Pergunta-Chave: Economistas são necessários?

Relação:C:V 1991-1996-2002Número de Cursos Matrículas e Concluintes 1990-95-2002A queda da relação candidato / vaga do curso de Economia em IES privada vem desde a Era Neoliberal (1990-2002) como a Tabela 3 acima indica. Em que pese isso, a oferta de vagas em faculdades privadas continuou se expandindo.

Em 2014, formaram-se 5.569 economistas, ou seja, número abaixo do de 2002 (7.654) e pouco acima do de 1990 (5.343) — ver Tabela 4. Grosso modo, nesse quarto de século, é possível estimar que graduou-se um número próximo de 150 mil economistas. Será que todos estão ocupados? Exercem a profissão?

Face ao debate a respeito dos motivos da queda da demanda por cursos de Economia que não pertencem a centros de ensino de excelência, é comum se confundir demanda por formação em Ciências Econômicas com demanda do mercado de trabalho. Para essa hipótese ser verdadeira, os adolescentes-vestibulandos teriam informações perfeitas sobre flutuações da conjuntura econômica! E, sendo assim, dispensariam estudar Economia…

Formalmente, os cursos de graduação em Ciências Econômicas devem possibilitar a formação profissional que revele, pelo menos, as seguintes competências e habilidades um tanto tautológicas, i.é, usa-se palavras diferentes para expressar uma mesma ideia, redundância, pleonasmo:

I – desenvolver raciocínios logicamente consistentes;

II – ler e compreender textos econômicos;

III – elaborar pareceres, relatórios, trabalhos e textos na área econômica;

IV – utilizar adequadamente conceitos teóricos fundamentais da Ciência Econômica;

V – utilizar o instrumental econômico para analisar situações históricas concretas;

VI – utilizar formulações matemáticas e estatísticas na análise dos fenômenos socioeconômicos; e

VII – diferenciar correntes teóricas a partir de distintas políticas econômicas.

Prefiro dizer que o economista necessita adquirir as seguintes habilidades:

  1. Análise de decisões práticas (microeconômica)
  2. Análise de contextos sistêmicos (macroeconômica)
  3. Análise de experiências do passado (histórica)
  4. Análise de conjuntura (atualizada)
  5. Análise de intérpretes do capitalismo (teórica)
  6. Análise da dependência funcional ou interdependência entre duas ou mais variáveis aleatórias (estatística e/ou econométrica)
  7. Análise setorial (especializada)
  8. Elaboração de projeto de investimento (pessoal, empresarial ou nacional)

O graduado em Ciências Econômicas deveria apresentar um perfil centrado em:

  • sólida formação geral e com domínio técnico dos estudos relacionados com a formação teórico-quantitativa e teórico-prática, peculiares ao curso,
  • além da visão histórica do pensamento econômico aplicado à realidade brasileira e ao contexto mundial, exigidos os seguintes pressupostos:

I – uma base cultural ampla, que possibilite o entendimento das questões econômicas no seu contexto histórico-social;

II – capacidade de tomada de decisões e de resolução de problemas em uma realidade diversificada e em constante transformação;

III – capacidade analítica, visão crítica e competência para adquirir novos conhecimentos; e

IV – domínio das habilidades relativas à efetiva comunicação e expressão oral e escrita.

Então, a questão-chave diz respeito ao perfil do profissional que tem sido formado por cursos de Economia que tiveram queda de demanda. Ele obteve capacitação e aptidão para compreender as questões científicas, técnicas, sociais e políticas relacionadas com a economia? Ele revela potencial para assimilação e domínio de novas informações, flexibilidade intelectual e adaptabilidade? Tem sólida consciência social, indispensável ao enfrentamento de situações e transformações político-econômicas e sociais, contextualizadas, na sociedade brasileira e no conjunto das funções econômicas mundiais?

É necessário um exame de consciência dos formadores de economistas. Serão que não estão apenas doutrinando crentes para pregação apológica de O Mercado como Deus ou idólatras de Keynes?

Os Centros Associados à ANPEC (Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia) se multiplicaram, ou melhor, auto reproduziram extraordinariamente. Confira em http://www.anpec.org.br/novosite/br/centros-associados:

CAEN/UFC

CEDEPLAR/UFMG

EPGE/FGV-RJ

EESP/FGV-SP

IE/UFRJ

IE/UNICAMP

IPE/USP

PCE/UEM

PIMES/UFPE

PPGCE/UERJ

PPGDE/UFPR

PPGDSTU-NAEA/UFPA

PPGE/PUC-RS 
PPGE/UFBA

PPGE-JP/UFPB

PPGE/UFRGS

PPGE/UFU

PPGE/USP-RP

PPGEA/UFJF

PPGEA/UFV

PPGEA/USP-ESALQ

PPGECO/UFSC

PUC-RJ

PUC-SP

UCB

UFF

UnB

São 27! Mais do que os 26 estados brasileiros! Além destes centros, também participam do Exame Nacional de Seleção  mais os 19 seguintes:

INSPER

ME/UFAL

ME/UFV

NUPEC/UFS

PPE/UEL

PPE/UFG

PPEA/UFOP

PPED/UNIFESP

PPGE/UFPA

PPGE/Unisinos

PPGE/Mar-FURG

PPGEC/UFSCAR

PPGECO/UFES

PPGECO/UFRN

PPGECON/UFPE

PPGE&D/UFSM

PPGOM/UFPel

UNESP

UNIOESTE

Se o número de 50 professores da pós-graduação do IE-UNICAMP fosse uma média representativa de cada centro, haveria cerca de 2.300 professores de Economia formando futuros professores de Economia! Em relação à demanda social, sem dúvida, estariam sobrando economistas… E faltando médicos.

Pela Sinopse Estatística do Ensino Superior de 2014, existem 252 cursos de graduação presenciais em Economia, sendo 141 em Universidades públicas e 111 de IES privadas. Eles ofereceram 19.818 vagas para 101.471 candidatos inscritos, resultando em uma relação de 5 candidatos / vaga (C/V). Em outro post mostrei que, em centros de excelência em ensino, essa relação é bem superior, por exemplo, atingindo no IE-UNICAMP 24,5 no curso integral e 22,2 no noturno no ano de 2014.

Mesmo com essa baixa C/V, houve apenas 12.432 ingressos naquele ano, ou seja, 7.386 vagas não foram preenchidas. Isto representou 37% de vagas ociosas! Haja Prouni e Fies para preencherem essa capacidade ociosa…

Mas a “prova-definitiva” ou teste da hipótese é examinar ao acaso um artigo, por exemplo, o que saiu publicado hoje (26/07/17) na seção Opinião do principal jornal econômico do País. A “opinião pública” que o lê gostaria de ser economista?

Embora leviano, é engraçado pensar se vale a pena reproduzir economistas em série para dizerem apenas clichês – frase frequentemente rebuscada que se banaliza por ser muito repetida, transformando-se em unidade linguística estereotipada, de fácil emprego pelo emissor e fácil compreensão pelo receptor. Trata-se de um amontoado de lugar-comum e chavão neoliberal. Essa amostra aleatória é representativa, pois o autor é mestre em economia pela PUC-Rio de Janeiro e economista do Itau-Unibanco.🙂

Veja se concorda comigo de que as 41 frases abaixo não passam de clichês dispensáveis pela sociedade, porém, indispensáveis no repetitivo, inócuo e vazio jargão de economista moldado em forma-única. Infelizmente, este é o pensamento (sic) dominante na nossa profissão, onde o pensamento dissidente e crítico é discriminado e, simplesmente, afastado do debate público na mídia brasileira

  1. “Vem sendo um longo e frio inverno.
  2. A economia brasileira entrou em recessão no segundo trimestre de 2014 (antes mesmo do 7×1) [!] e não saiu até agora.
  3. O clima, no entanto, está mudando.
  4. As sondagens com indústria e consumidor começam a mostrar uma volta importante da confiança, especialmente por conta de expectativas melhores no futuro (veja o gráfico).
  5. Os estoques na economia vêm recuando e os custos de produção estão menos pressionados.
  6. A perspectiva de uma política econômica mais estável e eficiente, que leve à queda da inflação e das taxas de juros, reforça a percepção de melhora da economia.
  7. O otimismo também contagiou o mercado financeiro.
  8. O Ibovespa subiu 30% este ano (50% desde o vale, em meados de janeiro) e a taxa de câmbio se valorizou quase 20%.
  9. Mas os ativos brasileiros apresentaram um desempenho acima da média dos emergentes, por conta dos fatores domésticos.
  10. Esta melhora da confiança e do ambiente de mercado é fundamental para a retomada da atividade.
  11. A confiança desperta o ‘espírito animal’ dos agentes econômicos, que voltam a investir e consumir, fazendo a roda da economia girar.
  12. No entanto, a confiança não funciona como instrumento mágico que, por si só, pode sustentar o crescimento.
  13. Como ensinava um professor do tempo do mestrado, não se trata de “hocus-pocus economics”: as expectativas têm uma contrapartida direta com a realidade.
  14. Sem uma melhora dos fundamentos, cedo ou tarde as expectativas voltam a piorar.
  15. E como estão os fundamentos da economia brasileira?
  16. Em boa parte, de fato melhores do que no passado recente.
  17. A taxa de câmbio está mais próxima de seu equilíbrio, o que permitiu o ajuste das contas externas.
  18. Os preços administrados se realinharam, e, depois de um período de alta, a inflação começa a recuar.
  19. O excesso de oferta gerado pela demanda artificialmente inflada vem sendo corrigido, ainda que com o penoso custo de demissões e fechamento de plantas e pontos comerciais.
  20. A política econômica parece mais coesa e alinhada com a busca da eficiência. [Destaque para este clichê, sem usar essa palavrinha um economista neoliberal emudece…]
  21. O fundamental ajuste das contas públicas, no entanto, ainda está por vir.
  22. Não adianta uma nova equipe de bordo, motor mais potente, ajustes na aerodinâmica, se persiste o rombo no casco do navio.
  23. O comprometimento da equipe econômica com o ajuste fiscal está claro, mas sabemos que o processo é longo e difícil.
  24. O limite para o crescimento dos gastos é importante, mas não basta.
  25. São necessárias medidas que tornem factível seu cumprimento.
  26. A lista é longa, começando pela reforma da previdência, desvinculações, e passando por racionalização de gastos em diversas frentes.
  27. É preciso também equacionar as finanças de Estados e municípios e de algumas empresas estatais.
  28. E mesmo com estas medidas implementadas, o resultado primário (receitas menos despesas não financeiras) deve continuar negativo até 2020, pressionando a dívida pública.
  29. Para um ajuste mais tempestivo será importante acelerar as concessões públicas e buscar outras receitas extraordinárias.
  30. Um aumento de carga tributária também não foi descartado pelo governo.
  31. Se o ajuste fiscal não progredir, o déficit se perpetuará, com reflexos na percepção de risco Brasil.
  32. Os ativos financeiros podem voltar a perder valor, especialmente a taxa de câmbio, pressionando a inflação.
  33. O espaço para cortes de juros ficaria menor, pesando sobre a retomada da economia.
  34. Juros mais altos e crescimento menor piorariam a dinâmica da dívida pública, realimentando as preocupações fiscais.
  35. Desta forma, apesar dos avanços e das claras intenções da equipe econômica, é cedo para afirmar que o trem da economia brasileira voltou para o trilho.
  36. É compreensível que, antes das definições políticas de agosto, as medidas mais complexas fiquem de molho.
  37. Mas depois disso, o tempo é curto e a sensibilidade dos mercados pode ser maior.
  38. As perspectivas melhoraram para a economia brasileira, algo perceptível nas interações com o setor real e nos preços dos ativos financeiros.
  39. Há razões para o otimismo, mas é cedo para relaxar.
  40. As contas públicas seguem deficitárias e o grau de alavancagem pública e privada ainda é elevado.
  41. É fundamental que as reformas avancem para que a melhora da confiança se sustente e efetivamente impulsione a economia.”

 

Post-scriptum: quanto à pergunta do título, minha resposta é que o conhecimento de Economia é necessário, porém tem sido muito insuficiente para minha corporação profissional, que comemora amanhã (13 de agosto) o dia de reconhecimento de sua profissão, ocorrido em 1951 — um mês e meio antes de eu nascer (predestinado) –, colaborar com o desenvolvimento econômico. Já os economistas

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