Segredo do Negócio Capitalista: Alavancagem Financeira

EconomiaNuaECrua

Charles Wheelan, em “Economia nua e crua”, afirma que uma das coisas fascinantes na vida, particularmente nos Estados Unidos, é que podemos gastar grandes somas de dinheiro que não nos pertence. Os mercados financeiros nos possibilitam tomar dinheiro emprestado.

Às vezes isso significa que Visa e MasterCard saciam nossa sede de consumir hoje o que, na verdade, não podemos nos permitir até o ano que vem, isto se for o caso de termos um emprego seguro com renda garantida. Mais amiúde – e mais significativo para a economia –, tomar emprestado possibilita todo tipo de investimento.

  • Nós tomamos emprestado para pagar a mensalidade da faculdade.
  • Tomamos emprestado para comprar casas.
  • Tomamos emprestado para construir fábricas e comprar equipamentos ou montar novos negócios.
  • Tomamos emprestado para fazer coisas que melhoram nossa vida mesmo se depois temos que pagar o custo do empréstimo.

Às vezes aumentamos o capital sem tomar empréstimo. Podemos vender participação do nosso negócio para o público. Assim, dispomos de um pedaço da nossa propriedade e, portanto, uma reivindicação de lucros futuros, em troca de dinheiro vivo.

Empresas e governos podem tomar emprestado diretamente do público emitindo títulos. Essas transações podem ser simples, como um empréstimo para um carro novo, ou complexas, como uma injeção de liquidez de vários bilhões de dólares por parte do Fundo Monetário Internacional.

A essência nunca muda: indivíduos, empresas e governos necessitam de capital para fazer hoje coisas que de outra forma não poderiam fazer no presente, talvez apenas no futuro, depois do sacrifício de não ir gastando tudo que recebe de renda e/ou arrecadação fiscal. Os mercados financeiros fornecem esse capital – por um preço. Que ninguém gosta de pagar!

Economias modernas não podem sobreviver sem crédito. De fato, a comunidade de desenvolvimento internacional começou a perceber que tornar crédito acessível aos empreendedores no mundo em desenvolvimento, mesmo pequenos empréstimos de US$ 50 ou US$ 100, pode ser uma ferramenta poderosa para combater a pobreza através do microcrédito.

Sob o ponto de vista empresarial, o segredo do negócio capitalista é trabalhar com recursos de terceiros para alavancar o próprio negócio com ganho de escala, aumentando sua rentabilidade!

Charles Wheelan, em “Economia nua e crua”, diz: “Os mercados financeiros fazem mais que pegar o capital dos ricos e emprestá-lo aos outros. Eles possibilitam a cada um de nós amenizar o consumo ao longo da vida, que é um jeito bonito de dizer que não precisamos gastar nossa receita à medida que a recebemos. Shakespeare pode ter nos advertido para não sermos nem emprestadores nem tomadores de empréstimos; o fato é que a maioria de nós é as duas coisas em algum momento da vida.”

“Podemos gastar nossa receita agora sem a termos recebido – como ao tomar empréstimo para a faculdade ou para uma casa –, ou podemos ter nossa receita agora e gastá-la mais tarde, poupando-a para a aposentadoria. O fator importante é que a entrada da receita ficou divorciada de seu gasto, permitindo uma flexibilidade muito maior.”

“Os mercados financeiros fornecem uma gama de outros produtos que parecem complicados, mas basicamente funcionam do mesmo jeito que uma apólice de seguro. Um contrato de futuros, por exemplo, fecha o preço de venda para uma commodity – qualquer coisa, de energia elétrica a grãos de soja – em uma futura data definida.”

Uma vez criado o produto financeiro, ele satisfaz outra necessidade humana básica: a necessidade de especular, ou apostar em movimentos de preço de curto prazo. Podem-se usar os mercados futuros para mitigar o risco – ou pode-se usar o mercado futuro para apostar no preço da soja no próximo ano.

Pode-se usar o título de mercado para elevar o capital – ou pode-se usá-lo para apostar se o Banco Central vai cortar as taxas de juros no próximo mês. Pode-se usar o mercado de ações para investir em empresas e compartilhar seus lucros futuros – ou pode-se comprar uma ação às 10h da manhã na esperança de ganhar alguns trocados na hora do almoço. Esta é a ambição insaciável (e viciante) do day-trader.

Produtos financeiros estão para a especulação assim como os eventos esportivos estão para a casa de apostas. Eles a facilitam, mesmo que esse não seja seu propósito básico.

Foi isso que saiu errado com os produtos financeiros exóticos. A coisa curiosa a respeito desses contratos é que qualquer um pode entrar na jogada, independentemente de ser ou não parte interessada na dívida que está sendo securitizada e, supostamente, “garantida”. Lembre-se do exemplo de seu cunhado fracassado…

A Hipótese dos Mercados Eficientes (HME) não vai a parte alguma num futuro próximo. Na verdade, ainda é um conceito crucial para qualquer investidor entender. E por dois motivos.

Em primeiro lugar, os mercados podem fazer coisas irracionais, mas isso não torna fácil ganhar dinheiro com esses movimentos loucos, pelo menos não por muito tempo. Quando os investidores se aproveitam de alguma anomalia do mercado, digamos, comprando ações que foram subvalorizadas irracionalmente, estão fixando a própria ineficiência que exploraram, fazendo subir o preço de ações subvalorizadas até não estarem mais subvalorizadas.

Pense na analogia original de tentar achar a fila de caixa mais rápida no supermercado. Suponha que você consiga encontrar uma fila que ande previsivelmente mais depressa que as outras – talvez tenha realmente um caixa mais ligeiro e um ensacador ágil. Esse resultado também é observado pelos outros compradores; eles vão se acumular nessa fila até que ela não seja a mais rápida. As chances de você pegar a fila mais rápida semana após semana são nulas.

Fundos mútuos funcionam do mesmo jeito. Se o gerente de uma carteira começa a bater o mercado, outros clientes verão seus gigantescos retornos e copiarão a estratégia, tornando-a menos efetiva.

Então, mesmo “que você acredite que possa haver uma ocasional nota de US$ 100 largada no chão, também deve reconhecer que ela não vai ficar ali largada por muito tempo”. Esta é uma referência à famosa piada corporativa que ironiza a HME: dois professores de Economia estavam caminhando e um deles diz que viu uma nota de cem dólares no chão; o outro retruca que não, pois se ela estivesse lá alguém já teria a pegado

Em segundo lugar, os críticos mais efetivos da HME pensam que o investidor médio provavelmente não pode bater o mercado e nem deve tentar. Andrew Lo, do MIT, e A. Craig MacKinlay, da Wharton School, são autores de um livro intitulado A Non-Random Walk Down Wall Street no qual afirmam que “peritos financeiros com recursos extraordinários, tais como supercomputadores, podem bater o mercado achando e explorando anomalias na determinação de preços”.

Uma resenha da Business Week sobre o livro comenta: “Surpreendentemente, talvez, Lo e MacKinlay na verdade concordam com o conselho de Malkiel ao investidor médio. Se você não tem nenhum conhecimento especial, nem tempo e dinheiro para achar ajuda especializada, dizem eles, então vá em frente e adquira fundos indexados.” É simples assim. Os iiissspierrtos da minha profissão se aproveitam para ganhar dinheiro da burrice dos que acreditam em seus “argumentos de autoridade”!

“Warren Buffet, indiscutivelmente o melhor escolhedor de ações de todos os tempos, diz a mesma coisa. Até Richard Thaler, o sujeito que bate o mercado com seu fundo de crescimento comportamental, disse ao Wall Street Journal que põe a maior parte de suas economias de aposentadoria em fundos indexados”.

Está percebendo, membro das castas brasileiras, seguidor deste modesto blog, que os investidores dos States não sabem o que estão perdendo no Brasil de capitalismo sem risco?

“A indexação é para o investimento o que exercícios regulares e uma dieta baixa em gorduras são para perder peso: um excelente ponto de partida. O ônus da prova deve recair sobre qualquer um que alegue ter algum meio melhor”.

Como Charles Wheelan já observou, este capítulo do livro “Economia nua e crua” não é um guia de investimentos. Deixa para os outros livros explicar os prós e contras de planos de poupança para a faculdade, títulos de dívida pública, anuidades variáveis e todas as modernas opções de investimentos. Dito isso, a economia básica pode nos dar um teste intuitivo. Ela nos provê com um conjunto básico de regras com as quais qualquer conselho decente de investimentos deve se conformar.

Poupe. Invista. Repita. Voltemos à ideia básica deste capítulo: capital é algo escasso. Essa é a única razão de qualquer tipo de investimento trazer retorno. Se você poupa capital, então alguém lhe pagará para isso”.

Lembre sempre do sacrifício que lhe custou ganhar alguma merreca. Isto antes de correr o risco de ganhar dinheiro fácil…

“Investimentos mais arriscados devem oferecer um retorno esperado mais alto para conseguir atrair capital. Essa não é uma lei arcana de Finanças: é simplesmente como os mercados funcionam! Nenhuma pessoa racional investirá dinheiro em algum lugar quando pode obter o mesmo retorno esperado com menor risco em outro lugar”.

Entende isso, membro das castas brasileiras? Aqui, neste paraíso tropical, é o único lugar onde há renda fixa pós-fixada com taxa de juro real de 6% aa!

Lá, nos States, eles não te dirão, para pegar seu “suado e rico dinheirinho” com investimentos em renda variável, que risco em mercado financeiro é justamente o rendimento flutuar.

“A implicação para o investidor é clara: você será compensado correndo mais risco. Logo, quanto mais arriscada a sua carteira, mais alto o retorno – em média. Sim, de novo esse conceito chato, ‘em média’. Se sua carteira é arriscada, significa também que coisas muito ruins ocasionalmente acontecem”.

Tá vendo?! Lá, berço da economia de mercado de capitais, e único lugar onde ela prosperou, a economia de mercado busca funcionar! Ou seja, as cotações são atribuições de valor por trouxas, que seguem o iiissspierrrto, para depois se enxergarem no espelho como verdadeiramente são: trouxas!

“Então você tem o teste para farejar investimentos pessoais. Da próxima vez que um consultor de investimentos vier procurá-lo prometendo um retorno de 20 ou 40%, você saberá que uma das três seguintes coisas será verdade:

(1) deve ser um investimento muito arriscado para justificar um retorno esperado tão alto – pense no custo de oportunidade de investir no próprio capital humano;

(2) seu consultor de investimentos tropeçou em alguma oportunidade ainda não descoberta por todos os investidores sofisticados do mundo e foi gentil o bastante para dividi-la com você – por favor, me chame; ou

(3) seu consultor de investimentos é incompetente e/ou desonesto – pense em Bernie Madoff. Com extrema frequência a resposta é (3).“

A coisa fascinante em relação à economia é que as ideias não mudam. Monarcas da Idade Média necessitavam levantar capital, geralmente para as guerras de conquistas de territórios – a riqueza de sociedades rurais –, exatamente como as startups de biotecnologia hoje.

Charles Wheelan confessa: “Não tenho ideia de como será a cara do planeta daqui a cem anos. Talvez estejamos colonizando Marte ou convertendo água salgada em fonte de energia limpa e renovável. Mas sei que qualquer um desses empreendimentos utilizaria os mercados financeiros para levantar capital e mitigar o risco”.  :)

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