Acusações do Bresser-Pereira aos Social-Desenvolvimentistas

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Vejamos as demais acusações dirigidas por Luiz Carlos Bresser-Pereira, no artigo “Reflexões sobre o Novo Desenvolvimentismo e o Desenvolvimentismo Clássico” (Revista de Economia Política, vol. 36, nº 2 (143), pp. 237-265, abril-junho/2016), ao Social-Desenvolvimentismo (SD), em busca de afirmar o absolutismo do Novo Desenvolvimentismo (ND).

Entre as políticas que distinguem o SD do ND, Bresser-Pereira destaca, primeiro, a defesa de uma estratégia baseada nos salários, wage-led, ao invés de uma estratégia baseada nas exportações, export-led. Uma estratégia baseada nos salários resolveria o problema da insuficiência da demanda e ao mesmo tempo reduziria a desigualdade, sem necessidade de tornar a taxa de câmbio competitiva, ou seja, flutuante em torno do equilíbrio industrial.

“Uma estratégia baseada nos salários somente pode funcionar se o país proteger seu mercado interno com elevadas tarifas, ou, em outras palavras, adotar o modelo de industrialização por substituição de importações – algo que faz sentido para países pobres que estejam começando sua industrialização, mas certamente não para os países de renda média aos quais se destina o Novo Desenvolvimentismo”.

Em segundo lugar, o SD “presume que uma taxa de câmbio competitiva consistente promove o aumento da desigualdade, o que (…) é verdadeiro em relação aos lucros que devem ser satisfatórios para motivar o investimento pelas firmas, mas falso em relação aos salários, já que as receitas dos rentistas são também beneficiadas no curto prazo. Na verdade, há no social-desenvolvimentismo uma alta preferência pelo consumo imediato que é altamente prejudicial aos trabalhadores no médio prazo”.

Este é o incômodo básico de Bresser-Pereira, já que ele acredita, piamente, que o purgatório do sacrifício do consumo imediato será benéfico aos lucros esperados, incentivadores do investimento, e levará ao paraíso no futuro. Ele se incomoda com a advertência dos social-desenvolvimentistas que o choque cambial será inflacionário e, portanto, deteriorador do poder aquisitivo geral no mercado interno, pois imagina que os lucros dos exportadores superarão essa agrura e resultarão em uma futura multiplicação de renda e emprego compensatória de todo o sacrifício no presente.

Para tanto, deveria demonstrar que o saldo de exportação líquida brasileira teria um potencial de ser muito maior do que o máximo demonstrado em toda a série histórica entre 1989 e 2016: US$ 46,5 bilhões em 2007. E que o superávit comercial se transformaria em estrutural de maneira que resultasse, tal como ocorreu apenas entre 2003 e 2007, em superávit no balanço de transações correntes. O máximo foi 1,8% do PIB, em 2004, ano econômico inédito em que todas as economias no mundo cresceram. Nesse caso, o ND convenceria os incautos sobre a real possibilidade de o modelo exportador asiático aqui ser adotado.

Analisando toda a composição do PIB pela ótica da demanda no período recente em que a exportação líquida foi positiva (2002-2008), o máximo que atingiu foi 3,9% em 2004. Neste único ano, então, o consumo das famílias ficou no patamar mínimo de 59,8% do PIB. Neste ano, a demanda doméstica contribuiu com 5,0% do PIB e a demanda externa líquida com 0,7%. Na realidade, além desse ano, após uma grande depreciação da moeda nacional em 2002 e início de um boom de commodities, apenas neste ano (2002) com 2,5% e em 2003 com 1,7% que a demanda externa líquida contribuiu mais do que a demanda interna, respectivamente, com 0,2% e -0,5%, na composição do PIB.  Por razão prática mais de que por razão pura que os social-desenvolvimentistas são céticos quanto à possibilidade da Ásia ser aqui…

Além dessa “preferência pelo consumo imediato” imputada ao SD, Bresser-Pereira se incomoda com “a alegação de que o Novo Desenvolvimentismo não é social”, pois demonstra pouca preocupação com a desigualdade. Ele acha que “essa crítica não é aceitável. A redução da desigualdade é um objetivo dos mais importantes nas sociedades capitalistas, que são inerentemente desiguais ou injustas. Mas isso não significa que as políticas propostas devam sempre expressar os interesses de curto prazo dos trabalhadores ou dos pobres”.

formigaEntão, colocando a disputa nesses termos, curtos e grossos, o SD seria curto-prazista e o ND longo-prazista. Aquele (“cigarra” na conhecida fábula de La Fontaine) seria apenas tático, deleitando-se com as delícias do consumo imediato, e este (“formiga”), estratégico, advertindo-nos contra a sedução do fácil, pois levaria à dificuldade com futuro desemprego. Para cigarra, o que importava era aproveitar a vida, e aproveitar o verão de hoje, sem pensar no inverno de amanhã. Por isso, no inverno, a rainha das formigas disse à cigarra: – “No mundo das formigas, todos trabalham, e se você quiser ficar conosco, cumpra o seu dever: toque e cante para nós”. Moral da história: os trabalhadores têm sempre de tocar e cantar para os capitalistas.

“O Novo Desenvolvimentismo presume que a taxa de câmbio nos países em desenvolvimento seja, ‘normalmente’, sobrevalorizada no longo prazo, especialmente naqueles acometidos da doença holandesa. Decorre daí que a taxa esperada de lucro será em geral baixa, insuficiente para fazer com que as firmas invistam, ao passo que os salários reais serão artificialmente elevados”. Ora, qual é a evidência estatística disso? Na interpretação do Brasil, elaborada pelo ND, os salários reais estão artificialmente elevados?!

Assim, “o Novo Desenvolvimentismo propõe políticas que envolvem uma depreciação once and for all, que é condição necessária para que haja o investimento e o crescimento”. Em vez de enfrentar o verdadeiro problema, que seria a análise da consequência inflacionária dessa súbita maxidepreciação da moeda nacional, o prócer do ND prefere alegar que os social-desenvolvimentistas não a aceitam porque consideram “conservadora” essa política que visa tornar as empresas lucrativas ou competitivas!

Sob esse ponto de vista (equivocado), seria apenas por pureza ideológica (ou implicância) que o esquerdismo, acometido de “doença infantil do comunismo”, não aceitaria algo favorável aos capitalistas, mesmo sabendo que o emprego depende da boa vontade dos empregadores!

Com isso, Bresser-Pereira acha que os social-desenvolvimentistas “ignoram o fato de que os formuladores de políticas, numa sociedade capitalista, precisam obedecer à lógica do capitalismo – a lógica da realização de lucros e acumulação de capital. Se o crescimento depende dos investimentos das empresas, os formuladores de políticas devem trabalhar por um meio-termo entre os empresários e os trabalhadores, entre uma taxa de lucro satisfatória e salários que aumentem com a produtividade. Em vez disso, os social-desenvolvimentistas expressam elevada preferência por salários elevados e consumo imediato – uma preferência que, no médio prazo, atende aos interesses dos países ricos, não aos dos trabalhadores e dos pobres nos países em desenvolvimento”.

Sendo assim, os social-desenvolvimentistas seriam “traidores da classe operária”! Uma “vanguarda intelectual de coração-mole” por atender à reivindicação do próprio proletariado de salários elevados e consumo imediato… Seriam do “mal”, porque saberiam disso, já que foram advertidos pelo bom modelo do ND, enquanto os líderes sindicais, inconscientes dessa “boa” teoria, não conheciam nem seus próprios interesses!

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