Por que o Fim do Austericídio seria um Suicídio para O Mercado

Renda Fixa de Países Emergentes

Michael Mackenzie (Financial Times apud Valor, 26/07/16) escreveu um interessante artigo sobre o temor dos especuladores internacionais a respeito de um “basta, passa fora, moleque” por parte das sociedades na onda imposta por O Mercado de políticas econômicas de austeridade, i.é, o depressivo “ajuste fiscal neoliberal”. Por razão didática, reproduzo-o abaixo.

À prova de choques. A alta resistência vem se sobressaindo como uma característica definidora dos mercados. Cada golpe que recebem tem vida curta e acaba dando aos investidores oportunidades de compra. Em um clima onde todos estão preocupados sobre qual vai ser o próximo evento a deixar os nervos em frangalhos, os últimos 12 meses foram marcados por surtos de agitação e previsões de trevas que acabaram durando pouco.

A lista inclui:

  1. a desvalorização cambial da China no fim de agosto de 2015;
  2. o mergulho das cotações das commodities, que por sua vez desencadeou a forte queda nos títulos de dívida de baixa qualidade das empresas de energia; e
  3. o temor de queda no crescimento da economia mundial em janeiro de 2015.

Outros estorvos mais recentes pelo caminho também não corresponderam aos prenúncios de terror para os mercados. O alarme inicial provocado pela grande sombra sobre os mercados lançada pela decisão britânica de sair da União Europeia e pelos créditos inadimplentes dos bancos italianos foi substituído por uma onda de tranquilidade. Em termos de desempenho, há o patamar recorde do índice S&P 500, enquanto o FTSE All World subiu 18% desde o ponto mais baixo, em fevereiro.

Uma explicação óbvia para a baixa ressonância dos choques no mercado é a política de dinheiro fácil dos BCs, que suaviza tanto as taxas de juros quanto a volatilidade dos mercados. Em um mundo no qual cerca de US$ 12 trilhões de títulos de dívida têm rendimentos abaixo de zero, muitos investidores acreditam que já chegamos aos limites da atuação dos BCs.

Bem-vindos à era do investimento em zonas de terremoto, onde os tremores de mercado são rotineiros e poucos acham que algum terremoto dos grandes vai acontecer. Para testar a condição à prova de choques dos mercados, portanto, é preciso sair dos manuais tradicionais atuais, que dominaram as finanças na esteira de crise financeira.

Oito anos de austeridade e o declínio prolongado das taxas de empréstimo dos bancos centrais e do rendimento dos bônus não foram suficientes para proporcionar um crescimento econômico sustentável. Daí a ascensão da política populista e a defesa cada vez mais frequente de estímulos fiscais. É o caminho sendo trilhado pelo Canadá. O Reino Unido pós-plebiscito também parece propenso a aliviar as amarras. Ambos os candidatos presidenciais dos EUA, mais especialmente Donald Trump, também voltaram o foco para o lado fiscal da equação de estímulos.

Enquanto isso, no Japão, o campo de testes para experimentos de política monetária nos últimos 20 anos, o assunto mais quente das conversas atuais gira em torno adespejar dinheiro de helicóptero“, quando o déficit no orçamento é financiado pelo aumento permanente na base monetária do banco central e não por meio de títulos governamentais.

De 160 gestores de fundos consultados pelo Bank of America Merrill Lynch neste mês, 39% preveem helicópteros despejando dinheiro nos próximos 12 meses. Em junho, a proporção era de 27%. Para a economia mundial como um todo, acredita-se que qualquer estímulo fiscal significativo por meio de gastos em infraestrutura e de dinheiro extra para os consumidores e/ou de alguma combinação de cortes nos impostos vai impulsionar o crescimento e elevar as expectativas inflacionárias.

Quando há estímulos fiscais, a recomendação é comprar papéis de empresas cíclicas em vez de ir atrás de dividendos ou de bônus de longo prazo. A questão é quanto de estímulo vai ser necessário para convencer os investidores de que isso funciona. Dada a busca extrema por rendimento dos últimos anos, a perspectiva de uma grande expansão fiscal, particularmente se materializada de forma uníssona por grandes economias, significaria uma sacudida significativa para muitas carteiras de investimento.

Acumular ações que pagam dividendos e títulos com vencimentos longos ajudou essa classe de ativos a atingir ganhos de 20% só no terceiro trimestre. A massa cada vez menor de títulos com rendimento positivo estimulou uma arremetida selvagem em direção a qualquer ativo com algum tipo de retorno fixo. Atualmente, investidores como fundos de pensão e fundos soberanos vêm injetando dinheiro em bônus de países emergentes em ritmo recorde, atraídos por rendimentos que continuam bem superiores aos do mundo desenvolvido.

O resultado? Um clássico “crowded trade” (quando todos apostam na mesma direção) e a história nos conta que esses episódios nunca terminam bem. Bastaria um leve e decisivo toque no interruptor fiscal afrouxando a austeridade para prenunciar um estouro da boiada para fora dos atuais setores de melhor desempenho dos mercados. O consequente aumento na volatilidade dos mercados levaria os investidores a evitar perdas vendendo seus papéis com base em modelos de gestão de risco – o que se conhece como choque de “valor em risco” (VAR).

Há um claro afastamento da austeridade em direção aos estímulos fiscais e um choque de VAR é um risco que pode estar aumentando. À medida que os rendimentos e a volatilidade sobem, os investidores embarcam em uma transferência para os papéis cíclicos, embora como tenhamos visto no terceiro trimestre de 2015, esse tipo de agitação nas ações é subsequentemente sobrepujado pela bagunça do mercado como um todo.

Por enquanto, a pressão por medidas fiscais prolongadas enquanto a política monetária atinge seus limites, continua sendo mais conversa do que atitudes concretas. Mas não se pode descartar o potencial para que provoque uma corrida em massa para a saída do que vem sendo uma busca incansável por rendimento. Resta apenas torcer para que os mercados simplesmente passem por outro tremor e não por um terremoto dos grandes.”

PS (FNC):

E no Brasil, hein? “Quando seu vizinho noticiar que entrou na Bolsa de Valores, é hora de sair…” O boom da Bovespa é sem fundamento! Puramente especulativo, baseado em falsas expectativas ideológicas que o Governo Golpista entregará a O Mercado tudo que ele deseja, logo que se perceber que o agravamento da depressão não resulta nos dividendos esperados, “o último que sair apague a luz do aeroporto!”🙂

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