Era do Aquarius

E quem me ofende, humilhando, pisando,

Pensando que eu vou aturar…

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida,

Duvida que eu vá revidar…

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

A “geração 68” é composta pelos filhos do baby-boom do pós-guerra. No Estados Unidos, foi a primeira geração a conquistar o direito à massificação do Ensino Superior. A casta dos guerreiros – os oficiais da II Guerra Mundial – foi recompensada com o ensino público gratuito. Mas a aliança das castas dos sábios-tecnocratas e dos trabalhadores contra essa casta dos guerreiros se fez valer: depois do warfare-state veio o wellfare-state.

O Estado de Bem-Estar da Europa, lá conquistado pela aliança de lideranças sindicalistas com lideranças políticas socialdemocratas, passou a ser um modelo (“sonho”) almejado pela juventude das Américas. Parte era crítica ao “reformismo” e desejava “pular etapa”, saltando diretamente para a revolução socialista: Cuba é aqui! Outra parte percebeu que a defesa da democracia é o maior valor face ao totalitarismo ou autoritarismo.

A “geração hippie” foi um protesto pacifista contra a sociedade materialista-consumista e a nova convocação para “a morte pela pátria”, nos anos 60, pela casta dos guerreiros, desta vez aliada com a casta dos sábios-tecnocratas. Esta golpeou, como é praxe, a aliança anterior.

Dessa ruptura, no entanto, nasceu a dissidência de uma casta de trabalhadores criativos na indústria de informática – a geração Apple – que almejava não o fim da sociedade do consumo, mas sim o respeito ao direito dos consumidores a comprar produtos úteis. Criou a rede social de inter-relacionamentos mundiais. Na casta dos comerciantes também há dissidentes, que com tolerância e liberalismo cultural, podem se aliar às castas dos trabalhadores com ceticismo face ao livre-mercado e sábios-pregadores não conservadores que buscam autonomia e autoexpressão.

Para entender a geração censurada, nos anos 1964-1984, tem de se perceber como ela se expressava através de letras de músicas brasileiras e o som do rock internacional. Sua trilha-sonora é fundamental. Simbólica daquela geração foi a ópera-rock Hair. Quem viveu os anos 70 não se esquece da gravação de Aquarius/Let’s The Sunshine In pelo grupo The Fifth Dimension. Cantavam:

Harmonia e compreensão

Simpatia e confiança em abundância

Não mais falsidade ou escárnio

Visões de sonhos vivos e dourados

Revelação do cristal místico

E a verdadeira libertação da mente

Aquarius!

Aquarius!

Quando mudava o ritmo e a letra para Let’s The Sunshine In, sentia-se um frio na espinha, tremor na pele e quase lágrimas nos olhos…

Oh, deixe-o brilhar, c’mon

Agora todo mundo só canta junto

Deixe o sol entrar

Abra seu coração e deixe-o nele brilhar

Quando você estiver sozinho, deixe-o brilhar

Tem que abrir seu coração e deixá-lo nele brilhar

E quando você sente como se tivesse sido maltratado

E seus amigos se afastam

Basta abrir o seu coração e deixá-lo nele brilhar

aquarius1

Minha leitura do imperdível filme de Kleber Mendonça – Aquarius –, aliás seu segundo longa-metragem e na mesma trilha do brilhante primeiro (“O Som ao Redor”), é que ele não só é um retrato social do Brasil contemporâneo, mas também é uma amostra da superação do conflito de gerações pelo verdadeiro conflito de interesses reais entre as castas brasileiras.

Os jovens reaças da casta dos comerciantes são, aparentemente, educados, porém sem caráter, pois aprenderam com o poder dinástico que o dinheiro compra tudo. E quando não conseguem comprar o caráter, reagem violentamente, aliás, na tradição dos velhos coronéis do engenho e dos porões da tortura. A Casa-Grande está carcomida pelos cupins.

Aquarius, no caso, é o nome do pequeno prédio da única moradora que resiste às investidas de membros da casta dos comerciantes-incorporadores. Estes, sejam velhos, sejam jovens doutrinados em business nos States, acham que o dinheiro compra tudo. E pior, muitos representantes da classe média concordam com eles e se revoltam contra a resistência à venda de sua história pessoal por dois milhões de reais…

Clara, a personagem-protagonista, é extraordinariamente representada pela ex-Dama da Lotação e ex-Dona Flor e seus dois maridos, Sonia Braga, com suas rugas, suas cicatrizes de uma vida bem vivida e seu único seio. Sônia Braga nasceu em 8 de junho de 1950, um ano e pouco antes de mim. É perfeita para nos representar, isto é, a todos da nossa geração que não são reacionários. Ela falando parece ter a mesma fala da nossa Presidenta eleita, Dilma Rousseff (Belo Horizonte, 14 de dezembro de 1947): é a mesma sintaxe e com as mesmas pausas! Revela o mesmo caráter e honestidade!

Tenho muito orgulho dos meus companheiros de geração, aqueles que foram militantes de esquerda em suas juventudes e que não venderam seus sonhos nem seu caráter honesto. Os indignados com o momento presente (pós-golpe) sequer discutem se a venda da honra é uma questão de preço. Embora sofram pressões até de alguns filhos para aceitar a ilusão de se tornar milionário. Mas deram liberdade a cada qual para escolher seu destino. O filho homossexual é acolhido com mais respeito do que a alienação mercantilizada de outros.

No filme aparece a transição (e a transmissão de conhecimento e sensibilidade) entre gerações de gente culta.Mostra o exemplo da tia da Clara, mulher desbravadora que fez sua carreira profissional para resistir e lutar por direitos, inclusive à liberdade de dispor de seu corpo como lhe aprouver, para seu gozo sexual. A própria Clara o segue ao se tornar uma jornalista bem sucedida. Ela sacrifica dois anos longe de seus filhos para conquistar o direito a (e a consciência para) a resistência contra a invasão dos bárbaros incorporadores imobiliários.

No filme aparecem também os “coxinhas” e os “mortadelas”. A sociedade brasileira se dividiu sim entre os incultos e os cultos, e não entre os burros e os inteligentes. Infelizmente, a inteligência passou a ser vista como esperteza pessoal, “passar os outros prá trás” e ascender socialmente à custa de algum milhãozinho.

Lendo os colunistas direitistas, escutando os neofascistas da mídia, vendo as truculências dos membros da casta de guerreiros saudosos da ditadura militar, parece que vivemos o retrocesso ao Império da Burrice. Uma hipótese é que é que a rede social aceita qualquer impropério sem autocensura. Outra é que a direita saiu do armário para as ruas, em junho de 2013, não sofrendo restrição pelos demais manifestantes, e para as colunas do PIG (Partido da Imprensa Golpista). Assim, os direitistas deixaram de temer [proposital] a demonstração de ignorância estúpida contra “as minorias”. Esta constitui uma maioria ainda sem consciência de seu poder de ação coletiva, mas já está a conquistando.

A esperança continuará a vencer o medo. Estamos vivendo a passagem do bastão de uma velha militância de nossa geração baby-boom, 68 e hippie, para uma nova geração rede-social em defesa das interações entre direitos civis, políticos, sociais e econômicos, inclusive o direito à própria moradia, das quais emergirá uma sociedade com democracia socioeconômica e política consolidada. Será uma longa batalha política e cultural, mas quero crer que, no final, o carnaval chegará novamente. Vivemos de novo a Era do Aquarius, a da resistência e a da esperança.

aquarius

Age Of Aquarius/Let The Sunshine In

5th dimension

 

When the moon is in the Seventh House

And Jupiter aligns with Mars

Then peace will guide the planets

And love will steer the stars

This is the dawning of the age of Aquarius

Age of Aquarius

Aquarius!

Aquarius!

 

Harmony and understanding

Sympathy and trust abounding

No more falsehoods or derisions

Golden living dreams of visions

Mystic crystal revelation

And the mind’s true liberation

Aquarius!

Aquarius!

 

When the moon is in the Seventh House

And Jupiter aligns with Mars

Then peace will guide the planets

And love will steer the stars

This is the dawning of the age of Aquarius

Age of Aquarius

Aquarius!

Aquarius!

Aquarius!

Aquarius!

 

— instrumental and tempo shift —

 

Let the sunshine, let the sunshine in, the sunshine in

Let the sunshine, let the sunshine in, the sunshine in

Let the sunshine, let the sunshine in, the sunshine in

 

— continue to end with concurrent scat —

 

Oh, let it shine, c’mon

Now everybody just sing along

Let the sun shine in

Open up your heart and let it shine on in

When you are lonely, let it shine on

Got to open up your heart and let it shine on in

And when you feel like you’ve been mistreated

And your friends turn away

Just open your heart, and shine it on in

2 thoughts on “Era do Aquarius

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