Análise de Balanços dos Clubes de Futebol

Balanços dos times de futebol

Fernando Torres (Valor, 21/07/16) avalia que um título expressivo para o Flamengo seria uma das melhores coisas que poderiam ocorrer para melhorar as finanças dos clubes brasileiros de futebol.

A agremiação ganhou fama nas últimas décadas pelo atraso no pagamento de salários de jogadores e de impostos e ainda tem uma das maiores dívidas entre os grandes clubes do país.

Mas começou a entrar na linha no aspecto financeiro nos últimos anos e é o destaque individual de um extenso estudo do Itaú BBA sobre o desempenho financeiro de 29 agremiações de futebol, sendo dono da maior receita e responsável, sozinho, por 41% do resultado operacional recorrente desse conjunto de clubes em 2015.

Contudo, a falta de um título relevante recente – o último foi uma Copa do Brasil em 2013 – pode passar a falsa impressão de que um balanço no azul nada a tem a ver com bons resultados dentro de campo. “O imediatismo das análises dá margem para se dizer que a boa gestão não é positiva”, diz Cesar Grafietti, superintendente de crédito do Itaú BBA, que coordenou o trabalho – e que não é flamenguista.

Sob o aspecto geral, a principal conclusão que se extrai das 217 páginas do estudo é que as finanças dos principais clubes do país pararam de piorar em 2015. Mas ainda não há motivo para comemorar.

As receitas cresceram 15% no ano passado, para R$ 3,64 bilhões, enquanto custos e despesas ficaram praticamente congelados – caíram de R$ 2,79 bilhões para R$ 2,76 bilhões.

Essa combinação de fatores deixou os clubes com resultado operacional medido pelo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$ 764 milhões em 2015. E mesmo ao se descontar as receitas não recorrentes com venda de atletas, o Ebitda ainda ficou positivo, em R$ 309 milhões, algo que não se via desde 2012.

Esse resultado, contudo, não é uniforme. O Flamengo, e também o Palmeiras, que melhorou bastante seu desempenho financeiro em 2015, “explicam” 85% do Ebitda recorrente do ano passado. Dos 29 clubes, 18 ficaram com esse indicador negativo.

Além disso, quando se usa como referência a receita líquida total e se inclui na conta dos dispêndios o que os clubes gastaram com investimentos nas categorias de base e na compra de atletas, bem como o pagamento de juros sobre a dívida financeira – numa óptica de fluxo de caixa, portanto -, praticamente todos ficaram no vermelho nos últimos dois anos.

Embora o déficit de caixa no ano passado, de R$ 81 milhões, tenha sido menor que o buraco de R$ 491 milhões de 2014, essa é a realidade do conjunto de clubes ao menos desde 2012, segundo o estudo do Itaú BBA.

E os clubes precisam correr contra o tempo para melhorar as contas. Isso porque até 2020 eles contarão com descontos nas parcelas de amortização das dívidas tributárias de R$ 3,2 bilhões que foram alongadas por 20 anos pelo governo federal, no âmbito do Profut. Em 2016, por exemplo, os clubes da amostra terão que desembolsar R$ 92 milhões em amortização. Mas esse valor vai crescendo ano a ano até chegar a R$ 176 milhões a partir de 2021.

Embora o próprio estudo aponte que a diferença de renda entre o brasileiro e o europeu descarte qualquer sonho de que os clubes locais multipliquem seu faturamento no curto e médio prazos, Grafietti entende que há espaço para melhora nas finanças, tanto do lado das receitas como de custos e despesas.

Os dados mostram que a receita que mais tem crescido nos últimos anos é aquela referente à venda de direitos transmissão via TV. Em 2015, a alta foi de 25%, para R$ 1,54 bilhão. Já os ganhos com venda de publicidade e patrocínio e com bilheteria e programas de sócio-torcedor subiram abaixo da inflação.

“A parcela de que o futebol se apropria do mercado publicitário é mínima”, diz Grafietti, destacando que os anunciantes preferem se associar indiretamente, por meio de propaganda na TV, do que diretamente via clube.

Como referência, os R$ 543 milhões que os 29 times arrecadaram em publicidade e patrocínio em 2015 equivalem a 0,4% do total de R$ 132 bilhões em compra de espaço publicitário em meios de comunicação no Brasil estimado pela Kantar Ibope Media, em estudo que considera valores de tabela, sem descontos e negociações.

Na visão do executivo do Itaú BBA, a rejeição à marca que patrocina o clube adversário atinge apenas 5% dos torcedores do rival, o que excluiria esse argumento para explicar a dificuldade de atrair patrocínio. O que falta, diz ele, é os clubes aprenderem a se vender melhor. “Eles não têm pesquisa profunda sobre quem é o torcedor e como ele se comporta”, afirma.

Além disso, Grafietti entende que os clubes têm que se preocupar com o que entregam ao patrocinador. Isso inclui não apenas ter um time que dá resultado, como um que seja atrativo para o torcedor. Outra preocupação é com episódios de violência, sobretudo envolvendo torcida organizada.

Em relação aos programas de sócio-torcedor, a análise dos dados mostra que enquanto os clubes Corinthians, Criciúma, Figueirense, Grêmio e Internacional já têm hoje quase 100% da receita de bilheteria com esse tipo de sócio, os demais ainda podem explorar mais a modalidade.

Grafietti reconhece que times que jogam em estádios maiores, como Maracanã e Morumbi, têm mais dificuldade para ter o mesmo sucesso nesses programas, já que a necessidade de assegurar um assento entre os mais de 60 mil oferecidos é menor. Mas entende que todos os clubes precisam buscar outros tipos de apelo para o programa, como descontos maiores, se quiserem continuar atraindo torcedores.

Do lado dos dispêndios, a recomendação do especialista não é economizar a qualquer preço, já que os clubes não visam lucro. O limite ideal é que os custos e as despesas caibam dentro da receita recorrente do clube – ou seja, aquela que exclui os ganhos com vendas de jogadores.

FNC: será que meu Cruzeiro fez um “negócio da China” ao vender o time bi-campeão de 2013-2014, assim como também não resistiu o Corinthians, campeão de 2015, cedendo às propostas milionárias dos chineses que seduziram jogadores e treinadores brasileiros?

Esse negócio não recorrente não se repetiu e o tri-campeonato não só não veio como o clube esteve (e está) ameaçado de cair em uma Segunda Divisão, algo inédito na história do Cruzeiro. Este foi o resultado imediato de entrar no Profut, economizar no primeiro semestre com treinador iniciante e ex-jogadores da base e jogadores baratos argentinos.

No início do segundo semestre de 2016, teve de adquirir jogadores mais maduros e mais caros, além de dispensar o ex-técnico da Seleção Portuguesa de Futebol, atual campeã europeia. Recontratou o Mano, técnico que o recuperou no ano passado, com a esperança de repetir a campanha vitoriosa no segundo turno. Está recuperando o bom futebol.

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