Estruturação da Rede de Relacionamentos

sinuca de bico

Segundo Palestra TED de Nicholas Christakis, a estrutura da rede ou a arquitetura de seus vínculos muda com o tempo. A boataria não é uma epidemia de calúnia unicêntrica, ela é multicêntrica. Emerge quando muitas pessoas postam a mesma coisa ao mesmo tempo.

Olhando a representação visual dessa complexidade, observa-se que essa rede social, que vai mudando através dos tempos, tem uma memória, um tipo de consistência, pois ela persiste além das pessoas que a compõem. Esse tipo de resiliência a permite persistir através dos tempos.

Assim, temos de enxergar esses sinais das redes sociais como (compon)entes vivos, que podemos estudar, analisar e entender. Verificamos, por exemplo, o altruísmo típico da esquerda contra o egoísmo individualista da direita como um sentimento emocional que pode se refletir em comportamentos miméticos de votação em uma futura eleição?

Quando demonstramos nossas emoções, os outros internautas podem percebê-las. Não somente podem percebê-las, mas também as copiam. Há um contágio emocional que acontece nas populações humanas. É um tipo primitivo de comunicação. É um meio muito instintivo pelo qual, brevemente, transmitimos emoções uns aos outros. De fato, o contágio emocional pode ser ainda maior, ou seja, poderemos pontuar expressões de raiva, como em tumultos sociais contra um governo usurpador.

A questão-chave sobre o contágio emocional é: pode a emoção se espalhar através dos tempos, de maneira mais sustentável do que a de breves tumultos, e envolver grandes números de pessoas de maneira mais permanente?

Talvez haja apenas um estouro instantâneo de emoções que se movimenta através das redes sociais. Talvez, de fato, as emoções tenham uma existência coletiva, não somente uma existência individual.

Os padrões marcantes das redes sociais, suas onipresenças, e seus propósitos aparentes imploram por questões sobre:

  1. se evoluímos para ter redes sociais genéricas, ou
  2. se evoluímos para formar redes com uma estrutura particular.

No caso de uma estrutura de rede verdadeira, cada pessoa não tem exatamente a mesma localização estrutural que as demais pessoas. Dois indivíduos têm números diferentes de contatos pessoais.

Nodo, em astronomia, é cada um dos pontos de interseção da órbita de um corpo em movimento orbital com um plano de referência. Em um quadrante, por exemplo, é possível comparar o nodo B no campo superior esquerdo ao nodo A no inferior esquerdo. As duas pessoas têm ambas quatro amigos, mas todos os amigos de A se conhecem, e os amigos de B não. Assim, o amigo de um dos amigos de A, é um amigo de A, ainda que um amigo de um amigo de B não seja um amigo de B, então, ele é mais distante na rede. Isso é conhecido como transitividade nas redes.

Comparando os nodos C e D, nos outros dois quadrantes, ambos têm 6 amigos. Se perguntarem a eles “como é sua vida social?”, cada um deles pode responder “tenho seis amigos; esta é toda minha experiência social.” Mas os observadores com a visão do conjunto, olhando para essa rede como um todo, podem ver que eles ocupam mundos sociais muito diferentes.

Quem vocês gostariam de ter relacionamento se, p.ex., uma defesa de direita do individualismo estivesse se espalhando pela rede? Vocês gostariam de ser C ou D? Vocês, provavelmente, gostariam de ser D, no limite da rede. E agora, quem vocês gostariam de ser se, p.ex., uma defesa de esquerda da busca de igualdade social, estivesse se espalhando pela rede? Nesse caso, seria melhor ser C com muito maior transitividade nas diversas redes.

Assim, localizações estruturais diferentes têm implicações diferentes nas vidas virtuais. Algumas pessoas nascem tímidas e algumas nascem sociáveis. Algumas pessoas gostam de apresentar seus amigos uns aos outros – todos devem ter algo em comum – e outros os mantêm separados e não apresentam seus amigos uns aos outros. Assim, algumas pessoas constroem redes ao redor de si mesmas, criando um tipo de emaranhado denso de vínculos interpessoais nos quais se encontram confortavelmente inseridos. Logo, estar no meio ou na extremidade da rede social, isso é parcialmente hereditário.

Como isso nos ajuda a compreender alguns dos problemas que estão nos afetando atualmente? O argumento que Nicholas Christakis sustenta é que “as redes têm valor. Elas são um tipo de capital social. Novas propriedades emergem porque estamos inseridos nas redes sociais. Essas propriedades são inerentes na estrutura das redes, não somente nos indivíduos dentro delas”.

O padrão de conexões entre as pessoas confere sobre os grupos de pessoas diferentes propriedades. São os vínculos entre as pessoas que fazem o todo muito maior que a soma de suas partes. Assim, o que nos afeta é a arquitetura real dos vínculos em torno de nós.

Nossa experiência do mundo virtual depende de:

  1. a estrutura real das redes em que residimos e de
  2. todos os tipos de coisas que transitam e fluem através da rede.

Formamos redes sociais porque os benefícios de uma vida conectada são maiores que os custos. No entanto, se o internauta for um cara de direita sempre violento com você, que o entristece ou lhe infecte com vírus letais, você cortaria seus vínculos com ele – ele seria “bloqueado” –, e a rede entre si e internautas de direita se desintegraria.

Pelo efeito-rede, a difusão de coisas boas e valiosas é exigida para sustentar e alimentar as redes sociais. Por sua vez, estas são exigidas para a difusão de coisas boas e valiosas como o altruísmo e a ideia de cidadãos com direitos igualitários.

Se todos percebêssemos quão valiosas são as redes sociais, passaríamos mais tempo alimentando-as e sustentando-as, pois elas deveriam estar fundamentalmente relacionadas ao bem. Um mundo melhor é possível, desde que tenha mais conexões para o bem – e não para o mal.

Sendo assim, desde que a rede social foi infestada por discursos de ódio terroristas, passei a bloquear e/ou jogar no lixo os comentários de internauta idiota. Este interniota é o frustrado que não tem consciência do mal que faz a si e aos outros — ou tem, mas não se importa, pelo contrário — ao se aproveitar do recurso do anonimato para navegar na Web 2.0 injuriando as ideias alheias. Com sua agressividade acaba por desestimular uma plataforma social de discussão que poderia ser civilizada e educativa.

É necessário alertar os leitores desavisados para o que está acontecendo na rede social, como já aconteceu com a mídia jornalística. Ela está, gradativamente, perdendo o respeito de seus antigos leitores de esquerda ao disseminar ódios e agressões verbais da direita. Sua imagem está se tornando similar à da revista direitista Veja, tipo “veja-mas-não-leia-jogue-no-lixo”.

Como a direita toma conta da imprensa e métodos de violência fascista tomam conta das ruas, cabe tomar alguma atitude defensiva dentro do alcance de cada pessoa que se preocupa com a violência que está ocorrendo no que deveria ser um debate público civilizado.

Coerente com a denominação deste modesto blog – Cidadania & Cultura –, há muito tempo deixei de dar “palanque”, por modesto que seja, às vociferações de direita nos Comentários. As ideias da direita já têm o mais amplo espaço na mídia impressa ou televisa. Meu blog pessoal não pode reproduzir a polarização estéril que reina na internet.

Leia mais:

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3 thoughts on “Estruturação da Rede de Relacionamentos

  1. Professor, bom dia,
    as “propriedades de posição”, reveladas nas relações pessoais, face a face, não seriam homologas na rede virtual?

    1. Prezado Osmar,
      o que você quer dizer com “propriedades de posição”?

      A dúvida é quanto ao grau em que as emoções presenciais são transmitidas via contatos virtuais. A empatia é similar?

      Parece-me que ainda não, dado que a nossa herança genética é presencial. Mas o alcance interpessoal e a abrangência geográfica são muito superiores via rede virtual, não? Você transmite suas emoções para mais gente de diferentes lugares, mesmo que sejam pessoas desconhecidas por ti.
      abs

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