Breve História da Desigualdade (por J. Bradford DeLong)

Populismo - LulaJ. Bradford DeLong é professor de Economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica. Escreveu artigo (Valor, 28/07/16), onde deveria ter definido, previamente ao núcleo de sua argumentação, o que exatamente entende por “populismo“.

Sob esse rótulo, o pensamento político tem caracterizado as manifestações em que o povo estabelece conexão direta com uma liderança, desestabilizando a democracia representativa, monopolizada por políticos dinásticos e corruptos. Já os intelectuais esnobes o definem como a compaixão pelos mais pobres que sofrerão os efeitos de “medidas impopulares”. Estas prejudicarão o povo em nome de incentivar os empresários a, no futuro, oferecerem empregos a quem desempregam no presente

Barry Eichengreen, economista de Berkeley, recentemente deu uma palestra em Lisboa sobre desigualdade que comprovou uma das virtudes de ser um estudioso da história econômica. Eichengreen, como eu, explora prazerosamente as complexidades de cada situação, evitando simplificações exageradas, em busca de clareza conceitual. Essa postura refreia o impulso de tentar explicar mais sobre o mundo do que podemos saber com um modelo simples.

De seu ponto de vista, no que diz respeito à desigualdade, Eichengreen identificou seis processos fundamentais em ação ao longo dos últimos 250 anos.

O primeiro é a ampliação da distribuição de renda no Reino Unido entre 1750 e 1850, à medida que os ganhos com a revolução industrial britânica foram canalizados para a classe média urbana e rural, mas não para os pobres urbanos e rurais.

Em segundo lugar, entre 1750 e 1975, a distribuição de renda também ampliou-se em nível mundial, quando algumas regiões do mundo materializaram ganhos proporcionados por tecnologias industriais e pós-industriais, embora outras, não. Por exemplo, em 1800, a paridade de poder de compra americana era o dobro da chinesa; em 1975 era 30 vezes maior que a chinesa.

O terceiro processo é o conhecido como “Primeira Era da Globalização”, entre 1850 e 1914, quando os padrões de vida e os níveis de produtividade do trabalho convergiram no mundo setentrional. Durante esse período, 50 milhões de pessoas deixaram uma Europa agrícola superpovoada em busca de novos assentamentos ricos em recursos naturais. Eles trouxeram consigo suas instituições, tecnologias e capital, e o diferencial salarial entre a Europa e essas novas economias diminuiu de cerca de 100% para 25%.

Isso coincidiu predominantemente com a “Era Dourada” entre 1870 e 1914 [conhecida também como a Era dos “Barões Ladrões”], quando a desigualdade doméstica aumentou no mundo setentrional à medida que o empreendedorismo, a industrialização e manipulação financeira canalizaram novos ganhos, principalmente para as famílias mais ricas.

A desigualdade durante a “Era Dourada” foi significativamente revertida durante o período da social-democracia no mundo setentrional entre 1930 e 1980, quando impostos mais altos sobre os ricos ajudaram a bancar novos benefícios e programas governamentais. [FNC: o autor se esquece da destruição da riqueza ocorrida durante as duas guerras mundiais, a hiperinflação alemã, o crash de 1929 e a Grande Depressão dos anos 30.]

Mas a fase seguinte, e última, nos leva ao momento atual, quando opções de política econômica mais uma vez resultaram em uma ampliação da distribuição dos ganhos no mundo setentrional, dando início a uma nova “Era Dourada”.

Os seis processos referidos por Eichengreen que afetam a desigualdade são um bom ponto de partida. Mas eu iria além e adicionaria outros seis.

Primeiro, há a obstinada persistência da pobreza absoluta em alguns lugares, apesar da extraordinária redução generalizada dessa pobreza a partir de 1980. Conforme observa Ananya Roy, estudioso da UCLA, as pessoas em situação de pobreza absoluta são privadas tanto de oportunidades como dos meios para mudar sua condição de vida. Falta-lhes o que o filósofo Isaiah Berlin denominava “liberdade positiva” – capacitação para autoempoderamento -, assim como “liberdade negativa“, ou ausência de obstáculos nos caminhos pessoais para agir. Vista por esse prisma, a desigualdade é uma distribuição desigual não só de riqueza, mas também da liberdade.

Em segundo lugar, vem a abolição da escravatura em muitas partes do mundo durante o século XIX, seguida, em terceiro lugar, pelo relaxamento mundial, ao longo do tempo, de outras restrições fundadas em castas – raça, etnia, gênero – que privaram até mesmo algumas pessoas possuidoras de riqueza das oportunidades de usá-la.

O quarto processo consiste de duas gerações de intenso crescimento na China e de uma geração de forte crescimento na Índia, que têm constituído um fator significativo subjacente à convergência da riqueza mundial desde 1975.

Em quinto lugar, há a dinâmica dos juros compostos, que por meio de arranjos políticos favoráveis permite aos ricos derivar lucros da economia sem criar qualquer nova riqueza. Como observou economista francês Thomas Piketty, esse processo pode ter desempenhado algum papel em nosso passado, e certamente desempenhará um papel ainda maior em nosso futuro.

Nesse ponto, deveria ficar claro por que iniciei este artigo referindo-me à complexidade da história econômica. Essa complexidade implica que qualquer ajuste em nossa Economia Política deve ser:

  1. baseado em Ciência Social sólida e
  2. conduzido por líderes eleitos que realmente atuem no interesse do povo.

Ao enfatizar a complexidade, chego ao último fator que afeta a desigualdade – possivelmente o mais importante de todos: as mobilizações populistas. As democracias são propensas a revoltas populistas, especialmente quando a desigualdade está em alta. Mas o histórico de tais revoltas deve fazer refletir.

Na França, as mobilizações populistas instalaram um imperador – Napoleão III, que liderou um golpe de Estado em 1851 – e derrubou governos democraticamente eleitos durante a Terceira República. Nos EUA, elas estiveram na base da discriminação contra imigrantes e sustentou a era Jim Crow de segregação racial legal.

Na Europa Central, mobilizações populistas desencadearam conquistas imperiais sob a bandeira do internacionalismo proletário. Na União Soviética, elas ajudaram Vladimir Lenin a consolidar o poder, com consequências desastrosas que foram superadas apenas pelos horrores do nazismo, que também chegou ao poder em uma onda populista.

Reações populistas construtivas à desigualdade são em menor número, mas elas certamente precisam ser mencionadas. Em alguns casos, o populismo ajudou:

  1. a estender os direitos sociais;
  2. a por em prática um imposto de renda progressivo e a seguridade social;
  3. a formar capital físico e humano;
  4. a abrir economias;
  5. a priorizar o pleno emprego; e
  6. a incentivar migrações.

A história nos ensina que essas últimas reações à desigualdade tornaram o mundo um lugar melhor. Infelizmente – e correndo o risco de simplificação excessiva – nós geralmente não damos ouvidos às lições da história.

[FNC: esse truque retórico — imputar tudo de ruim ocorrido na história mundial, inclusive o totalitarismo soviético e o nazista, à pretensa fonte de todos os males (“o populismo“) — é demasiadamente simplório…]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s