golpista, é comovedora…

“É possível que o ex-presidente Lula acreditasse que a realização dos dois maiores eventos esportivos do planeta em solo pátrio – a Copa do Mundo e a Olimpíada – lhe daria a chance de coroar frente ao mundo o seu legado para o país. Paradoxalmente, no entanto, o que esses dois eventos na verdade marcarão é o início e o fim da maior recessão econômica de nossa história recente.

Já se definiu que o início do processo recessivo aconteceu no segundo trimestre de 2014, coincidindo com a Copa do Mundo no Brasil, e, de acordo com a nossa avaliação, a virada acontecerá no terceiro trimestre de 2016, exatamente quando acontece a Olimpíada do Rio de Janeiro. Cremos que essa tenha sido não só a maior recessão da história – afinal, trata-se da mais longa e profunda recessão desde a Segunda Grande Guerra -, mas também a que produziu a recuperação mais medíocre.

Em todas as outras recessões, a contração durou apenas dois trimestres. A atual, apenas em termos de crescimento negativo em sequência, já acumula cinco, e possivelmente o sexto será o segundo trimestre de 2016. O gráfico acima apresenta o comparativo do ciclo de negócios em situações recessivas.

Enquanto nas recessões de 1998/99, 2001 e 2003 a queda do PIB foi do topo ao vale de menos de 2 pontos percentuais, a de 2008/09 resultou em uma queda de 6,3 pontos percentuais. Já no episódio atual, o prejuízo até agora estimado é de 7,3 pontos percentuais, sendo, portanto, a mais longa e profunda.

Por outro lado, o pós-recessão deve ser também o mais ameno, com o PIB recuperando 1,4 ponto cinco trimestres após o vale, enquanto nas recessões anteriores foi de 4,9 pontos em 1998/99; 5.5 pontos em 2001; 7.7 pontos em 2003; e 11 pontos percentuais em 2008/09.

De fato, entendemos por que alguns analistas enxergam os famosos “brotos” de crescimento aparecendo aqui e ali, fazendo com que as nossas estimativas de crescimento para o ano que vem sejam conservadoras. Por exemplo, é verdade que alguns indicadores de confiança já mostram clara reversão e dão a pista de que estamos corretos na estimativa, com base nos nossos testes econométricos, de que a recuperação econômica virá no terceiro trimestre.

O índice de confiança da indústria, por exemplo, passou a ter crescimento positivo a partir de abril, e o nosso modelo VAR projeta então que, após cinco meses, as taxas de crescimento da produção industrial devem se tornar definitivamente positivas.

Adicionalmente, quando fazemos a decomposição do PIB em termos cíclicos e estruturais, verificamos que o componente cíclico sugeriria que, se o BC promovesse uma queda mais acentuada da taxa Selic de forma que, ao término de 2017, a taxa de juros de referência chegasse a 10,5%, a nossa estimativa de crescimento em 2017 poderia aumentar em até 0,5 ponto percentual.

Além disso, rodamos ainda dois outros cenários alternativos, em que o indicador da confiança da indústria recuperar-se-ia a 80 e 100 pontos ao final de 2017 e as taxas de crescimento do PIB consistentes com estes cenários seriam -0,1% e 0,9%, respectivamente.

Porém, as condições que permitiam uma forte recuperação não estão presentes agora. Por exemplo, ao contrário de 2008/2009, não existe mais espaço para promover um forte estímulo da demanda pela via política fiscal (ao invés disso há necessidade do controle das contas públicas), pela via monetária (as expectativas de inflação ainda estão altas) e o mundo não terá um forte apetite por nossos produtos.

Por último, mesmo que estas condições ficassem mais amenas, não vemos como o canal do crédito poderia transmitir um estímulo maior de demanda. Percebemos que o alto comprometimento do crédito da pessoa física faz com que esteja em curso um forte processo de desalavancagem que ainda deve durar mais alguns trimestres.

Por exemplo, o brasileiro, em março de 2016, já comprometia algo como 21,6% da sua renda disponível para pagar prestações, um valor extremamente alto em qualquer comparação internacional. Na nossa visão, esse estrangulamento do crédito [?!] poderá resultar em uma recuperação típica de recessão combinada com crise financeira, mesmo que no Brasil não tenha havido nenhuma crise bancária.

Portanto, mesmo estando às vésperas da recuperação econômica, com o crescimento do PIB definitivamente voltando ao campo positivo já no quarto trimestre de 2016, prevemos uma recuperação anêmica (de apenas 0,6%) no próximo ano, abaixo do consenso de mercado, que está por volta de 1%. Por mais que haja evidências empíricas da recuperação que normalmente nos faria crer em forte retomada, ainda cremos em modesto crescimento no próximo ano. A debilidade do crédito e o endividamento dos agentes econômicos são fatores primordiais para explicar o raquitismo econômico vindouro.”

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