Jogo do Dinheiro

Meu passatempo ontem foi assistir o filme “Jogo do Dinheiro” [Money Monster; 2016], estrelado por George Clooney e Julia Roberts e com direção de Jodie Foster. George Clooney interpreta um midiático conselheiro de Finanças Pessoais, Lee Gates, o “mago das finanças” do programa Money Monster, que dá aconselhamentos levianos em busca de um pouco mais de audiência. Patty Fenn, a diretora de TV interpretada por Julia Roberts é a sua consciência, colocando-se entre o apresentador e Kyle Budwell (Jack O’Connell), o desesperado investidor “homem-comum” que invade o cenário com uma arma em mãos e dois coletes recheados de bombas. O verdadeiro alvo é Walt Camby (Dominic West), magnata que acaba de perder US$ 800 milhões em função de uma suposta falha nos algoritmos de sua estratégia de investimentos.

Ninguém sabe bem do que se tratam os algoritmos, mas os investidores amadores não se acautelam, ainda mais sob o impulso de alguma “celebridade descerebrada”, dando “os argumentos de autoridade” para aqueles que necessitam de alguma justificativa para confirmar decisões já tomadas, inspiradas apenas na pura ganância. Alguns ganharam alguma coisa – ou conhecem alguém que também deu sorte em aposta de renda variável – e seguem a tendência. O comportamento de manada dá a valorização para algum dado ativo. Com oferta delimitada, sua cotação sobe e transforma-se em profecia auto-realizada!

Na hora da perda, os pobres investidores reclamam. Por que não na hora do ganho?

Bem, a moral da história, para investidores das castas brasileiras, é que “somos felizes e sabemos”! Nada melhor do que capitalizar nossos investimentos financeiros em renda pós fixada com o maior juro real do mundo sem risco !

Charles Wheelan, autor de “Economia nua e crua”, comenta essa mania (e pânico) dos norte-americanos ao investirem em bolsa de valores: alguns enriquecem rápido, outros perdem subitamente.

“Ele estuda os gráficos passados dos movimentos do mercado em busca de formas que sinalizassem aonde o mercado iria a seguir. (…) Meu esperto vizinho, que é médico e membro do corpo docente de uma universidade, estava se aventurando longe dos salões da ciência com sua estratégia de investimentos, e essa é a lição mais ampla. Quando se trata de Finanças Pessoais (…), pessoas inteligentes jogam o bom senso para o alto depressa!”.

As regras para investimentos bem-sucedidos são surpreendentemente simples de acordo com a doutrina religiosa imposta por O Mercado: apenas exigem disciplina e autossacrifício. O retorno é uma acumulação de riqueza lenta e constante (com uma porção de retrocessos ao longo do caminho), e não uma fortuna súbita e rápida. Assim, defrontados com a perspectiva de abrir mão do consumo no presente para obter sucesso no futuro, abraçamos com avidez os métodos mais rápidos e mais fáceis – e ficamos chocados quando não dão certo!

Este capítulo do livro “Economia nua e crua” não é uma cartilha sobre Finanças Pessoais. “Há alguns livros excelentes sobre estratégias de investimentos. Burton Malkiel lançou um dos melhores: A Random Walk Down Wall Street. Não, este capítulo fala sobre o que uma compreensão básica dos mercados – as ideias abordadas nos dois primeiros capítulos – pode nos dizer sobre investimentos pessoais. Qualquer estratégia de investimento deve obedecer às leis básicas da economia, assim como qualquer dieta é restringida pelas realidades de química, biologia e física. Tomando emprestado o título do romance bestseller de Wally Lamb, Eu conheço a verdade”. No Brasil, isto é o equivalente do imbecil cartaz: “Eu já sabia!” Só gente que nada sabe pode dizer “com certeza”…

À primeira vista, os mercados financeiros são extraordinariamente complexos. Ações e letras de câmbio já são complicadas o bastante, mas há opções, há o futuro, opções sobre o futuro, swaps de taxas de juros, letras do governo e os infames Credit Default Swaps (CDS). Na Bolsa Mercantil de Chicago, hoje é possível comprar ou vender contratos futuros baseados na temperatura média em Los Angeles. Na Câmara de Comércio de Chicago, pode-se comprar e vender o direito de emitir SO2. Sim, é possível ganhar (ou perder) dinheiro comercializando smog – fumaça poluente.

A Polícia Federal brasileira usa a expressão “vender fumaça” para aqueles estelionatários que vendem o que sabem que não podem entregar… Tipo governo que há de se temer.

Os detalhes desses contratos futuros podem deixar qualquer um maluco, porém, no fundo, a maior parte do que ocorre é algo bastante direto. Instrumentos financeiros, como qualquer outro bem ou serviço na economia de mercado, precisam criar algum valor. Tanto comprador quanto vendedor precisam se perceber em situação melhor ao entrar no negócio.

Ao mesmo tempo, os empreendedores buscam introduzir produtos financeiros mais baratos, rápidos, fáceis ou de algum modo melhores que os já existentes. Fundos mútuos foram uma inovação financeira. O mesmo ocorreu com os fundos indexados que buscam simular a carteira a algum índice, por exemplo, aqui no Brasil acompanhar o Ibovespa.

No auge da crise financeira de 2008, ficou claro que mesmo os executivos de Wall Street não entendiam plenamente alguns dos produtos que suas empresas compravam e vendiam. Ainda assim, todos os instrumentos financeiros – não importa quão complexa seja sua apresentação – baseiam-se em quatro necessidades simples:

  1. aumentar capital;
  2. proteger capital;
  3. cercar os riscos.;
  4. especular.

É isso aí. Toda a frenética atividade em Wall Street ou LaSalle Street (sede do mercado de futuros em Chicago) se encaixa em um ou mais desses módulos. O mundo das altas finanças é muitas vezes descrito como uma versão dos cassinos de Las Vegas – risco, glamour, personalidades interessantes e montes de dinheiro mudando de mão.

Contudo, a analogia é terrivelmente inapropriada. Tudo que acontece em Las Vegas é um jogo de soma zero. E as chances pesam significativamente a favor da casa. Se você jogar durante um bom tempo, é certeza matemática de que vai sair quebrado. Las Vegas provê só entretenimento para trouxas perderem e espertos ganharem. Mercado de capitais é jogo de perde-e-ganha, isto é, você perde para outro ganhar!

One thought on “Jogo do Dinheiro

  1. Pois é! Bom demais quando filmes trazem à baila o mercado de ações! Em 2011 “Margie Call” nos levou a olhar perto a fome voraz e destruidora desse mercado…

    Depois em 2015 foi a vez de “A Grande Aposta” deixar mais claro o quanto esse mundo não tem o menor escrúpulo em arruinar pessoas, empresas ou até nações…

    Sem pretensões de fazer com que os norte-americanos desistissem, até porque investir em ações já é algo cultural nos Estados Unidos. Um mundo onde podem concretizar o american dream mais rapidamente…

    Mesmo que seja tentar a sorte onde poucos lucram com a desgraça de muitos…

    Porque é o lucrar muito o que todos esperam…

    Esse tentar tirar a “sorte grande” vai desde o pequeno comprador aos que operam com grandes fortunas… Lembrando ou não do que ambos filmes mostraram…

    “Jogo do Dinheiro” traz como diferencial a manipulação que há de fato, muito embora não chega ao grande público. A manipulação seja em qual esfera for, seja em quais meios forem, desde que se conquiste o lucro pretendido. E como um pano de fundo: tentar uma sorte numa jogada de azar.

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