Mudança no Teto Salarial do Servidor Público no Estado de São Paulo

DIRPF 2014-13

Declarantes por faixa de SMObs.: dados por declarante (per capita) com valores em R$ (rendimento anual).

Completarei, em 28 de setembro de 2016, sessenta e cinco anos de idade. Eu poderia me aposentar desde novembro de 2011. Porém, considerando a responsabilidade social da minha atividade intelectual como educador e pesquisador em dedicação exclusiva que exerço no IE-UNICAMP — e ainda me honram os convites para palestras em outras Universidades e Sindicatos –, persevero como professor.

No entanto, sinto certa indignação por minha situação profissional. Atingi, depois de 30 anos de carreira docente, a maior titulação acadêmica possível com base em produção científica publicada e defesa de quatro teses originais perante bancas julgadoras em concursos públicos: Professor-Titular. Apesar de ter direito a ganhos brutos de 32 salários mínimos, recebo líquido, depois de todos os descontos, inclusive plano de saúde, com grau de confisco de 50%, cerca de 16 salários mínimos!

Com o aumento do custo de vida, em 2015, ficou difícil manter um padrão de vida do tipo Classe B, isto é, acima de R$ 11.600 em renda familiar. Somando com a Classe A, seriam 25% da população nessas duas classes — leia em Velha Classe Média: Mobilidade Social para Classes A e B. Tenho em meu orçamento doméstico a manutenção de duas residências: a minha em Campinas e a dos meus filhos que trabalham e estudam em São Paulo.

Obviamente, sei que é uma remuneração acima do que recebe 99% da população ocupada, mas pelo menos 8% dos contribuintes (2,233 milhões na tabela acima) estão em faixas superiores desse rendimento líquido, i. é, acima de 20 salários mínimos.

Porém, minha indignação é pelo Redutor Constitucional que o governador de São Paulo (Estado gerador da maior renda no País) impôs, arbitrariamente, na carreira universitária baseada em mérito acadêmico: R$ 4.332,29 por mês ou cerca de R$ 52.000 por ano! Sinto-me lesado em algo pelo que batalhei toda minha vida: alcançar independência financeira apenas com meu trabalho na Universidade.

A referência para o teto da remuneração de servidores públicoscasta dos sábios-tecnocratas — é o rendimento da casta da aristocracia governante, no caso, o dos Ministros do Supremo Tribunal Federal. Sem considerar demais benesses (auxílio-moradia, automóvel com motorista e combustível, plano de saúde, passagens aéreas, etc.). Eles tiveram aumento de 16,38%, com o salário passando dos atuais R$ 33.763 para R$ 39.293,38, ou seja, 44,65 salários mínimos.

Finalmente, trinta e quatro deputados de diferentes partidos que compõem a Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) protocolaram, às vésperas do início do recesso parlamentar, a PEC 03/2016 (Proposta de Emenda à Constituição do Estado) que muda o teto salarial dos servidores públicos paulistas, hoje estabelecido com base no subsídio do governador.

Antiga reivindicação da ADunicamp e do Fórum das Seis, e recentemente alvo de intensas mobilizações ao lado de diversas entidades, representativas do conjunto de funcionários públicos estaduais e municipais, junto aos deputados paulistas, a PEC 03 propõe como indicador do teto salarial para todas as categorias de servidores públicos no estado de São Paulo o subsídio mensal dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado.

Por determinação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) foram congelados o seu próprio subsídio, o do vice-governador e dos secretários de Estado, o que provocou também o congelamento do teto salarial de todo o funcionalismo público paulista.

A PEC 03/2016 deverá entrar na pauta de discussão da Alesp a partir de agosto, com o encerramento do recesso parlamentar.

JUSTIFICATIVAS

O teto salarial dos servidores de São Paulo está entre os quatro mais baixos do país, acima apenas do Ceará, Espírito Santo e Alagoas, nos quais o teto também é estabelecido com base no subsídio de seus governadores.

Conforme informa o próprio texto da PEC 03, 18 Estados da Federação já editaram emenda constitucional fixando o limite de remuneração dos servidores com base em subsídios do Poder Judiciário. Isso é possível porque a Constituição Federal delega aos Estados a instituição do teto salarial.

“Emendas a diversas Constituições Estaduais foram promulgadas para garantir aos Estados e respectivos municípios a manutenção em seus quadros de servidores tais como médicos, professores universitários, agentes da auditoria-fiscal tributária, oficiais da polícia militar ou delegados de polícia. Ressalte-se que a manutenção de profissionais na esfera municipal só foi possível porque foi aplicado também ao Município o teto constitucional único do Estado”, informa o texto da PEC 03.

REIVINDICAÇÃO ANTIGA

A mudança no critério de definição do teto salarial em São Paulo é uma reivindicação antiga das entidades ligadas ao Fórum das Seis e, nos últimos anos, passou a ser reforçada por um número crescente de sindicatos e associações de outras categorias de servidores estaduais.

No ano passado, a ADunicamp promoveu um encontro, do qual participaram mais de 70 professores, para discutir o tema. Todos os professores que se manifestaram afirmaram ser favoráveis ao teto salarial, mas contestaram os valores estabelecidos para as universidades públicas paulistas, hoje inferior ao das universidades federais e ao do funcionalismo público de outros 23 estados da Federação – nos quais o cálculo para o teto é feito com base no subsidio dos desembargadores, como autoriza a Constituição Federal.

EVASÃO E PREJUÍZO

Diversos professores avaliaram, durante o encontro na ADunicamp, que a limitação do teto dos professores torna-se ainda mais grave diante do fato de que as universidades paulistas são responsáveis por quase 70% de toda a pesquisa realizada no Brasil.

De acordo com eles, caso a correção do índice não seja feita com urgência, será inevitável a fuga de um número crescente de pesquisadores para a iniciativa privada. E com enormes prejuízos para os cofres públicos e para uma política de Estado de Educação e Pesquisa.

Para o Fórum das Seis, é indispensável que o teto salarial seja estabelecido com base em um valor definido por uma carreira pública e não por um subsídio de um cargo político.

Obs.:

Para verificar como se estabeleceu uma carreira desestimulante para a retenção de profissionais bem preparados com piso e teto muito abaixo do mercado de trabalho fora do campus, confira abaixo o piso salarial da carreira docente em Universidade Estadual Paulista:

Agência FAPESP – Estão abertas as inscrições para o processo seletivo de contratação de um docente temporário para o Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação (SEL) da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP). O prazo encerra em 26 de agosto de 2016.

A oportunidade é para o cargo de professor contratado, nível III, por tempo determinado, com salário de R$ 1.849,66 e jornada de 12 horas semanais de trabalho, ministrando as disciplinas: Laboratório de Circuitos Eletrônicos I e III; Laboratório de Dispositivos Semicondutores; Semicondutores; e Introdução aos Sistemas Digitais I.

25 thoughts on “Mudança no Teto Salarial do Servidor Público no Estado de São Paulo

  1. Judiciário e MP paulista não obedecem a qualquer teto. Auditores da Secretaria da Fazenda tb não. Na USP tb. havia muitos profs e aposentados sem teto algum. Ele cortou do judiciário e do MP?

  2. Caro Fernando,

    Como um país espera avançar tratando os professores e doutores assim?
    É difícil. Sou servidora pública da área administrativa e também sentimos na pele que “choque de gestão” para os tecnocratas como você bem os intitula, sempre se traduz em matar o servidor público de fome, nunca em cortar contratos e licitações superfaturados.
    Como se não fosse essencial para a redução de desigualdades e melhora de índices um serviço público de qualidade.
    Ainda falta muito para minha aposentadoria, mas ainda tenho esperanças de conseguir construir um país melhor.
    Obrigada por perseverar na luta,
    Carolina

    1. Prezada Carolina,
      a luta continua! Infelizmente, vivemos um momento muito difícil quando a democracia eleitoral foi golpeada.

      Mas com a resistência democrática os golpistas já estão revelando o que são: agentes truculentos que se colocaram a missão de cortar direitos sociais para não ter de acabar com a isenção de impostos sobre lucros e dividendos dos capitalistas.

      Grato pelo incentivo,
      abraço

  3. Mais relevante que a mudança no teto de salários é uma reforma total na remuneração dos pesquisadores em universidades estaduais e federais no Brasil,
    baseada em produtividade e contribuições acadêmicas relevantes, baseadas em mensurações objetivas de contribuição e não em concursos entre amigos.
    Em qualquer lugar sério o salário é baseado na contribuição individual do pesquisador, na avaliação objetiva de suas contribuições.
    O cargo de professor associado é equivalente ao tenure, que envolve a publicação em vários journals de alto impacto e uma avaliação do número de citações de cada artigo.
    O cargo de titular é concedido para professores de referência em áreas de pesquisa, o que envolve um elevado grau de originalidade e relevância na pesquisa. Isso é normalmente observado pela presença do titular
    como keynote speaker em congressos centrais na área da pesquisa.
    Já aqui no Brasil a promoção é automática por tempo de serviço nas federais, e embora na estaduais a promoção exija a realização de concursos em muitos casos as exigências são sofríveis. É um completo absurdo a promoção de pesquisadores
    sem publicações internacionais de impacto, com um número desprezível de citações. Esse baixo padrão de qualidade é uma ofensa aos contribuintes que sustentam as universidades públicas, e
    um risco a educação superior pública. Felizmente parece estar mudando com o maior grau de exigência em algumas universidades como a Usp, que agora estabelecem uma padrão minimo para progressão na carreira (publicações A1 e A2 qualis) e avaliações permanentes para todos os professores, com punições para professores improdutivos.

    1. Prezado Aluísio,
      antes de reproduzir opinião leviana típica de gente rancorosa que não conseguiu seguir a carreira profissional de quem critica, leia mais: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2010/05/26/publicar-e-nao-perecer/

      Esta visão de colonizado, culturalmente, possui o pensamento automático de “tudo que é bom para os States é bom trazer para cá”…

      Só que este colonizado não traz o que, de fato, é importante: a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Em uma sociedade dividida pela desigualdade só prega a competição desenfreada, p.ex., por publicações internacionais.

      Não se deve tratar desiguais como iguais. Até o credo liberal clássico observa a pré-condição para a competição: a igualdade de oportunidades ou “a mesma linha-de-partida”.

      Ora, quem foca no desenvolvimento das instituições brasileiras — e escreve em português para ser compreendido pela massa de pessoas que poderão fazer com que isso aconteça — não é publicado em revistas norte-americanas ortodoxas…

      Essa mentalidade de colonizado que é um atraso cultural e não de quem luta por emergir uma cultura própria não colonizada.
      att.

      PS: quanto à minha “competência”, deixo para meus leitores julgarem. Se me leem algum bom motivo devem ter.

      1. Não entendi o ponto de ser colonizado. Em qualquer lugar desenvolvido se valoriza a pesquisa acadêmica de qualidade. Apenas acho correto honrar o suado dinheiro dos contribuintes que sustentam as universidades públicas no Brasil com pesquisa e ensino de qualidade.

        Além disso se você olhar o ranking de pesquisa em Economia
        https://ideas.repec.org/top/top.brazil.html

        uma parte considerável é de pesquisadores com doutorado no Brasil e/ou heterodoxos. Essa conversa de discriminação a pesquisas sobre Brasil em journals internacionais é falsa. Há vários artigos recentes no American Economic Review, Economic Journal e na Econometrica analisando desenvolvimento econômico no Brasil. Há varias ótimas revistas heterodoxas que publicam artigos sobre Brasil (Cambridge Journal of Economics, Metroeconomica, Banca Nazionale del Lavoro Quaterly Review).
        Obviamente é necessário escrever em inglês, mas apenas para ter uma linguagem comum.
        Sinceramente acho que o maior risco a gratuidade das universidades públicas está na baixa qualidade acadêmica das áreas de humanas e sociais no Brasil. Justiça e fraternidade é valorizar os impostos dos contribuintes, especialmente pelo fato que a maior parte é pago pela baixa renda.

      2. Prezado Aluisio,
        evidentemente, discordamos.

        Acho que o seu ponto de vista é de colonizado cultural, pois só aceita o julgamento externo. Apesar disso, não se recusa a julgar, leviana e sumariamente, a “baixa qualidade acadêmica das áreas de humanas e sociais no Brasil”.

        Está falando de que e/ou de quem sob que critério? Você ensina e pesquisa melhor? Por que?
        att.

  4. Novamente não entendo seu argumento de ser colonizado. Aceito o julgamento externo sim, já que a sociedade precisa ter parâmetros para julgar se o desempenho é adequado ou não. Pelo que entendo o melhor julgamento de um critério acadêmico é pelos pares, já que assim se estabelecem critérios e bases comuns de julgamento. Isso vale em qualquer ambiente acadêmico sério.
    Meu julgamento sobre a área de humanas e sociais não é leviano. Há vários estudos apontando que a produção acadêmica em sociais e humanas no Brasil é bastante fraca e de baixa qualidade. Há um material mais detalhado, mas só encontrei os slides de um seminário do reitor da Usp na Fapesp que mostra este padrão.
    http://www.fapesp.br/eventos/2011/06/Marco_Antonio.pdf

    Não estou criticando nenhuma pessoa em particular, mas uma situação que precisa ser melhorada no Brasil. Nós temos um dispêndio elevado em ensino superior com um péssimo desempenho. Parte se deve a uma estrutura de incentivos errada, como salários sem relação com desempenho acadêmico, e parte devido a falta de cobrança séria em algumas áreas, como ocorre em humanas e sociais aplicadas.
    Não acho correto eu mesmo opinar sobre a minha qualidade de ensino e pesquisa. Para isso tenho as avaliações didáticas dos alunos e a minha produção acadêmica julgada pelos pares. Talvez possa qualificar afirmando que tenho uma boa produção internacional (A1 e A2s em várias áreas, pela péssima avaliação do qualis, que privilegia quantidade contra qualidade), bolsa de produtividade CNPq , etc, mas não quero fazer disso um argumento de autoridade. Qualquer cidadão que pague impostos no Brasil pode fazer a mesma cobrança, seja um professor titular ou um analfabeto que depende dos resultados da produção científica no Brasil.

    1. Prezado Aluísio,
      você não entende meus argumentos, porém eu entendo seus argumentos que se resumem à condição: se o Brasil copiar as instituições norte-americanas seremos iguais aos EUA.

      Discordo dessa possibilidade histórica de convergência institucional em direção ao padrão da potência hegemônica. Cada povo tem sua história.

      Fundada em 1636, Harvard é a mais antiga instituição de ensino superior dos Estados Unidos. É uma universidade privada cuja história, influência e riqueza tornaram-na uma das mais prestigiadas universidades do mundo.

      Primeira instituição oficial de ensino superior do Brasil, a Universidade do Brasil (atual UFRJ) possui a primeiras atividades em uma Unidade de Ensino apenas em 1792, com a fundação da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, da qual descende a atual Escola Politécnica. Por ser a primeira universidade federal criada no país em 1920, serviu como modelo para as demais.

      A Universidade de São Paulo (USP) é uma das quatro universidades públicas mantidas pelo governo do estado de São Paulo, junto com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (UNESP) e a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). É a maior universidade pública brasileira. Sua origem está na Faculdade de Direito criada em 11 de agosto de 1827, mas tornou-se Universidade apenas no dia 25 de janeiro de 1934.

      A Unicamp foi fundada em 1962, projetada do zero como um sistema integrado de centros de pesquisa, ao contrário de outras universidades brasileiras, geralmente criadas pela consolidação das escolas e institutos anteriormente existentes. Embora a nova universidade tenha sido criada por lei em 28 de dezembro de 1962, o trabalho no novo campus começou no dia 5 de outubro de 1966 e o primeiro edifício concluído foi o Instituto de Biologia, seguido por edifícios administrativos.

      Por exemplo, a pós-graduação na Economia, ainda no IFCH, iniciou-se em 1974. Por ser da segunda turma do Mestrado, sou testemunho ocular das dificuldades de construção institucional de uma Universidade de excelência. Em que pese a escassez de recursos, formou várias figuras públicas notáveis para o País, inclusive uma Presidenta da República, ministros, secretários-executivos, presidentes e vice-presidentes de empresas estatais.

      A UNICAMP é considerada uma das melhores universidades do país e da América Latina. Ela é responsável por cerca de 15% da produção científica brasileira. Ela também produz mais patentes do que qualquer outra organização de pesquisa brasileira, atrás somente da estatal Petrobras.

      Você, simploriamente, acha tudo isso “atrasado”. Teria deixado tudo para “a iniciativa particular”, como em Harvard, e estaríamos iguais aos Estados Unidos?! Ou também acha, como os demais neoliberais (e neocolonizados) sem noção do que estão falando, que é possível privatizar toda a Universidade pública brasileira?! E começando pela destruição da carreira meritocrática dos professores, o que levará à fuga de cérebros?!

      Pelo visto, autor com publicação internacional não demonstra ter conhecimento de história de outros países e das instituições do próprio país.
      att.

      1. Fernando

        Uma sugestão – não reduza seu debate a fantoches ou espantalhos. Não sei de onde você tirou todas essas questões de privatização, neoliberal, etc. Acho que ficou bem claro que minha preocupação fundamental é manter a estrutura atual, com gratuidade de ensino em graduação e pós-graduação acadêmica. Meu ponto é justamente garantir que esta estrutura seja mais eficiente e justa, com um retorno adequado aos contribuintes que sustentam este esquema, valorizando os professores que geram contribuição acadêmica de alto nível. Não comentei ou sugeri em lugar algum privatização ou algo assim, já que pesquisa de qualidade envolve custos e riscos que não são plenamente financiáveis via mercado, especialmente em algumas áreas de exatas e biológicas.
        Quanto a instituições vi que em posts recentes você fez uma revisão do Acemoglu e Robinson. Talvez seja útil para entender que uma estrutura sem meritocracia real é exclusiva e não inclusiva; e serve apenas para preservar interesses corporativos e baixa eficiência.
        Conheço muito bem as universidades paulistas, e tenho menos contato com as federais. Acho que ficou evidente no que postei que conheço bem a Usp e a Unicamp em particular; meu doutorado foi feito na Usp e tenho co-autores na Unicamp.
        Quanto ao exemplo de sucesso na mudança da estrutura de incentivos, o grande exemplo brasileiro é o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), uma organização pública que tem uma estrutura de incentivos e salários baseada na meritocracia acadêmica. A mudança para uma organização social com gestão eficiente ajudou a consolidar o IMPA como um centro de pesquisa líder no mundo, atraindo e formando alguns dos melhores pesquisadores em matemática e computação no mundo. Esse é o exemplo que temos que seguir aqui para garantir uma educação melhor, mais inclusiva e justa.

      2. Prezado Aluisio,
        há muita dificuldade de diálogo entre professores da área de Exatas ou Biológicas e os das Sociais ou Humanas. Há muito tempo, estes sentem a soberba daqueles, achando que seu monismo metodológico é determinante do que é Ciência e não aceitando o pluralismo metodológico de outras Ciências.

        Seu critério de medição de mérito próprio superestima a si próprio e subestima o do outro diferente de si. Desqualifica quem não aprecia publicar “papers” em revistas acadêmicas internacionais. Acha que a titulação destes docentes e pesquisadores não é merecida por ter sido julgada por banca composta de professores da própria área que conhecem de perto o trabalho do candidato!

        Na verdade, desde que se impôs esse padrão de exigência, percebi que iria formar um monte de “babaqualis”. Dito e feito.

        Recusei-me, conscientemente, a jogar esse jogo de cartas-marcadas, isto é, ser julgado como incapaz por pares-rivais “cegos” (sic) escolhidos sob encomenda por editores de revistas “ortodoxas” que se recusam a publicar raciocínios “heterodoxos” quanto à “ciência normal”. Se quiser ser científico ao negar isso, meça a proporção de “textos científicos revolucionários” tanto em publicações internacionais quanto nas nacionais na área de Economia.

        Resolvi “colocar minha cara a tapa”, publicando na rede social. Obtive um número de leitores muito superior ao de qualquer revista acadêmica.

        Trabalho o tempo todo com o melhor dos meus esforços. Dou aulas em todos os níveis — graduação, extensão e doutoramento –, pesquiso e publico sempre, tanto livros, quanto artigos em sites e blogs. Dou palestras, entrevistas, e presto consultorias acadêmicas. Tudo isso sob convite, ou seja, devido à minha reputação profissional. Mas me recuso a submeter-me a gente como você, pois discordo que isto trará algum avanço para o País, antes pelo contrário.

        Cumpri minha carreira de docente e pesquisador com mérito reconhecido por concursos e julgamentos de bancas. E acho incorreto o confisco efetuado no meu salário com base no congelamento artificial do salário pelo governador para, supostamente, “cortar gastos com funcionário público”.

        Expressei isso em um post no meu blog pessoal e recebi uma crítica babaqualis de quem não me conhece, avaliando a priori que não tenho “uma contribuição acadêmica de alto nível”. Ora, então, por que me lê?!
        att.

  5. Caro Fernando

    Acredito que uma das causas fundamentais do subdesenvolvimento e da desigualdade está na manutenção de poder para uma parte da sociedade que se julga acima de regras, regulações e no caso que estamos discutindo, avaliações de desempenho.
    Essa atitude fica evidente nos problemas atuais do país- corrupção e baixa produtividade, que são culpa de toda a sociedade, direita e esquerda. Triste país é esse nosso onde professores afirmam que estão acima da avaliação da sociedade e dos contribuintes.

    1. Prezado Aluísio,
      embora seja uma hipótese forte, a ciência nos obriga a questionar as explicações institucionalistas para a desigualdade mundial.

      No caso, cito os seis aplicativos que diferenciam a Civilização Ocidental e a Civilização Oriental — competição, ciência, direitos de propriedade, medicina, consumismo, ética protestante do trabalho sob o espírito do capitalismo –, segundo Niall Ferguson.

      Mas cito também a Teoria da Desigualdade Mundial, elaborada por Daron Acemoglu e James Robinson. Eles deduzem a necessidade de implantação de instituições inclusivas a la democracia ocidental (euro-americana) em todo o mundo. Hipoteticamente, foram elas as responsáveis pelos sucessos de algumas Nações mais desenvolvidas no Ocidente.

      No entanto, cabe aos cientistas sociais, entre os quais os economistas, questionarem:

      Todos os povos desejam o enriquecimento baseado em direito à propriedade privada, no livre-mercado e na meritocracia individualista?

      Ou será que predomina, em tradição secular de muitos povos, um conformismo religioso e conservador com suas instituições extrativistas e exclusivas?

      Será desejável e possível a superação da milenar estratificação social via castas dinásticas?

      As pessoas per si superam “o mundinho familiar“, ou seja, o amor filial relativo a, pertencente a ou próprio de filho(a), em que há filiação, dependência, subordinação?

      Ou a submissão (servidão) voluntária à alguma religião?

      É comum pensar que há o “meu mundo” e há o “seu mundo“. E “meu mundo” é sempre melhor que “seu mundo”, porque “meu mundo”, veja bem, é racional, e o “seu mundo” é um de superstição, o seu é de fé, o seu é ilógico.

      No caso de duas mitologias diferentes, qual está certa? São duas mitologias diferentes, duas formas de enxergar o mundo. Uma é linear, mecanicista, convergente para um equilíbrio, a outra é cíclica, não-regular, caótica, indeterminada.

      Dependendo do contexto, dependendo dos resultados, escolha seu paradigma. Pois ambos os paradigmas são construções humanas. Eles são criações culturais, não fenômenos naturais.

      Assim, da próxima vez que você conhecer alguém, um estranho qualquer, entenda que você vive dentro de uma verdade subjetiva, assim como ele. Entenda isso. E quando entender isso descobrirá algo espetacular: verá que dentro de uma infinidade de mitos mora a verdade eterna que sempre estaremos buscando.

      Adquiri essa reflexão sobre o Relativismo Institucional através de uma palestra de um sábio indiano: Devdutt Pattanaik.
      att.

      PS: “A opinião pública é a pior entre todas as opiniões”. Talvez seja a menos informada e a mais preconceituosa. Mas a “opinião especializada” de uns pares rivais e antagônicos também não tem viés? E qual é o metro para a medição? A isonomia para medir desiguais?

      Talvez os melhores julgadores sejam os usuários: os alunos no caso de professores e os leitores no caso de autores. Deixe eles construírem, livremente, a reputação profissional do sujeito.

      1. Uma provocação:

        Se em uma prova da sua disciplina do curso de economia um aluno se recusasse a responder as questões e colocasse essa resposta, você aceitaria?

      2. Prezado Aluisio,
        eu peço aos meus alunos para avaliar os resultados dos meus cursos. Eles fazem uma apresentação oral e escrita de respostas individuais (escritas em casa) às seguintes questões:

        ESTADO DA ARTE: Qual era o seu conhecimento sobre as Metodologias de Análise Econômica antes do curso?
        RESUMO DO CURSO: Descrição sumária do Método de Análise Computacional da Complexidade Econômica.
        AVANÇO: Quais foram as lições aprendidas com os resultados das pesquisas e as apresentações realizadas?
        CONTRIBUIÇÃO PESSOAL: Qual é sua avaliação do curso? Por que? Sugestões?

        Entende por que os alunos apreciam meus cursos? Porque demonstram o que aprenderam sem pressão da competição e/ou cobrança de avaliação.

        Como provocação: entendeu ou quer que eu desenhe?
        att.

    1. Prezado Aluísio,
      você teve uma infância infeliz sob autoridade paternal, maternal, religiosa, militar ou educacional?

      Fica indignado por outros terem a capacidade de aprender e/ou ensinar sem “purgatório ou sacrifício” para chegar ao seu “paraíso”, i.é, ganhar “pontinhos Qualis”?

      Não consegue aceitar que filmes ou palestras, hoje disponíveis para serem apresentados e debatidos em qualquer sala-de-aula, têm o mesmo papel educativo que livros, cujas leituras não são excluídas?

      Essa sua postura é chamada de ética deontológica: encontrar e obedecer a uma regra moral, em vez de definir o bem a partir de suas consequências. 

      Faça um esforço para se atualizar em termos didáticos, p.ex., veja a entrevista do professor de Harvard criador do método de Aprendizagem Ativa via pares: https://www.youtube.com/watch?v=iCDXyIrYNS8

      Tente ser mais feliz, cobrando menos de si e dos outros, para se tornar uma boa pessoa e um bom professor.

      E façamos um acordo para satisfazer seu enorme ego: você continua disputando a Olimpíada em sua vã tentativa de ser admirado por ganhar medalha; eu como “deficiente mental” continuarei apenas confraternizando na Paraolimpíada com meus companheiros.
      Só.

  6. Parabéns, Fernando. Já tinha grande admiração por seu trabalho e seu blog, que procuro acompanhar assiduamente. Mas após esse debate vc. conseguiu crescer mais no meu conceito. em especial com seu fecho no comentário de hj: E façamos um acordo para satisfazer seu enorme ego: você continua disputando a Olimpíada em sua vã tentativa de ser admirado por ganhar medalha; eu como “deficiente mental” continuarei apenas confraternizando na Paraolimpíada com meus companheiros.
    Só.”

    E muito obrigada pela sua “Paralimpíada”. Continue com ela.

    Um grande abraço

    Regina Maria

  7. SENSACIONAL o debate, de alto nível, respeito as 2 opiniões, mas tendo a concordar mais com os argumentos do Prof.FNC. Embora minha atividade profissional seja mais restrita ao setor privado de transnacionais, me parece que o debate se encaixa também no debate envolvendo meritocracia, avaliação e remuneração, onde critérios comuns de antes, como o “ranking forçado” ou simples avaliação pelas chefias estão sendo abolidos para métodos mais democráticos e abrangentes.

    O meu aprendizado principal foi com a demonstração da necessidade de maior paciência com o próximo e de busca do entendimento, o que é dificil em tempos onde a grande mídia e elite adotaram de bom grado o estilo neocon de EUA, talvez para interditar o debate e possibilidade de colocar um foco de luz nas complexidades do mundo contemporâneo.

    Obs: Prof.FNC me sensibilizo com a sua indignação após tantos anos de carreira e dedicação, mas fica claro que esse confisco é mais uma das ações dos tucanos visando a futura privatização do ensino superior, que eu suponho que o Sr.Aluisio não veja com preocupação.

    1. Caro Muchacho

      Minha grande preocupação neste debate é justamente garantir a gratuidade. Uma das maiores críticas ao sistema público superior é a baixa produtividade de parte dos professores e funcionários. O uso de métodos de avaliação serve para garantir padrões mínimos de qualidade e eficiência, justamente para garantir o uso correto dos recursos dos contribuintes. Embora seja possível faculdades privadas de qualidade em algumas áreas, em outras toda a pesquisa é mantida por recursos públicos, e por isso é impensável a privatização. Defendo a adoção da estrutura de organização social adotada pelo IMPA.
      As universidades estaduais paulista (USP, UNICAMP e UNESP) tem autonomia orçamentária plena, e por isso suas decisões (além da escolha do reitor na lista tríplice pelo governador) não são determinadas pelo governo estadual.
      No entanto a escolha do reitor Rodas na Usp pelo governador Serra teve consequências severas para a USP, levando a maior crise orçamentária da Usp em toda sua história. É importante notar que o reitor Rodas aumentou salários de funcionários E professores de forma irresponsável, sem nenhuma avaliação de mérito, produtividade ou sustentabilidade de longo prazo, justamente ao contrário de tudo que venho defendendo aqui.
      Espero que minha posição fique clara.

      1. Prezado Aluisio,
        quanto a esses princípios referentes ao uso consciente (e controlado) do dinheiro público estamos de acordo. Discutimos os critérios de avaliação: muitas vezes, bons professores não são bons publicadores — e vice-versa. O carreirismo individualista feito com foco apenas em publicações também deve ser criticado e o desempenho didático do professor deve ser avaliado por alunos e colegas em ciclos de apresentações.
        att.

  8. Fernando

    Concordo com você. É importante ter diferenciações na carreira acadêmica, com professores mais voltados a ensino, pesquisa, extensão, etc. O que justamente acontece nas universidades americanas e algumas européias, com carreiras de clinical professor, lecturers, que são professores dedicados a apenas ensino e divulgação científica, e podem ter uma evolução plena. Nesse aspecto cada carreira tem diferentes critérios de avaliação.
    Na Usp houve uma discussão inicial sobre a reforma de carreiras com esse objetivo, mas foi morta pelo corporativismo. Por isso seria importante reduzir a rigidez existente nas carreiras universitárias, com diferenciação de cargos, carreiras e remunerações.

    1. Prezado Aluisio,
      aqui no IE-UNICAMP, há muitos anos, adotamos uma ponderação das diversas atividades exigidas, pontuando-as diferentemente, para obter condições de se submeter a concursos para titulações e/ou defender teses.

      Também aqui na UNICAMP, desde quando alcançamos a autonomia universitária — para a qual contribuiu decisivamente um colega que era Secretário de Estado, o prof. Belluzzo –, adotamos o critério de eleição para reitor com peso de 3/5 para os votos de todos os docentes (independente da titulação ou cargo), 1/5 para funcionários e 1/5 para alunos. Foi uma cláusula-de-barreira contra o “populismo” tipo Rodas.

      Nesse caso, o “corporativismo” docente tinha uma boa causa: os professores têm a maior responsabilidade de manter a reputação e a memória da Universidade. Os alunos e funcionários passam, eles não.
      att.

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