Condenação da “Cruzada da Dilma” contra Juros Altos

Rentabilidade Mensal DP X IPCADepósitos de Poupança 2013-jun 2016

Um argumento golpista tem sido a chamada “Cruzada da Dilma” contra os juros altos na economia brasileira. Há anos, tanto os nominais, quanto os reais, se localizam no “topo do mundo”, isto é, nos primeiros lugares do ranking mundial. Não é uma desfaçatez – falta de vergonha, de pejo – apresentar esse argumento, um dito próprio de indivíduo descarado?!

Essa “cruzada” se constituiu em uma experiência inédita na história econômica recente do Brasil. No entanto, os economistas midiáticos logo saíram em defesa da riqueza financeira, pois ganham muito mais com a renda do capital financeiro do que com a renda do trabalho. Na defesa ideológica da “liberdade de O Mercado e contra a intervenção governamental” se apresenta um interesse particular concreto: o enriquecimento pessoal da maneira mais fácil, ganhando os maiores juros do mundo!

Contraditoriamente, este juro superior ao do resto do mundo é fruto de uma intervenção arbitrária da diretoria do Banco Central do Brasil, que constitui o COPOM (Comitê da Política Monetária), no mercado do dinheiro!

O principal fator expansionista da base monetária tem sido as operações cambiais do próprio Banco Central. Ao comprar dólares que abundam com a disparidade da taxa de juro brasileira face à internacional, aumenta a reserva cambial e provoca a abundância de liquidez. Este impacto monetário do balanço de pagamentos é esterilizado via operações de open Market.

Em outros termos, no gerenciamento do “excesso de liquidez”, por causa de sua paranoia quantitativista contra sua única meta, a inflação, a Autoridade Monetária usa e abusa de seu único instrumento de combate: a relação câmbio-juros. Gerencia a liquidez, diariamente, para a Selic-mercado atingir a Selic-meta. O Mercado a agradece pelo “círculo vicioso”: dólar depreciando-se entre a entrada e a saída, excesso de liquidez e juro alto…

Algum economista isento duvidaria se há auto interesse nas decisões dos dirigentes do Banco Central com um único mandato: combater – custe o que custar para a sociedade em termos de depressão e desemprego – a taxa de inflação pouco acima do teto da meta? Sob o ponto de vista da ética pública esses colegas que ganham com a taxa de juro elevadíssima deveriam se declarar impedidos de tomar tal decisão unilateral devido ao conflito de interesses!

Não à toa, juro em espanhol é interés, em francês é intérêt e, em inglês, taxa de juro é interest rate. Em “português brasileiro”, é taxa de interesse próprio.🙂

Em nome de que “sua meta é defender a renda real do trabalho“, a Autoridade Monetária acaba só beneficiando a renda do capital. Qual desempregado concorda com isso? Se seu poder aquisitivo, devido à remuneração mensal perdida, foi reduzido a zero?!

Se os neoliberais defendem – de fato e não de direito – um Banco Central independente, ele deveria ser como é em outros lugares do mundo: com um duplo mandato, isto é, responder tanto pela queda da taxa de inflação quanto pela do desemprego. Senão, essa missão “social” (sic) de só aumentar o juro torna-se o melhor emprego do mundo! É só elevar, eternamente, a taxa de juro que o sujeito ganha a renda de seu capital e a reputação profissional perante a O Mercado. Este ganha por essa ação discricionária, não só porque ela evita a “eutanásia do rentista” com também o compensa muito. Louva o dirigente do Banco Central por não ser dovish

Ser dovish se refere ao tom da linguagem usada para descrever uma situação e as implicações associadas para suas futuras ações: viés de alta ou de baixa. Por exemplo, se o Banco Central se refere à inflação em um tom dovish, é improvável que seus dirigentes tomarão ações agressivas. Dovish às vezes significa conciliador. É o oposto do hawkish.

Então, ser dovish descreve um comunicado do Banco Central indicando que ele pode reduzir as taxas de juros — tipo, “Mercado, previna-se, compre prefixados, pois o viés é de baixa”, ou “vá para pós-fixados, pois haverá alta de juros e MtM (marcação-a-mercado dos prefixados)”.. A declaração é chamada dovish porque indica que a Autoridade Monetária não acredita que a taxa de inflação é alta o suficiente para justificar preocupação.

Na prática, desde 1999, com a instalação da Velha Matriz Neoliberalessa instituição econômica brasileira se tornou extrativista, pois extrai renda da maior parcela da população, que paga impostos, em favor de uma minoria, que recebe juros. A política de obtenção de superávit primário tenta, em vão, cobrir o déficit nominal.

Bem, vamos aos números para testar a hipótese de que os golpistas de O Mercado, inclusive a casta dos industriais da FIESP que vive de rendimentos não-operacionais de suas empresas, se enfureceram contra a Dilma devido à sua “cruzada” em combate aos juros mais elevados do mundo. Jocosamente, apelidaram esta de “Nova Matriz Macroeconômica” em contraponto à Velha Matriz Neoliberal dos juros “sempre na lua”.

O que aconteceu com os depósitos da poupança, o mais popular instrumento de substituição da conta corrente bancária, já que não cobra tarifas e paga juros, embora muitas vezes tenha rendimento abaixo da taxa de inflação? Os números do próprio Banco Central demonstram de maneira cristalina. Confira a Tabela e o Gráfico acima.

Com a volta da Velha Matriz Neoliberal, quando o ex-administrador de recursos de terceiros no Bradesco, Joaquim Levy, tomou a direção do Ministério da Fazenda, a caderneta de poupança perdeu competitividade face aos fundos de investimentos financeiros. Sintomático, não? Desde janeiro de 2015, com exceção do mês do pagamento do décimo-terceiro (dezembro de 2015), a captação líquida tornou-se negativa, isto é, mensalmente sai mais recursos do que entra em depósitos de poupança.

Compare com os demais produtos financeiros nas seguintes tabelas.

M4 2010-jun 2016

Primeiro, M1 e depósitos de poupança (DP) perderam competitividade e Market-share a partir da retomada abrupta da elevação da taxa de juro em 17 de abril de 2013, simplesmente, porque o IPCA de 12 meses em março de 2013 atingiu 6,59% a.a., dada a quebra de oferta de alimentos com a seca ocorrida na virada-do-ano: 0,79% em dezembro e 0,86% em janeiro. A Selic saiu de 7,25% a.a. e subiu continuamente até 14,25% em 29 de julho de 2015, ou seja, há um ano está nesse elevado patamar, em que pese a queda da taxa de inflação de 1,27% a.m. em janeiro de 2016 para 0,35% em junho e 0,40% em julho.

Isso resulta em um aumento expressivo da taxa de juro real, oferecida em outros produtos financeiros remunerados em % de CDI: CDB/LCI/LCA e FIFs retomam participação no M4 (Meios de Pagamentos Amplos) com a contínua elevação dos juros. Também com o decorrente desemprego há retiradas de depósitos de poupança para garantir a sobrevivência.

M4 X PIB 2010-jun 2016

Segundo, os mesmos Meios de Pagamentos Amplos quando apresentados em relação à renda dos investidores, cuja proxy agregada é o PIB, dão a perceber que os juros compostos resultam em crescimento das participações relativas do capital acumulado. No agregado M4, estas participações saem de 78,2% e vão para 96,7% do PIB, principalmente, devido aos Haveres Não-Monetários, isto é, ativos financeiros que remuneram com juros. Isto indica uma maior absorção financeira do excedente econômico gerado (ou valor agregado) a cada ano para capitalizar esse saldo.

Haveres Financeiros 2010-jun 2016

Finalmente, um exercício interessante é estimar quanto as aplicações financeiras se avolumam por “sobras de renda” (principalmente do trabalho) ou por capitalização dos juros, ou seja, por renda do capital financeiro que é incorporada ao principal cumulativamente. Para se aproximar dessa realidade, na tabela acima, a cada Haver Financeiro Não-Monetário, há uma primeira coluna (em R$ mil) com valores reais verificados e uma segunda coluna com valores hipotéticos capitalizados com a taxa média diária de juros anualizada em 252 dias úteis sobre o saldo real do fim do ano anterior. Em uma terceira coluna, calcula-se a diferença entre a primeira e a segunda.

Então, quando as diferenças entre o real e o hipotético são positivas, indicam entrada de novos recursos naquele produto financeiro; quando as diferenças são negativas, indicam saída de recursos daquele produto financeiro. Por essas proxies, os títulos privados em poder do público (CDB/LCI/LCA, etc.) perderam recursos durante a “cruzada” (tendência de queda da taxa de juro) e depois se mantiveram relativamente “intocáveis”. Dado o incentivo fiscal, a opção certeira foi deixar os saldos se capitalizando, ou seja, os juros compostos fazendo seu trabalho enquanto os investidores assistiam passivamente o enriquecimento crescente.

Os investidores optaram por retirar parte de  recursos dos Fundos de Renda Fixa (LTNs) e de Índices de Preço (NTN-Bs) em 2013, pois perderam dinheiro com a “marcação-a-mercado” (Market-to-Market) dos prefixados, devido à retomada da elevação dos juros. Optaram por investi-lo, principalmente, em LCI e LCA pós-fixados (% de CDI), respectivamente, um funding mais caro para a Caixa e o Banco do Brasil. No discurso de posse como Ministro da Fazenda, o ex-administrador de recursos de terceiros no Bradesco, Joaquim Levy, já demonstrava indignação com isso. Viu, depois, que há sério ônus social com a retirada de fontes de financiamento dos bancos públicos.

Distribuição por Produto Bancário dez 2015

PS:

Em comparação ao patrimônio líquido reunido pelos Fundos de Investimentos Financeiros, de R$ 3,250 trilhões ao fim de julho de 2016, a captação líquida no ano equivale a 1,66% do total, o que quer dizer que, no conjunto, os diversos tipos de fundos não crescem nem a variação do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), de 7,9%, referência de desempenho para a maior parte dos portfólios.

Os Fundos de Renda Fixa receberam de ingressos no ano R$ 26,8 bilhões, em comparação aos R$ 24 bilhões registrados entre janeiro de julho de 2015. Os Fundos Multimercados têm em 2016 a conta ainda positiva em R$ 1,8 bilhão. No acumulado dos primeiro sete meses de 2015, essas carteiras tiveram saques de R$ 24,6 bilhões.

Atualmente, há uma menor concorrência de títulos isentos, como Letras de Crédito imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) ou Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), emissões que rechearam a carteira da pessoa física no ano passado. Agora, com o lastro mais escasso para estruturar essas operações em meio a um mercado de crédito menos ativo, a percepção é que há um certo equilíbrio no direcionamento dos recursos.

Os bilionários recursos sacados das Cadernetas de Poupanças, com saídas líquidas de R$ 43,7 bilhões até julho de 2016, também não vêm sendo endereçados aos fundos. Analistas do mercado argumentam que, “no caso da poupança, as pessoas estão usando suas economias para despesas correntes, enquanto os fundos não crescem no ritmo esperado porque não há geração de riqueza”. Ora, se os depósitos de poupança são sacados para consumo, os comerciantes que venderam bens e os prestadores de serviços devem ter investido a sobra além da recomposição de estoques em investimentos financeiros, não?

Os Fundos de Ações ainda estão no vermelho, com saques de R$ 6,3 bilhões no ano, apesar de a rentabilidade nas diversas categorias ser superior a 20% em 2016. A alocação em renda variável representava 8,7%, de uma participação que beirou os 15% nos anos em que o Brasil exibia juro de um dígito.

Na distribuição de ativos, 69% do patrimônio dos Fundos estava em maio de 2016 – último dado disponível – em títulos públicos federais ou em operações compromissadas. Esse percentual é a parcela liquidamente investida pelo setor, pois o saldo não inclui a exposição a risco em derivativos

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