Bloguinho de Esquerda e Rede Social

um peão contra

Recebi em mala-direta de e-mails o seguinte clamor: “Companheiros e companheiras: nós hoje estamos tão ofuscados e inebriados pelo nosso atual poder de escrever e divulgar para sabe-se lá quantas dezenas de curiosos, que lerão nossos artigos pela internet (talvez cem, quem sabe, mil, dez mil…), e nos esquecemos do básico: precisamos criar meios de comunicação de massa próprios, ou seja, nossos. Tudo acontece, graças à internet, como se cada um de nós quisesse se ocupar apenas do serviço mais ‘nobre’, mais ‘intelectual’, que seria elaborar os mais astutos e completos artigos. Ninguém quer saber nem de pensar no serviço bruto, ingrato, contaminado pelo ‘capitalismo empresarial’ de empreender e criar próprios meios de comunicação da massa. Quase ninguém quer perder tempo ou trabalho em tentar resolver o problema maior que é como fazer esses artigos, ou nossas ideias sobre o Brasil, chegarem às mais de uma centena de milhões [?!] que veem a TV Globo todo dia”.

O remetente busca ter empatia com os blogueiros de esquerda ao dizer que “parece que as coisas se passam como se cada um de nós, como trabalhador intelectual de esquerda, dissesse: fazer meu artigo perfeito chegar a milhões de pessoas não é problema meu. O meu dever eu fiz: escrevi um bom artigo. E a minha parte eu vou fazer: vou remeter para um blog progressista e pronto. Esses bloguezinhos de esquerda tem importância, mas são muito limitados em termos de leitores e de espaço, além disso, não publicam meus artigos na quantidade que eu gostaria, embora eu remeta sempre… O que fazer?”. Termina colocando-se a velha questão leninista.

Talvez eu tenha colocado a carapuça ao me inquietar com essa mensagem que clama por intelectuais militantes no debate público se transformarem de produtores virtuais em distribuidores presenciais de “necessárias” ideias de esquerda para a massa que, supostamente, as aguarda.

Será que me inquieto por meu modesto “bloguinho de esquerda”, desde 2010, acumular “apenas” cerca de 5 milhões de visitas? Oferecendo posts com conteúdo acadêmico, chega a receber, diariamente, entre 4 e 5 mil visitas.

Eu poderia me dar como satisfeito se comparo essa audiência diária com todo o número da tiragem de meus livros em uma primeira edição – 2.500 –, que exigiu um ano para se esgotar. Ou se lembro do meu tempo de militante presencial, no fim da ditadura, quando achávamos uma glória reunir uma dúzia de militantes em reunião semanal do núcleo de base dos economistas do PT no Rio de Janeiro. Mas, comparar com audiência de canal de variedades da TV aberta, para que?! Jamais competiremos com tal coisa!

No entanto, quero analisar a questão sob um novo olhar mais adequado à Era de Redes. Antes, lembrando do dualismo da Filosofia Ocidental, devo antecipar que me identifico mais com a corrente materialista do que com a idealista, ou seja, não creio que só as (boas) ideias (bem) difundidas para a massa popular terão o poder de mudar o mundo.

Acho que isso é auto ilusão de parte da casta dos sábios (de esquerda): os párias se preocupam com suas condições de vida cotidiana e sabem muito bem o que lhes aflige. Não estão à espera de ideias de uma pressuposta “vanguarda dirigente” lhes faça de massa de manobra. Suas lideranças autênticas já canalizam esforços coletivos para auto-organização, reivindicação social e pressão política.

É natural a inquietação de membro da casta de sábios-pregadores perceber que apenas nós (os demais membros dessa casta de sábios-intelectuais) lemos nossas ideias postadas nos blogs de esquerda ou as repassamos para nossos 20 ou 300 companheiros, “pregando para convertidos”. Na verdade, cada leitor ou internauta, tanto à esquerda, quanto à direita, tende a buscar apenas a auto validação ilusória de suas próprias ideias. O debate público é segmentado. Fora dos segmentos ideológicos, na rede social, ele é substituído por discursos de ódio e xingamentos.

Nesse quadro, o militante virtual, que ainda se revolta contra o status quo, não pode ser criticado por “se contentar em escrever seu texto, postar nos blogs individuais ou no Facebook, canal dominado pela direita e pelos entreguistas”. Se está “tudo dominado”, é fruto de organização mais eficiente de pequenos grupos fascistóides que infestam de comentários caluniosos toda notícia com protagonismo de alguém da esquerda.

Tanto esse predomínio da direita está afastando assinantes de esquerda, nessa mídia, que a Folha de São Paulo realizou, no 1º dia de agosto de 2016, mudanças em sua seção de comentários no site, “numa medida para estimular o debate qualificado sobre o noticiário e prestigiar os assinantes do jornal. Agora, apenas assinantes da Folha podem fazer comentários nas colunas e reportagens publicadas no site. Além disso, os comentaristas passam a ser identificados por seus nomes, e não será mais permitido o uso de apelidos”.

Entre outras restrições, serão vetados comentários que:

  1. não tratem do assunto objeto da reportagem em que foi postado;
  2. utilizem linguagem chula, grosseira ou ofensiva, palavras cortadas por caracteres ou escritos em outra língua que não o português e totalmente em maiúscula;
  3. veiculem material pornográfico, persecutório, ameaçador, racista ou discriminatório com relação a raça, religião ou nacionalidade;
  4. veiculem afirmações ou material calunioso, injurioso ou difamatório; etc.

Líder de audiência entre os jornais no ranking do IVC (Instituto Verificador de Comunicação), a Folha registrou nos últimos seis anos mais de 8,3 milhões de comentários de leitores. Surpreendentemente, esse número não está tão distante do acumulado de visitas apenas ao meu “bloguinho de esquerda” no período

Qual é a dimensão do efeito contágio na rede social? Com 1,2 bilhão de usuários ativos, no mundo, um clima de otimismo ou pessimismo pode se espalhar de forma muito rápida no Facebook. Mas os milhares de comentários levianos, lidos superficialmente, podem ter influência na atividade política de auto-organização em favor de uma causa?

O debate sobre o verdadeiro impacto do comportamento on-line se intensificou desde o surgimento das redes sociais. Mas pesquisadores raramente têm acesso a dados de interações virtuais que possam revelar se os sentimentos expressados on-line podem realmente influenciar as pessoas da mesma forma que as interações presenciais.

Esses pesquisadores reconhecem que “as redes sociais têm valor. Elas são um tipo de capital social. Novas propriedades emergem porque estamos inseridos nas redes sociais. Essas propriedades são inerentes na estrutura das redes e não aparecem nos indivíduos dentro delas”.

O padrão de conexões entre as pessoas confere a outros grupos de pessoas diferentes propriedades. São os vínculos entre as pessoas que fazem o todo distinto da soma inalterada de suas partes. Assim, não é apenas o que está acontecendo a cada uma dessas pessoas, trata-se da arquitetura real dos vínculos em torno delas.

Os seres humanos se agrupam e formam um tipo de superorganismo. Este coletivo de pessoas, as quais mostram ou evidenciam comportamentos ou fenômenos complexos no nível sistêmico, não é redutível ao estudo das pessoas isoladas, portanto, devem ser entendidos por referência ao estudo da coletividade.

É necessário entender as redes sociais, como elas se formam e operam. Isso sim pode nos ajudar a compreender fenômenos políticos, isto é, as ações coletivas em defesa dos próprios interesses e/ou da ideologia.

Os sistemas sociais constituem uma emergência da pluralidade de ações individuais de agentes heterogêneos, cuja opinião de um influencia e é influenciada pela opinião de outros. Suas interações, em conjunto, dão origem às propriedades globais do sistema, propriedades essas que são mais do que a soma dos comportamentos individuais. Mas sem essas inter-ações das partes (“bloguinhos pessoais”) não há a emergência do todo

Esses aspectos caracterizam os sistemas sociais como complexos. Não podemos usar simples palavras para tratar de problemas complexos. E também não devemos recorrer a uma velha receita – “construir veículo de comunicação de esquerda para a massa popular” – para enfrentar o novo desafio: a militância de esquerda em tempo de rede de relacionamentos virtuais em amplitude nacional.

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