Paradoxo da Parcimônia em Terrae Brasilis

Taxa de Juro Real  ex-ante 01.09.16Depósitos de Poupança jan 2013 - jul 2016

No dia do Golpe na Democracia brasileira, foi noticiada a manutenção da taxa de juros básica (Selic) em 14,25%. As projeções de inflação da instituição extrativista (Banco Central do Brasil – BCB), que extrai renda do trabalho, na medida em que aumenta o desemprego, em favor da renda do capital financeiro, buscam inflar um falso otimismo a respeito da possibilidade da taxa de inflação atingir a meta de 4,5% em 2017, se os juros ficarem estáveis em 14,25% ao ano. O Copom estima, agora, uma inflação menor, de 5,1%, em vez de 5,3%, se a taxa básica de juros cair como prevê (e pauta) O Mercado, para 13,75% ao fim de 2016, e de 11,25% ao ano em fins de 2017.

O fato é que os rentistas das castas brasileiras ficam mais felizes do que “pinto no lixo”! 

Imagine a cada milhão de reais ganhar, mensalmente, uma renda nominal de classe média alta (R$ 11.600) para ser capitalizada (e acumulada) em juros compostos…

Enquanto isso, os párias usam os depósitos de poupança para o pouco que sobra de renda como fossem uma “conta corrente sem tarifas bancárias“. Em junho de 2016, eram 76.534.954 depósitos de poupança com saldos menores ou iguais a R$ 100,00 e 54.981.462 com saldos superiores a esse valor — total de 131,5 milhões de contas ou clientes. Os saldos médios dos pequenos depósitos era de apenas R$ 14,69; os de depósitos maiores do que R$ 100,00 alcançava R$ 10.621,29.

Daí temos mais um fenômeno específico da Tropicalização Antropofágica Miscigenada. Em Terrae Brasilis, o Paradoxo da Parcimônia é invertido!

No centro, se todos fazem poupança (ex-ante), cai o consumo e, conjuntamente, a renda e o emprego, por isso, no final de contas (ex-post) cairá a poupança. É ruim.

Na periferia, 55 milhões depositantes de poupança, apesar do custo de oportunidade face aos rendimentos dos Fundos de Investimentos de Renda Fixa pós-fixada (acumulado no ano 5,48% contra 9,21% do CDI ou 0,08% contra 3,62% em termos reais), que acompanham a disparidade da taxa de juros básica no Brasil, insistem em deixar o saldo médio de pouco mais de dez mil reais (R$ 10.621). Isto é socialmente positivo!

O saldo bruto desses depositantes atingiu R$  584 bilhões, em junho de 2016, segundo a ANBIMA — o valor divulgado pelo BCB (ver quadro acima) é maior: R$ 638 bilhões –, o maior funding entre todos os produtos de captação bancária no varejo, considerando Fundos de Investimento, Títulos e Valores Mobiliários (ações, Tesouro Direto, CDB, LCI, LCA, etc.) e a Poupança. Em outras palavras, a classe média baixa faz seu autofinanciamento da casa própria!

Mesmo com a instituição extrativista (BCB) jogando contra!

Rendimentos Financeiros_31_ago_2016

A sugestão dos analistas de investimentos é privilegiar a segurança até mesmo na renda fixa. Depois da atração dos títulos indexados à inflação, o momento pós-golpe pede também a segurança dos pós-fixados, que se movem acompanhando a taxa Selic, mantida pelo Copom em 14,25% ao ano.

Na renda variável, a leitura é que o governo golpista precisa entregar algo mais antes do que propagandear, falsamente, que “a confiança voltou”, para os ativos ganharem fôlego extra, pois muito do cenário especulativo pré-golpe está nos preços sem bons fundamentos macroeconômicos. E o estrangeiro já não mostra a mesma disposição de especular com as ações brasileiras, tendo tirado em agosto de 2016, até o dia 29, R$ 1,541 bilhão, reduzindo o saldo no ano a R$ 15,714 bilhões.

Os ativos brasileiros ganharam expressiva valorização nos últimos meses em cima de um artificial cenário otimista que ainda não se concretizou em bons fundamentos. Para que ações, títulos de renda fixa e o real prossigam nessa especulação há muito o que se destravar no incentivos à retomada do crescimento econômico e, assim, da arrecadação fiscal, além de simplificação tributária para setores da economia a fim de se estimular investimentos e aproveitar o quadro de farta liquidez global. Esta está sendo usado em carry-trade: pegar dinheiro barato lá fora para aplicar em dinheiro caro aqui dentro.

Com US$ 13 trilhões hoje alocados em ativos com taxas negativas no mundo desenvolvido, o Brasil atrai pelo menos uma pequena parte de “capital-motel” para aqui especular.

Quanto tempo vai demorar para o governo golpista apresentar números fiscais e uma relação dívida/PIB condizente com a melhora do juro real?

bom desempenho da bolsa brasileira veio junto com a cesta dedicada a emergentes, decorrente do ambiente de forte liquidez global. Mas há dúvidas sobre o comportamento dos fluxos se o Fed, de fato, adotar uma postura mais dura de política monetária. O Fed mudando o juro lá nos States, muda tudo!

O juro real do Brasil, o mais alto dentre as principais economias do mundo, é uma condição “necessária, mas não suficiente” para garantir a atratividade do país, mesmo com a confirmação do golpe contra a presidente Dilma Rousseff. Isto porque qualquer analista político isento sabe que não houve a definição do quadro político do país, muito antes pelo contrário, o Brasil entrou em turbulência política que só se acalmará com nova eleição democrática.

A taxa de retorno, já descontada a inflação, oferecida pelo país alimenta a ideia ilusória de que um fluxo de recursos chegará nos próximos meses, por causa da falsa expectativa de que o golpe parlamentar venha acompanhado de melhora da confiança. Mas analistas honestos são unânimes em afirmar que, somente à medida que a expectativa de reformas que incentivem a retomada do crescimento econômico se confirme, é que esses investimentos vão se concretizar.

juro real ex-ante no Brasil, calculado com base no contrato de juro de um ano (swap prefixado de 360 dias) e na projeção de inflação para 12 meses à frente, está atualmente em 7,42%.

Começou o ano acima dos 8% e havia cedido para a casa dos 6%, em grande parte por causa da queda das taxas futuras de juros, fruto da melhora das perspectivas de O Mercado para o país por causa da evolução do golpe parlamentar. Mas, com a queda recente das expectativas de inflação, essa trajetória foi revertida, elevando ainda mais sua vantagem comparativa para atrair especuladores. Para se ter uma ideia:

  • a Rússia tem hoje um juro real de 3,26%,
  • o México de 1,36%,
  • a África do Sul de 1,30%, e
  • a Turquia, de 1,96%.

Mesmo com esse juro esperado tão vantajoso, o fluxo de recursos destinados a ativos de renda fixa brasileiros registra saldo negativo de US$ 14,377 bilhões no acumulado do ano até julho de 2016, o que comprova que o juro alto não é a única variável a se considerar.

O juro real é um fator que define a atratividade do país, mas também deve ser visto como um termômetro da percepção de risco por parte dos investidores. Tem grande peso, portanto, para a definição dos investimentos do setor produtivo. Essa taxa pode voltar a cair à medida que as reformas avancem e melhore o prêmio de risco dos ativos, e também se o Banco Central iniciar o esperado corte da taxa Selic, mantida em 14,25%.

Daí vem uma interpretação auto ilusória de O Mercado, pois por má-fé (e não por ignorância) inverte os determinantes: “o juro real elevado ainda será necessário por algum tempo, porque os fundamentos seguem fracos. Com a relação dívida/PIB tão elevada, resultado primário negativo, além da inflação gigantesca, precisamos que o juro real ainda seja alto para manter a atratividade”. Ora, a disparidade do juro real brasileiro em relação ao internacional que leva à tendência à apreciação da moeda nacional e à perda de competitividade dos produtos brasileiros! Ele que prejudica os fundamentos!

juro real pago pela NTN-B (título público atrelado ao IPCA) com vencimento em 2050 gira hoje em torno de 5,80% aa, e superou os 7,50% aa no ano passado. Embora não tenha havido fluxo de dólares à vista, claramente houve uma melhora nas posições em derivativos. No começo de 2015, os fundos estrangeiros estavam com posição “comprada” em dólar (apostando na alta da moeda americana) em mais de US$ 40 bilhões e, atualmente, essa posição caiu pela metade.

Os investidores locais, que iniciaram 2015 comprados em US$ 30 bilhões, já estão vendidos (apostando na queda do dólar) em US$ 2,5 bilhões. Então, houve um fluxo via derivativos e, agora, deve haver o fluxo via spot. Há um ‘pipeline‘ de investimentos diretos simplesmente pelo novo registro do balanço de pagamentos pelo BCB. Ele passou a registrar os reinvestimentos do não-residentes, efetuados internamente, como IDP: Investimentos Diretos no País.

Em outros termos, os investidores estrangeiros aguardam um dólar mais barato para sair (repatriar capital) em ainda melhores condições.

A questão é que está bastante precificado, equivocadamente, que haverá “sucesso na política fiscal”. Qualquer sinal ao contrário, que logo surgirá do governo golpista (composto com gente desonesta e incompetente), levará o dólar para cima e, sem ‘hedge’, os especuladores terão uma perda importante no investimento!

O cupom cambialtaxa de juros em dólar no Brasil que já desconta expectativa de desvalorização cambial do país – está em 2,31% ao ano para os próximos 12 meses. A Libor em dólar para um ano, referência global para empréstimos na moeda americana, está em 1,56% ao ano. A diferença representa o custo de oportunidade para os investidores estrangeiros.

2 thoughts on “Paradoxo da Parcimônia em Terrae Brasilis

  1. Professor, o que fazer com um troquinho (equivalente a 3 meses de salário) em ações da Petrobrás? Não consigo pensar o que o Golpista pode fazer nos próximos meses.

    1. Bolsa sobe no boato, cai no fato…
      Depois do buy, buy, vem o sell, sell.
      Realize o quanto antes pois os retardatários cairão, brevemente, na real!
      Cotações crescendo sem crescimento econômico?! Coisa sem fundamento!

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