Ciência Normal e Resolução de Quebra-Cabeças

Kuhn

Os pensamentos de Kuhn eram extremamente chocantes. A ciência normal é, ensinava ele, apenas trabalhar continuamente para resolver alguns poucos enigmas que ficaram sem solução no campo atual do conhecimento. A resolução de enigmas nos faz pensar em palavras cruzadas, quebra-cabeças e sudoku, modos agradáveis de se manter concentrado quando não se está pronto para um trabalho útil. A ciência normal é assim?

Muitos leitores, cientistas atuantes, ficaram um tanto chocados, mas depois tiveram de admitir que é assim que as coisas ocorrem em boa parte de seu trabalho cotidiano. Problemas da pesquisa não visam a produzir efetivas novidades.

Uma única frase da página 103 sumaria a doutrina de Kuhn: “Talvez a característica mais impressionante dos problemas normais da pesquisa que acabamos de examinar seja seu reduzido interesse em produzir grandes novidades, seja no domínio dos conceitos, seja no dos fenômenos”.

Se você examinar qualquer revista destinada à pesquisa, escreveu ele, você se deparará com três tipos de problemas dirigidos:

  1. determinação de fatos significantes;
  2. pareamento de fatos com a teoria; e
  3. articulação da teoria.

Para ampliar isso ainda que levemente:

  1. A teoria deixa certas quantidades ou fenômenos inadequadamente descritos e apenas nos informa qualitativamente o que esperar dela. Mensuração e outros procedimentos determinam os fatos de modo mais preciso.
  2. Observações conhecidas não concordam inteiramente com a teoria. O que está errado? Ponha em ordem a teoria ou prove que os dados experimentais estão imperfeitos.
  3. A teoria pode ter uma sólida formulação matemática, mas não estamos ainda aptos a compreender suas consequências. Kuhn dá o apropriado nome de articulação ao processo de trazer à luz o que está implícito na teoria, amiúde por análises matemáticas.

Embora muitos cientistas atuantes concordem que seu trabalho confirma a regra de Kuhn, isso ainda não soa como algo completamente certo. Uma razão pela qual Kuhn coloca as coisas dessa maneira é que ele (como Popper e muitos outros predecessores) ensinou que o trabalho primordial da ciência era teorético.

Ele respeitava a teoria e conquanto tivesse uma boa percepção do trabalho experimental apresentava-o como de importância secundária. Desde os anos de 1980 houve uma mudança substancial de ênfase, na medida em que historiadores, sociólogos e filósofos prestaram mais seriamente atenção à ciência experimental.

três tradições de pesquisa paralelas, porém amplamente independentes:

  1. a teórica,
  2. a experimental e
  3. a instrumental.

Cada qual é essencial para as outras duas, porém, elas possuem de per si um bom espaço de autonomia: cada uma tem sua própria vida. A imensa inovação experimental ou instrumental é simplesmente omitida na postura teórica de Kuhn de modo que a ciência normal pode conter uma grande porção de inovação, mas não exatamente de teoria.

Para o grande público, que deseja tecnologias e curas, as inovações pelas quais a ciência é admirada são em geral não teóricas em absoluto. Daí por que a observação de Kuhn soa insensata, de algum modo.

Para uma ilustração atual do que é absolutamente correto, e também do que é questionável, na ideia de ciência normal de Kuhn, observe que a Física de alta energia mais amplamente difundida pelos jornalistas científicos se refere à busca da partícula de Higgs. Isso envolve um incrível tesouro tanto de dinheiro como de talento, tudo dedicado a confirmar o que a Física de hoje ensina – que há uma partícula, ainda não detectada, que desempenha um papel essencial na própria existência da matéria.

A ciência normal não visa à inovação. Mas a inovação pode emergir da confirmação de teorias já sustentadas. De fato, espera-se que quando as devidas condições para trazer à tona a partícula forem finalmente estabelecidas, uma geração inteiramente nova de Física de Alta Energia começará.

A caracterização de ciência normal como resolução de quebra-cabeças sugere que Kuhn não julgava que a ciência normal fosse importante. Ao contrário, ele ensinou que a atividade cientifica era enormemente importante e que a maior parte dela é ciência normal.

Hoje em dia, até cientistas que se mostram céticos em relação ao ensinamento de Kuhn sobre as revoluções nutrem grande respeito pela explicação que ele dá de ciência normal.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s