Risco do Populismo de Direita: Nacionalismo, Xenofobia e Protecionismo

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Martin Wolf é editor e principal abalista econômico do FT. Publicou artigo (apud Valor, 20/07/16) que coloca em questão o populismo de direita.

“Para cada problema complexo existe uma solução clara, simples e errada”. Ao cunhar a frase, H.L. Mencken [ jornalista e escritor americano] poderia estar pensando na política atual. O mundo ocidental indubitavelmente se defronta com problemas complexos, notadamente a insatisfação de tantos cidadãos. No mesmo sentido, aspirantes ao poder, como Donald Trump nos Estados Unidos e Marine Le Pen na França, oferecem soluções claras, simples e erradas – notadamente, o nacionalismo, a xenofobia e o protecionismo.

As soluções que oferecem são falsas. Mas as doenças são reais. Se as elites governantes continuarem a não oferecer curas convincentes, poderão em breve ser varridas do mapa e, com elas, os esforços para aliar o autogoverno democrático a uma ordem mundial aberta e baseada na cooperação.

Qual é a explicação para essa reação adversa? Uma grande parte da resposta deve ser econômica. O crescimento da prosperidade é um bem em si mesmo. Mas cria também a possibilidade da política de soma positiva. Isso serve de base para a democracia porque torna viável para todos melhorar de situação ao mesmo tempo. A crescente prosperidade reconcilia as pessoas com a ruptura econômica e social. Sua ausência fomenta a fúria.

A prolongada estagnação, as revoltas culturais e os fracassos das políticas públicas estão se associando para abalar o equilíbrio entre legitimidade democrática e ordem mundial. Os que recusam a solução chauvinista precisam se apresentar com ideias criativas.

O McKinsey Global Institute lança poderosa luz sobre o que vem acontecendo em relatório significativamente intitulado “Poorer than their Parents?” (“Mais Pobres que Seus Pais?”), que demonstra o quanto muitas famílias sofrem em decorrência da queda ou estagnação da renda real. Em média, entre 65% e 70% das famílias de 25 economias de alta renda passaram por isso entre 2005 e 2014. No período entre 1993 e 2005, no entanto, apenas 2% das famílias sofreram em decorrência da queda ou estagnação da renda real. Isso também é verdadeiro em relação à renda do mercado. Devido à redistribuição fiscal, a proporção dos que sofrem com a estagnação das rendas reais disponíveis ficou entre 20% e 25%.

O McKinsey apurou o grau de satisfação pessoal por meio de uma sondagem entre 6 mil franceses, britânicos e americanos. Os consultores detectaram que a satisfação depende mais de as pessoas estarem avançando em relação a outras pessoas na mesma situação no passado do que de estarem melhorando em relação a outras em melhor situação do que elas nos dias atuais. Portanto, as pessoas preferem melhorar de situação, mesmo que não se equiparem aos seus contemporâneos que estão em situação ainda melhor.

A estagnação da renda incomoda mais as pessoas do que o aumento da desigualdade. A principal explicação para a longa estagnação da renda real são as crises financeiras e a fragilidade das recuperações subsequentes. Essas experiências aniquilaram a confiança popular na competência e na integridade das elites empresariais, administrativas e políticas. Mas outras mudanças também foram prejudiciais. Entre elas estão o envelhecimento da população (especialmente importante na Itália) e a queda da participação dos salários na renda nacional (especialmente importante nos Estados Unidos, Reino Unido e Holanda).

A estagnação da renda real durante um período muito mais longo do que qualquer outro desde a Segunda Guerra Mundial é um fato político fundamental. Mas não pode ser o único determinante da insatisfação. Para muitos grupos situados na porção média da distribuição de renda, as mudanças culturais também parecem ameaçadoras. O mesmo ocorre com a imigração – a corporificação da globalização. A cidadania em seus países é o bem mais valioso da maioria das pessoas nas nações ricas. Elas se ressentem de compartilhá-la com pessoas de fora. A vitória no plebiscito da saída do Reino Unido da União Europeia (UE) foi uma advertência.

O que fazer, então? Se Trump se tornar o presidente dos EUA, pode já ser tarde demais. Mas suponhamos que isso não aconteça ou que, se acontecer, o resultado não seja tão terrível quanto eu temo. O que poderia ser feito então?

Em primeiro lugar, entender que dependemos uns dos outros para sermos prósperos. É essencial contrabalançar afirmações de soberania com as exigências da cooperação mundial. A governança mundial, embora essencial, tem de se voltar para fazer coisas que os países não conseguem fazer sozinhos. Precisa focar em prover os bens públicos mundiais essenciais. Atualmente isso significa que a mudança climática é uma prioridade maior do que aprofundar a abertura do comércio mundial e dos fluxos de capital.

Em segundo lugar, reformar o capitalismo. O papel da esfera financeira é exagerado. A estabilidade do sistema financeiro melhorou. Mas continua crivado de incentivos perversos. Os interesses dos acionistas têm peso exagerado em relação aos dos demais detentores nas corporações.

Em terceiro lugar, focar a cooperação internacional nos aspectos em que ela ajuda os governos a conquistar objetivos internos significativos. Talvez o mais importante seja a tributação. Os detentores de riqueza, que dependem da segurança criada por democracias legítimas, não deveriam fugir à tributação.

Em quarto lugar, acelerar o crescimento da economia e aprimorar as oportunidades. Parte da solução é um apoio mais sólido à demanda agregada, especialmente na zona do euro. Mas também é essencial promover o investimento e a inovação. Pode ser impossível transformar as perspectivas econômicas. Mas salários mínimos mais elevados e incentivos fiscais generosos para a população trabalhadora são instrumentos eficazes para aumentar a renda na base da distribuição.

Em quinto lugar, combater os charlatões. É impossível resistir às pressões em favor do controle dos afluxos de trabalhadores sem qualificação às economias avançadas. Mas isso não transformará os salários. No mesmo sentido, a proteção contra os produtos importados é onerosa e também não será eficaz em aumentar de maneira significativa a participação da indústria de transformação no nível de emprego. É verdade que essa participação é muito mais alta na Alemanha do que nos EUA ou no Reino Unido. Mas a Alemanha tem um superávit enorme da balança comercial e tem uma sólida vantagem comparativa na indústria de transformação. Essa não é uma situação generalizável.

Acima de tudo, reconhecer o desafio. A prolongada estagnação, as revoltas culturais e os fracassos das políticas públicas estão se associando para abalar o equilíbrio entre legitimidade democrática e ordem mundial. A candidatura de Trump é resultado disso. Os que recusam a solução chauvinista precisam se apresentar com ideias criativas e ambiciosas voltadas para o restabelecimento desse equilíbrio. Não vai ser fácil. Mas não se pode aceitar o fracasso. A nossa própria civilização está em jogo.”

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