Thomas S. Kuhn e A Estrutura das Revoluções Científicas

Estrutura

Thomas S. Kuhn iniciou sua carreira universitária como físico teórico. As circunstâncias levaram-no ao estudo da história e a preocupações de natureza filosófica. Trajetória incomum, que este livro de certa forma sintetiza e que explica seu caráter polivalente.

Múltiplas áreas, desde as Exatas até as Humanas, convergem para as agudas análises, que levam o autor, questionando dogmas consagrados, a ver o progresso da ciência não tanto como o acumulo gradativo de novos dados gnosiológicos, e sim como um processo contraditório marcado pelas revoluções do pensamento científico.

Tais revoluções são definidas como o momento de desintegração do tradicional numa disciplina, forçando a comunidade de profissionais a ela ligados a reformular o conjunto de compromissos em que se baseia a prática dessa ciência.

Um dos aspectos mais interessantes de A Estrutura das Revoluções Científicas (12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013 – original de 1962) é a análise do papel dos fatores exteriores à ciência na erupção desses momentos de crise e transformação do pensamento científico e da prática correspondente.

Um ensaio de Ian Hacking, escrito para o quinquagésimo aniversário da edição de A Estrutura das Revoluções Científicas, esclarece termos popularizados por Kuhn, incluindo paradigma e incomensurabilidade e aplica suas ideias à ciência dos dias de hoje. Resumo-o em uma série de posts.

Na verdade, segundo Kuhn, não há progresso por acumulo gradual de conhecimentos e/ou experimentos, mas por disrupturas na chamada ciência normal. Esse pensamento de certo modo justificava, por assim dizer, as grandes transformações nos modelos científicos que preencheram a ciência do fim do século XIX e do século XX. Entretanto, nem por isso A Estrutura deixa de cumprir o seu papel crítico e perscrutador ante os enormes avanços das Ciências Biológicas e sua fusão com as Ciências Físicas em geral, traduzidas pela biotecnologia e tecnologia em sentido mais amplo.

Na primeira sentença da página 59 de “A Estrutura das Revoluções Científicas” Thomas S. Kuhn afirma: “Se a história fosse vista como um repositório para algo mais do que anedotas ou cronologias, poderia produzir uma transformação decisiva na imagem de Ciência que atualmente nos domina.”

Logo, “Thomas Kuhn estava empenhado em mudar nosso entendimento das ciências, isto é, das atividades que tornam a nossa espécie apta – para bem ou para o mal – a dominar o planeta. Ele foi bem sucedido”.

A 12a. edição comemora o quinquagésimo aniversário da Estrutura. Desde 1962 um longo tempo se passou. As próprias ciências mudaram radicalmente. A rainha das ciências, então, era a Física. Kuhn foi formado como um físico. Pouca gente sabia muita Física, mas todo mundo sabia que a Física estava no centro da ação. A Guerra Fria se achava em andamento, de modo que todo mundo estava ciente do risco da Bomba Atômica!

“A Guerra Fria há muito acabara, e a Física não estava mais no centro da ação. Outro evento de 1962 foi a concessão do prêmio Nobel a Francis Crick e James Watson pela biologia molecular do DNA e a Max Perutz e John Kendrew pela biologia molecular da hemoglobina. Foi o prenúncio da mudança. Hoje, o momento é o das Leis da Biotecnologia.

Kuhn tomou a Ciência Física e a sua história como seu modelo. Você terá que decidir, depois de ler este livro, acerca do alcance do que ele disse sobre as Ciências Físicas, se ainda é válido no prolífico mundo atual da Biotecnologia. Adicione a isso a Ciência da Informação. Adicione aquilo que o computador fez para a prática da Ciência. Até mesmo o experimento não é mais o que era, porque ele tem sido modificado e, em certa medida, substituído por simulação computacional.

E todos sabem que o computador mudou a comunicação. Em 1962, os resultados científicos eram anunciados em encontros, em seminários especiais, em “preprints” e depois em artigos publicados em revistas especializadas. Hoje, o modo primeiro de publicação é o arquivo eletrônico.

Assim A Estrutura das Revoluções Científicas pode ser mais relevante para uma época pretérita da história da ciência do que para a ciência tal como é praticada hoje.

Mas pergunta-se: este é um livro de História ou Filosofia? Em 1968 Kuhn iniciou uma palestra persistindo em dizer “encontro-me diante de vocês na qualidade de historiador da ciência… Eu sou membro da American Historical e não da American Philosophical Associatíon”.

Contudo, na medida em que ele organizou seu próprio passado, passou crescentemente a apresentar-se sempre como tendo tido primeiramente interesses filosóficos. Embora a Estrutura haja exercido imenso impacto imediato sobre a comunidade de historiadores da ciência, seus efeitos mais duradouros foram provavelmente sobre a filosofia da ciência e, sem dúvida, sobre a cultura pública. Tal é a perspectiva a partir da qual esta introdução de Ian Hacking foi escrita.

Vamos recuperar os principais conceitos dessa obra clássica sobre A Estrutura das Revoluções Científicas em uma sequência de posts.

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