Rede Social Contra Extremismo e Intolerância

The Bullet or the Ballot - Balas ou Eleições

A propósito do debate sobre o papel que blogs pessoais podem exercer na rede social contra discursos de ódio extremista e intolerância ideológica ou religiosa, apresentado nos dois posts anteriores, Sam Schechner (WSJ, 1 de Agosto de 2016) informa que quase meio milhão de adolescentes e jovens adultos que postaram conteúdo com termos como “xariá” (o código de leis islâmicas) ou “mujahideen” (combatentes islâmicos) começaram a ver, a partir de meados do ano passado, uma série de vídeos animados surgirem em seu feed de notícias no Facebook.

Em um dos vídeos, personagens animados empunhando armas aparecem embaixo da bandeira do Estado Islâmico. “Não fique confuso com o que os extremistas dizem, que você deve rejeitar o novo mundo. Você não precisa aderir”, diz o narrador. “Lembre-se, diga sim à paz e não ao extremismo.”

Os vídeos são parte de três experiências — financiadas pela Alphabet Inc., a controladora do Google, com a ajuda do Facebook Inc. e do Twitter Inc. — que exploram maneiras de usar as ferramentas da publicidade on-line para contrabalançar a onda crescente de propaganda extremista na internet, tanto de radicais islâmicos como de grupos de extrema direita.

O objetivo é observar que tipos de mensagens podem atingir potenciais extremistas antes que eles se tornem radicais — e, então, rapidamente repassar o modelo para produtores de conteúdo por toda a internet.

O estudo, detalhado em um relatório publicado pelo grupo de estudos londrino Instituto para o Diálogo Estratégico, que se concentra no combate ao extremismo global, é uma tentativa de entender quais técnicas funcionam, diz Yasmin Green, líder das iniciativas de combate à radicalização da Jigsaw, unidade da Alphabet anteriormente chamada de Google Ideas. “No fim do dia, é uma batalha de ideias”, diz Zahed Amanullah, diretor do programa de contranarrativas do instituto.

Uma série de ataques violentos cometidos por pessoas ou pequenos grupos radicalizados já matou centenas de pessoas na Europa, Ásia e nos Estados Unidos nos dois últimos meses. Em muitos casos, como os ataques em Nice, no sul da França, e em Orlando, na Flórida, materiais de propaganda e de uso da violência divulgados na internet são um incentivo importante para os autores dos ataques, dizem as autoridades.

A resposta dos governos tem sido, principalmente, exigir que empresas de tecnologia acelerem a remoção de conteúdo extremista nos seus serviços na internet.

Mas o Estado Islâmico é ágil para abrir novas contas e expandir sua propaganda para novos aplicativos, levando a um jogo de gato e rato. “É simplesmente impossível acabar com tudo”, diz Susan Benesch, professora associada do Centro Berkman Klein, da Universidade Harvard, nos EUA. “Mesmo se uma plataforma tiver sucesso em derrubar algo, geralmente esse conteúdo já está disponível em outro lugar.”

Além disso, as campanhas de convencimento lançadas por governos para combater a propaganda extremista geralmente fracassam. “Uma vez que as mensagens ganham o rótulo de ‘governo’, ela fica comprometida para muitos jovens”, diz uma autoridade francesa.

Foi em 2014, no Reino Unido, que o Instituto para Diálogos Estratégicos começou a trabalhar com a Alphabet em maneiras de direcionar melhor suas mensagens. Naquele projeto, o Google mostrou alguns resultados de buscas e vídeos patrocinados para pessoas de grupos demográficos selecionados que buscavam informações sobre radicalismo islâmico.

No novo estudo publicado no dia 1o. de agosto de 2016, os organizadores expandiram aquele primeiro trabalho para conteúdos diferentes no Twitter, YouTube e Facebook exibidos a usuários nos EUA, Reino Unido e Paquistão.

A Alphabet contribuiu com uma soma não revelada para financiar os vídeos realizados por três grupos de divulgação. O Facebook, o Twitter e o YouTube, que também é da Alphabet, doaram créditos de publicidade avaliados em quase 20 mil libras esterlinas, ou cerca de US$ 30 mil, quando as experiências foram realizadas, em outubro e novembro do ano passado.

A Average Mohamed, uma organização americana sem fins lucrativos, produziu vídeos animados, destinados a grupos de adolescentes dos EUA, que explicam o islamismo e criticam grupos jihadistas. Já a Harakat-ut-Taleem, administrada por um grupo anônimo do Paquistão, criou vídeos que tentam dissuadir as pessoas de se unirem ao Talibã.

Um terceiro projeto, chamado ExitUSA, tem extremistas raciais brancos como alvo e se concentra em pessoas que já se radicalizaram e querem sair desses grupos de supremacia branca ou os deixaram recentemente.

“Você acaba ficando desiludidos nesses grupos”, diz Tony McAleer, diretor executivo da organização sem fins lucrativos Life After Hate (Vida depois do ódio, em tradução livre), que criou o ExitUSA.

No fim dos experimentos, que duraram cerca de três semanas cada um, usuários da internet haviam sido expostos a alguns elementos das três campanhas por cerca de 1,6 milhão de vezes. Os vídeos, por exemplo, tiveram 379 mil visualizações no Facebook, Twitter ou YouTube. O impacto mais concreto foi em oito pessoas que pediram ajuda à Life After Hate para sair de grupos de supremacia branca.

Amanullah admite que é difícil dizer se as visualizações dos vídeos, as curtidas e os “retweets” podem ser correlacionados a uma redução no risco de as pessoas envolvidas se radicalizarem.

“A pergunta clássica é ‘Quantas pessoas você conseguiu impedir de virar terrorista?’, algo que você não consegue responder”, diz ele.

Amanullah acrescenta que os resultados mais promissores vieram de organizadores engajados na ampliação de conversas com pessoas que fizeram comentários nos vídeos. Quando os comentários foram negativos, isso abriu uma “janela para respostas”, diz ele. “Para alguém que tem visões radicais, abrir essa janela é uma grande oportunidade.”

2 thoughts on “Rede Social Contra Extremismo e Intolerância

  1. “(…) Uma vez que as mensagens ganham o rótulo de ‘governo’, ela fica comprometida para muitos jovens”, diz uma autoridade francesa.”

    A msg subliminar permanece e é reforçada: o mau é o Estado.

    1. Prezado Osmar,
      a dúvida é se a mensagem defende, corretamente, o credo liberal em política e costumes, ou se, incorretamente, propaga mais ainda o credo neoliberal em economia.

      O Estado é necessário para regular os excessos do livre-mercado, onde naturalmente os mais poderosos — em poder de mercado — sempre ganharão a competição. Além disso, é necessário para a Nação dar “saltos de etapas” na superação do atraso histórico, buscando alcançar a fronteira tecnológica, financeira e de cidadania.

      Os neoliberais, doutrinados no mundo idealizado de equilíbrio geral conduzido pelas livres forças do mercado, têm dificuldade de entender essa complexidade histórica: a dependência de trajetória caótica não convergente para um equilíbrio mundial que exige a intervenção e/ou regulação do Estado sem travar o mercado.
      att.

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